31 outubro 2007

Excertos dos Diários de Adão e Eva

A propósito deste post, com um texto de Yvette Centeno que fala de corpos e almas, da fusão dos corpos e das almas, lembrei-me de um maravilhoso livro de Mark Twain que há uns anos foi traduzido e publicado em Portugal, pela editora Cavalo de Ferro, que se intitula Excertos dos Diários de Adão e Eva (Extracts from Adam's Diary, no original).

É um livro cheio de ternura e de uma sábia serenidade. Deixo apenas a frase que encerra os diários, escrita por Adão: Onde quer que ela estivesse era o Éden.

O livro está esgotado na Cavalo de Ferro, mas há uma outra editora que apostou nele: Coisas de Ler - O Diário de Adão e Eva.

Imperdível.

30 outubro 2007

Big Brother Bancário

Sugiro ao BCP e ao BCI, e a outros bancos que se queiram associar, que resolvam os problemas das fusões amigáveis, OPAS hostis e outros assuntos importantes, participando num Big Brother Bancário.

A RTP poderia ser o canal responsável pelo concurso, com a Fátima Campos Ferreira no papel de Teresa Guilherme. Para a Casa poderiam convidar o Jardim Gonçalves, o Joe Berardo, o Fernando Ulrich, Filipe Pinhal, Paulo Teixeira Pinto, Paula Teixeira da Cruz, Vítor Constâncio, Ana Gomes, António Carrapatoso, Ricardo Salgado, Helena Roseta, Carlos Ferreira, Santana Lopes e António Pinho. Enfim, também poderiam ir a Maria Barroso e claro, a Ana Maria Lucas, para fazer uma certa ligação com os outros concursos, e para ambientar os novos concorrentes à Casa.

Depois os espectadores votavam todas as semanas, expulsando regularmente um dos concorrentes. Quem ganhasse, ficava com tudo.

Era muito mais interessante, e seguramente mais produtivo, tratar dos negócios da banca assim, tudo às claras, tudo ao sol, tudo na TV.

28 outubro 2007

Escutas e SIS

Sou totalmente ignorante no que diz respeito a serviços de informações de segurança (SIS), portugueses ou outros, mas gosto imenso de ler livros e de ver filmes de espionagem.

Por isso, na minha total e absoluta ignorância, acho extraordinário o coro de protestos que se levanta quanto à possibilidade de se utilizarem escutas telefónicas pelo SIS.

Então não são utilizadas? Deve ser mesmo o único país o mundo que não utiliza escutas telefónicas para prover à segurança e vigilância dos cidadãos, principalmente em época de tanto terrorismo.

Claro que isto é só extrapolando da ficção para a realidade. A imaginação dos realizadores e os escritores é imensa e nem é costume basear-se em casos reais.

Estatuto do aluno

Maria de Lurdes Rodrigues, após um mandato em que dava a impressão de se pautar pelo rigor e pela exigência, querendo terminar com a política do “eduques”, deu uma machadada terrível na sua credibilidade ao aprovar um estatuto do aluno.

É assim que se reduz drasticamente o abandono escolar – acabar com os chumbos por faltas injustificadas e inventar umas provas de recuperação para encobrir a verdade – a partir de agora é legal não por os pés nas aulas.

Mas que forma fantástica e original de melhorar a performance do sistema educativo.

Pelos Jornais

Confesso que não consegui perceber esta notícia. Afinal, o que é que se passa e o que é que muda? Os imigrantes precisam de mais condições para serem legalizados, para além de terem contrato de trabalho, descontarem para a segurança social e terem entrado legalmente no país?

Os imigrantes ilegais vão poder legalizar-se como?

Os esclarecimentos sobre o artigo 88º, alínea 2, prestados por José Magalhães, não me esclareceram rigorosamente nada.

Será que o problema é meu, da lei, ou de quem escreveu o artigo? Será que Céu Neves percebeu alguma coisa do que escreveu?

Espero que seja só obnubilação matinal dominical.

Pelo contrário, concordo na totalidade com o artigo de António Barreto no Público - Da mentira como virtude política (obrigada a LA-C), claro e cristalino, sobre a mentira que se tornou num estado de arte para a política.

José Sócrates está a alimentar um tabu completamente infantil e despropositado sobre a sua decisão quanto a referendar ou não o Tratado de Lisboa. Está a perder o timing e a deixar que se avolume a suspeita de que a sua opinião será ditada pela posição revista e retocado do PSD.

Se for favorável, também poderá ser vista como uma decisão tomada a reboque de várias pressões de grupos ou individualidades, e não o resultado de uma convicção firme do que está correcto fazer – cumprir uma promessa eleitoral.

27 outubro 2007

Tríptico

1.
Murmuro palavras
orações de caminhante
enrolo mantas
seguro lanternas
sorvo golfadas
de solidão.


2.
Devagar as pedras
empilham-se na madrugada.

Não há réstia de luz
que alumie esta estrada.


3.
Crianças de joelhos sujos
e mãos laboriosas

acabam de descobrir
caracóis e bichos da conta

abrem gavetas na memória
onde guardam intactas

as manhãs sem história.


(escultura de John Robinson: Umbrella Children)

Arthur & George

Este é um livro com vários livros dentro.

É a biografia de Arthur Conan Doyle, um homem feito para ser um herói romântico, que vive e procura a aprovação das mulheres da sua vida, desportista, médico, escritor (criador de Scherlock Holmes) e crente no espiritismo e ocultismo.

É a biografia de George Edalji, filho de indianos, míope em vários sentidos, que acredita no poder da lei, na justiça da lei, na lei como veículo da cultura inglesa, no respeito e conhecimento da lei como passaporte para o reconhecimento da sua capacidade (e vontade) em ser inglês.

É a história de um encontro entre dois seres tão diferentes, a sua amizade e o modo como se influenciaram mutuamente, alterando o percurso das suas vidas.

É uma história de amor, do amor filial, do amor a Deus e do seu desamor, do amor a um modo de vida, do amor patriótico, do amor platónico, do amor paternal, do amor por causas, do amor por si próprio.

É uma história policial, em que se pretende desvendar um mistério que levou a um erro judiciário.

É uma história que demonstra o autismo a que podem chegar as corporações, de preconceitos e ideias feitas, da falta de assunção de responsabilidades por parte dos vários poderes, do judicial ao político.

Tudo muito bem escrito, muito sóbrio, diria mesmo totalmente inglês.

(capa do livro Arthur & George, de Julian Barnes)

Respeito

As últimas sondagens mostram um decréscimo das intenções de voto no PS e em Sócrates e um aumento das intenções de voto no PSD e em Luís Filipe Menezes.

Não espanta a ninguém que isto suceda. Mas é preocupante, se concordarmos com a interpretação de que a descida da popularidade de Sócrates arrasta a descida do PS.

Este governo tinha (e tem) uma tarefa hercúlea pela frente: um défice enorme e a ameaça da espada do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), a reforma da administração pública (que todos os partidos acham indispensável mas nenhum a tentou), a sustentabilidade da segurança social e do serviço nacional de saúde, a reforma do sistema educativo.

É verdade que muita coisa tem sido feita. Mas muito mais tem sido dito que se vai fazer. Por outro lado, falta uma avaliação séria das medidas entretanto implementadas, principalmente aquelas que poderão ter mais consequências negativas no bem-estar da população, mesmo que só aparente.

Onde está a avaliação da reorganização dos serviços de urgência, dos blocos de parto, do reforço do INEM, da reestruturação dos cuidados primários de saúde, da implementação dos cuidados continuados?

Onde está a avaliação das alterações o sistema educativo, desde a do estatuto da carreira docente, à contratação dos profissionais por 3 anos, às aulas de substituição, à reforma do ensino da matemática e do inglês, até aos resultados dos exames nacionais?

O desemprego aumenta, como sempre nos disseram que seria de esperar. Mas as promessas eleitorais, ainda por cima em matéria tão sensível como esta, devem ser cumpridas, assim como justificadas as faltas de cumprimento.

Respeito. A falta de respeito nunca é perdoável. Sócrates e o PS devem respeito aos seus concidadãos. Sócrates deve ouvir e explicar, avaliar e reconhecer, preparar-se para o embate com o rei da inutilidade e do ruído de fundo que é Santana Lopes, não com irritação, paternalismo e condescendência, mas com a verdade dos factos e a segurança das suas ideias sobre o país.

O cumprimento das promessas eleitorais é um dos factores mais exuberantes da demonstração do que é o respeito, em termos políticos. O referendo ao tratado de Lisboa pode ser uma oportunidade para mostrar esse respeito por quem nele acreditou. Não bastam palavras nem boas intenções.

Este é o momento de viragem. Sócrates pode optar pela continuação do autismo e da arrogância governativas, que o levarão à derrota nas eleições de 2009, ou pela retoma dos valores de respeito por quem governa e de determinação para corrigir o que deve ser corrigido.

Eu ainda não me esqueci de Santana Lopes, de Durão Barroso ou de Guterres. Espero que Sócrates também não.

26 outubro 2007

Putin

Não gosto de Putin. Arrepia-me ver este homem ser recebido com esta pompa e esta circunstância por um país democrático, pelo Presidente de um país democrático, pelo Primeiro-Ministro de um país democrático, pela Presidência da União Europeia.

O Presidente da Rússia passeia-se com a segurança de um autoritarismo onde impera a repressão da expressão de opiniões, os crimes contra jornalistas e dissidentes, o apoio ao Irão nuclear, ao Irão negacionista, ao Irão teocrático, misteriosos e calados assuntos em tão estreita e rígida figura.

Não gosto de Putin. Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos deveriam ser para levar a sério neste país democrático, nesta Europa Unida.

Férias

Dormir, ler, comer, passear, namorar, o ócio, o prazer de nada fazer, sem compromissos de ocupação de trabalho ou de lazer.

Estas são as verdadeiras férias, de pulmões vivificados, de olhos banhados de verde e azul, de cabeça cheia de histórias que aguardavam a placidez destes dias.

Já não é Verão e ainda não é Outono. As árvores não se decidem entre o verde e o castanho, o chão recebe folhas estaladiças e, ao fim da tarde, sabe bem um abrigo.

Na preguiça das noites estreladas, devoram-se páginas de livros, olha-se distraidamente o jornal, adormece-se a ouvir as notícias.

Férias de nós e do mundo.

Escolas

Após um editorial muito inflamado de José Manuel Fernandes, clamando contra a Ministra da Educação que, oh horror, disponibilizou os resultados dos exames de 2007 sem, previamente, os ter divulgado aos jornalistas, não dando tempo ao Público de fazer um tratamento suficientemente rápido dos números, de forma a que o seu ranking aparecesse antes ou ao mesmo tempo dos rankings dos outros jornais, obviamente fiquei atenta ao que os media iriam dizer

O costume: que as escolas privadas são melhores que as públicas, esquecendo que as escolas públicas não escolhem os seus alunos, e esquecendo o custo das escolas privadas, o que fracciona imediatamente o universo estudantil.

Mas começam a desenhar-se outros argumentos, subtilmente, que considero potencialmente mais perigosos pela manipulação que poderão fazer da opinião pública: que as escolas religiosas são melhores que as laicas e que a separação de géneros melhora a performance escolar. Coincidência ou não, estes argumentos vêem das escolas que juntam estas duas características.

É verdade que há estudos científicos em que se observam diferenças de aprendizagem e de maturação entre os dois géneros, que poderão servir de base a abordagens diferentes na forma como se leccionam os vários assuntos, tendo em conta estas diferenças. Mas ainda não vi nenhum estudo que advogue uma separação entre os sexos para melhorar a aprendizagem.

Quanto ao factor religioso, é uma questão de crença. Mas nestas coisas do ensino, não sou a favor da fé num sistema, mas em sistemas que estejam confirmados cientificamente, na formação dos professores, na motivação dos alunos, que pode ser outra que não a religião, na disciplina, na exigência, na curiosidade, no gozo de aprender, nas leituras, no trabalho, na cultura do mérito.

A Escola Pública de qualidade é a única que pode propiciar uma verdadeira igualdade de oportunidades, é a única que pode ser um factor de inclusão social, de envolvimento e acolhimento das comunidades imigrantes, uma educação para a solidariedade.

Pois a Escola é mais do que formar máquinas que tiram boas notas. A Escola deve formar futuros cidadãos qualificados, que saibam e que gostem de aprender, inseridos na sua sociedade.

Sim à Europa

O referendo ao tratado constitucional /constituição foi uma promessa do PS e do PSD em campanha eleitoral. A própria constituição foi revista para se poderem referendar tratados que aprofundem a construção europeia.

Com a aprovação do Tratado de Lisboa, que substitui o referido tratado constitucional/constituição, o PS e o PSD parecem ter esquecido as promessas eleitorais e querem arriscar-se a ratificar o tratado sem o referendar.

Várias desculpas têm sido apontadas para que a ratificação seja parlamentar, desde a bondade da democracia representativa até à ilegibilidade do mesmo.

Seria bom que os nossos representantes, nomeadamente José Sócrates, não tratassem os eleitores como tontos, ignorantes, enfim, de uma menoridade mental assinalável, embora tenham tido esperteza suficiente para os elegerem. Se o tratado é ilegível (e é-o, de facto), não resta outra solução aos autores senão tornarem-no legível, e aos seus defensores explicarem-no, para que nos convençam da inevitabilidade e da importância da sua ratificação.

O que não é admissível é transformar o referendo a este preciso tratado num referendo à permanência ou saída de Portugal da União Europeia, como vem sendo advogado por Vital Moreira e, pasme-se, por Ana Gomes.

Ser-se a favor ou contra este tratado não é o mesmo que se ser a favor ou contra a permanência de Portugal na União Europeia. Esse é um argumento desonesto, demagógico e uma tentativa de chantagem inqualificável.

22 outubro 2007

Repouso



Lugar onde o silêncio é azul e a claridade uma melodia.

Pinto Monteiro e os media

O Procurador Geral da República incendiou a comunicação social de propósito ou incidentalmente?

Se foi propositado não percebo o objectivo.

Se foi sem querer, será que temos um irresponsável com esta responsabilidade toda?

20 outubro 2007

Carta

Hei-de escrever
uma carta
hei-de recortar
uma qualquer
forma geométrica
de pele
para esticar comprimir
secar de odores
gorduras manchas
hei-de riscar
tatuar em gomos
a sede a fome
a inexplicável
necessidade de ti.


[pintura de Andrew Stockwell: writing letters (by means of apology)]

E que tal pensar nisso?

Seria muito interessante que o Ministro da Saúde aproveitasse o relatório da auditoria ao SIGIC para rentabilizar mesmo os hospitais e centros de saúde, para aumentar os tempos dos blocos operatórios, fidelizar os funcionários ao seu local de trabalho e acabar com a promiscuidade entre o público e o privado.

Como se deduz do relatório, o tempo de espera para cirurgia diminuiu à custa de uma gestão centralizada e informatizada das listas de espera, pois o acesso ao sistema não melhorou, não houve aumento de produtividade das unidades hospitalares, nem individualmente dos cirurgiões, tendo os custos aumentado na fase inicial e reduzido numa fase posterior, não parecendo ter havido quaisquer ganhos.

Seria também muitíssimo interessante que o Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de invectivar o Ministro por causa da alteração do código deontológico para que os cumpridores da lei não fossem penalizados pela sua ordem profissional, ou sobre o inacreditável argumento da diminuição da produtividade médica pela implementação de um sistema biométrico de controlo de assiduidade, se preocupasse com a defesa e remodelação das carreiras médicas, pilares fundamentais da qualidade de prestação médica no nosso país.

Com a alteração dos vínculos de trabalho e de relação laboral entre os médicos e o seu empregador Estado, é indispensável que a Ordem dos Médicos se sente com o Ministério, com os sindicatos e com outras estruturas representativas da classe para regular e remodelar os graus da carreira, a atribuição de graus, as funções de cada grau, porque será ela, a Ordem, o tronco comum da formação médica, pré e pós graduada.

As unidades privadas de saúde devem ter, tal como as públicas, garantia de poder contratar médicos com qualidade e em contínua formação, assim como os médicos que trabalham para as unidades privadas devem ter assegurados os seus direitos a formação contínua e progressão na carreira. Para além disso, é necessário repensar o treino de especialistas, nomeadamente a idoneidade formativa dos serviços ou grupos de serviços.

Essas são preocupações que têm directa repercussão na saúde das populações. E que tal pensar nisso?

19 outubro 2007

Esquizofrenia política

Mesmo com cepticismo em relação ao que resultará do Tratado de Lisboa, não posso deixar de considerar uma vitória do governo, do Ministro dos Negócios Estrangeiros e de José Sócrates, o acordo alcançado para a assinatura do Tratado.

Outro assunto é a sua ratificação. Sócrates prometeu o referendo em campanha eleitoral; nos últimos tempos tentado recuar, com receio que o resultado do referendo seja desfavorável, estando aliás em acerto com o Presidente da República.

Muitas vozes se têm levantado contra o abandono do referendo, entre as quais a de Pacheco Pereira.

Qual não é o meu espanto ao ler um post do mesmo Pacheco Pereira, em que numa retorcida teoria acaba por afirmar que até pode ser que Sócrates avance para o referendo para ter ganhos políticos internos, denegrindo a posição que ele, Pacheco Pereira, sempre defendeu.

Portanto, para Pacheco Pereira, se Sócrates não quiser referendar está mal, pois desrespeita o povo que o elegeu, diminui a democracia e afasta os cidadãos dos governantes; se Sócrates referendar também está mal, porque o faz apenas e só porque daí tirará dividendos políticos internos, ganhando pela dúbia posição do PSD.

Pacheco Pereira entrou em delírio, em plena esquizofrenia (ou desonestidade?) intelectual.

18 outubro 2007

Agulhas

Algumas teimosas
esperas raras
assimétricas
agulhas sem barco
sem rio.

Almas quebradas pelo frio.

Quebradas.


(aguarela de Blue: I can see the universe in a handful of fallen pine needles...)

Na tua direcção

Apetece-me um armário vazio
estranho saber de pedras
de perdas de raízes.

Apetece-me uma grande mesa
sem forma um vidro
frágil colorido.

Apetece-me na tua boca
areia do tempo
algas eternas.

Apetece-me no teu corpo
mapas sinais
roda do mundo.

Na tua direcção.

(Steele Wrought Iron & Custom Metal Art: greentable)

Nódoa

Olha com mais atenção. Nem a limpeza das calças consegue manter, a única especificidade lisa, asseada, campestre, sóbria mas sofisticada, a que tem direito.

Uma nódoa cinzenta sobressai com uma lanterna na escuridão da noite. Molha a ponta do indicador com saliva e esfrega aplicadamente o tecido rugoso.

Desapareceu. Com a nódoa, ela também.

Eco

O estrondo da porta
ainda faz eco
transmite-se pelo ar
pelo corpo
em ondas de choque
como um terramoto
e as suas réplicas.

(pintura de Mauricio Ortiz: Echo)

Perfeito

Perfeito o nome
o contorno
as letras que respiram,

perfeito o sabor
indizível
dos tempos que resistem,

perfeito o sangue
espesso
dos amores que persistem.

(pintura de Magritte: Le Beau Monde)

16 outubro 2007

Ponteiros

Passam os segundos
nos ponteiros.
Páginas
de eternidade
em serena
cumplicidade.

(pintura de Francis Picabia)

Paula Rego - exposição em Madrid

Salazar vomitando a Pátria – não se percebe bem o que é Salazar, o vómito ou a Pátria. Se calhar é esse mesmo o objectivo: não distinguir umas coisas das outras porque Salazar, a Pátria e o vómito, deviam ser sinónimos para Paula Rego.

De um abstraccionismo estranho e aterrador, de um exílio de muitos olhos e muitas línguas, passa para uma pintura figurativa exímia, com proporções grotescas, intencionalmente absurdas, em que as mulheres são másculas, com braços curtos, cabeças e mãos enormes, expressões fechadas e, por vezes, quase demenciadas.

As pinturas de Paula Rego vivem das histórias infantis, em que os personagens reais se transformam e adquirem animalescas figuras, animalescas atitudes e visões. Os adultos com a crueldade desses contos, com a ingenuidade simples e concreta das crianças. Em muitos quadros há várias cenas de uma peça que está a ser visionada, normalmente em planos diferentes, com dimensões diminutas ou cores esbatidas, escondidas em brinquedos ou peças de mobiliário.

Em raros quadros se nota alguma felicidade, com no quadro da dança ou no quadro da fuga para o Egipto. Neste último a figura masculina é preponderante e acolhedora, a feminina carinhosa, sem toque.

Os quadros que retratam as bailarinas são chocantes, pois as figuras a que estamos habituados a associar leveza e beleza, aparecem curtas, grossas, pesadas, desfeadas, em vestidos de cores fortes e escuras, tudo bizarro e violento.

Os últimos quadros retratam a velhice nas suas facetas mais cinzentas, ridículas, dependências e decadências de corpos, amarguras e solidões de almas.

Interessantíssimos os estudos para os quadros, onde se percebem várias hipóteses antes da decisão, elas próprias séries espantosas, como as da dança, em que há alguns desenhos de corpos em dança satânica, tal como um quadro a preto e branco de diabos e outro sobre as bruxas e os seus bruxedos.

Não sei como Paula Rego convive com ela própria, mas a quem olha o que ela pinta, o estômago, os nervos e a cabeça revolvem-se e transtornam.

É uma pintura visceral, e que provoca reacções viscerais. É espantosa.


(pinturas de Paula Rego: Salazar vomiting the Homeland – 1960; The maids – 1987; War – 2003; O repouso na fuga para o Egipto – 1998; Dancing Ostriches from Disney’s Fantasia 3 – 1995; Scavengers – 1994;)

14 outubro 2007

Longe

Tanta terra
tanta gente
tantos sonhos
nos separam

Ambos sabemos
das praias
do mar
que nos guardam

da imensidão
do mundo
do amor
que queremos.


(desenho de Salvador Dali: quadros bíblicos)

11 outubro 2007

Isenção informativa

De 14 parágrafos do documento Conclusão da Consulta do FMI a Portugal, ao abrigo do Artigo IV, referente a 2007, de 28/09/2007, a notícia que Público online escreveu foi:
  • FMI prevê travagem da retoma portuguesa em 2008 - O Fundo Monetário Europeu (FMI) prevê que a economia portuguesa interrompa em 2008 a sua tendência de aceleração. De acordo com o relatório sobre Portugal hoje publicado, o FMI antecipa que no próximo ano a taxa de crescimento não ultrapasse os 1,8 por cento, precisamente o mesmo valor que é estimado para 2007.
  • Há ainda muito a fazer para alcançar uma tendência de crescimento mais elevado e a convergência do rendimento com a União Europeia”, diz o Fundo. Os elogios ao Governo português surgem sobretudo ao nível da política orçamental.

Eu escolhi estes excertos de 7 parágrafos do referido documento:

  • Está finalmente em curso uma recuperação moderada. (…)
  • O saldo orçamental global registou uma melhoria acentuada, passando de um défice de 6.1% do PIB em 2005 para 3.9% do PIB em 2006, superando o objectivo original para o défice de 4.6% do PIB. A melhoria foi motivada sobretudo pela redução da despesa primária, considerada muito necessária. Em reflexo dos resultados orçamentais mais fortes do que o previsto registados em 2006, as autoridades reduziram os seus objectivos para o défice para 2007 e 2008. A reestruturação da administração central desempenhará um papel central na concretização dos objectivos de consolidação orçamental e na melhoria da produtividade. As recentes reformas do sistema de segurança social melhoraram significativamente a sustentabilidade de longo prazo, e estão a ser dados passos importantes para que a orçamentação passe a ter por base o desempenho.
  • O sistema financeiro português mantém-se sólido e bem supervisionado e parece ter suportado relativamente bem as tensões recentes nos mercados financeiros, embora os riscos se mantenham. Apesar da intensificação da concorrência ter originado uma ligeira deterioração dos rácios de liquidez dos bancos, os rácios médios dos empréstimos em relação ao valor estão em conformidade com outros países da UE e o crédito mal parado permanece reduzido. A elevada dívida das famílias e das empresas continua a ser a principal fonte de risco para o sistema financeiro, mas o exercício do Programa de Avaliação do Sector Financeiro (Financial Sector Assessment Program - FSAP) do ano passado concluiu que o sistema financeiro poderia suportar mesmo perturbações macroeconómicas graves. Em conformidade com os planos do Banco de Portugal e também em linha com as recomendações do FSAP, o Banco de Portugal procedeu a um reforço adicional da sua capacidade de supervisão com a adopção de um novo sistema de notação dos riscos, foi concluído um inquérito à riqueza das famílias, e foram melhoradas as estatísticas sobre os preços da habitação. (…)
  • Os Directores Executivos congratularam-se com a recuperação económica moderada de Portugal em 2006, após vários anos de crescimento lento. Os Directores elogiaram a actuação determinada do governo no sentido de corrigir os desequilíbrios orçamentais, reformar o sistema da segurança social e reforçar o ambiente de negócios. (...)
  • Os Directores elogiaram as autoridades por terem ultrapassado o, já de si ambicioso, objectivo inicial de redução do défice orçamental em 2006, sem recurso a medidas extraordinárias. Acolheram com especial agrado a natureza da consolidação baseada na despesa e o dinamismo do crescimento das receitas. (…)
  • Os Directores acolheram com agrado a intenção das autoridades de acelerar o ritmo de consolidação orçamental em 2007 e 2008, e de reservar qualquer desempenho excepcional das receitas e tomar medidas de contingência em caso de derrapagem da despesa. (…)
  • Os Directores referiram que o fortalecimento da reforma em curso no mercado do produto e dos serviços deveria contribuir para apoiar a reforma em geral, promovendo a competitividade e o bem-estar dos consumidores. Congratularam-se com os importantes progressos alcançados em termos da melhoria do ambiente de negócios e do aumento da concorrência no sector dos produtos energéticos, mas referiram que há ainda muito mais a fazer. Em particular, os Directores salientaram a necessidade de melhorar a concorrência no âmbito das indústrias de rede e de alguns sectores de serviços e de reforçar o sistema judicial.
  • Os Directores acolheram favoravelmente a conclusão de que o sistema financeiro é sólido e bem supervisionado, e de que a liquidez bancária continua adequada, apesar das recentes perturbações nos mercados financeiros. Referiram, porém, que surgiram alguns riscos na sequência destas perturbações e recomendaram uma atitude de vigilância constante por parte das autoridades de supervisão, considerando a dimensão do crédito externo dos bancos e o elevado endividamento dos sectores empresarial e das famílias. Os Directores congratularam-se com os progressos alcançados na implementação das recomendações do FSAP realizado no ano passado. (…)

Significativo da isenção da informação que o Público (online) oferece...

Manto

Se árvore fosse
de ramos verdes
sangue de seiva
raízes de manto
a terra cobriria.

Se manto fosse
seiva beberia
verdes as raízes
em ramos e terra
sangraria.

Se ramo fosse
na sombra dançaria
coberta de seiva
em manto de terra
morreria.


(Desenho de Salvador Dali: quadros bíblicos)

09 outubro 2007

As liberdades

Na entrevista que concedeu à Pública, José Rodrigues dos Santos afirma que se demitiu na sequência de uma interferência da administração da RTP num assunto da alçada do Director de Informação, ele próprio, em 2004.

Depois deixa insinuações generalistas, sem qualquer concretização, sobre pressões que o poder político exerceria sobre a administração da RTP e que esta passaria recados aos jornalistas.

Se isto é verdade, José Rodrigues dos Santos não se deve ficar por insinuações generalistas, deve é esclarecer exactamente do que está a falar e de quem está a falar, para que se averigúem os factos, se apurem os responsáveis e se tirem as devidas ilações.

Mas, dada a gravidade das afirmações de José Rodrigues dos Santos, o que me espantaria e chocaria seria a ausência de resposta por parte da administração da RTP. É bom que tenha reagido e esperemos que o processo de averiguações não fique, como é hábito, para o dia de S. Nunca. Não se pode aceitar a permanente suspeição sobre a instrumentalização da televisão pública e dos jornalistas pelo governo, este ou qualquer outro.

Muito diferente é o caso que tem sido relatado pelos media de um visita da PSP à sede do Sindicato dos Professores da Região Centro, com a apreensão de documentos referentes a uma manifestação de protesto, aquando da visita programada de José Sócrates.

Para além de ser uma intolerável atitude intimidatória à liberdade de expressão e de manifestação, é absolutamente estúpido. Esperemos que o governo se demarque imediatamente deste tipo de actuações, as condene e pugne, através do Ministro da Administração Interna, para que se perceba exactamente o que se passou.

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

(poema de Maria Teresa Horta; pintura de Lance Olsen: Lost)

A morte é a curva da estrada

A morte é a curva da estrada,
morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

(poema de Fernando Pessoa; pintura de Pat Steir: Silence)

08 outubro 2007

Projecto de Tratado Reformador (3)

A uma pergunta que fiz para esclarecer a interpretação de um post que colocou no Causa Nossa, sobre haver quem queira referendar um tratado (reformador da UE) ilegível para os cidadãos, recebi esta amável resposta do Prof. Vital Moreira:

  • “Sempre fui, e sou cada vez mais, contra o referendo de leis ou tratados em si mesmos, sobretudo quando se trata de textos longos, complexos, prolixos e que versam sobre centenas ou milhares de questões. A meu ver o referendo só deve ter por objecto questões políticas concretas, claramente identificadas e definidas, sobre as quais seja possível dar uma clara resposta de “sim” ou “não”. (…)

Após outro mail meu, o Prof. esclareceu ainda, com a mesma amabilidade, faseadamente:

  • “Estes documentos não podem deixar de ser longos e complexos. O mesmo sucede com a generalidade dos códigos. Ninguém se lembraria de submeter a referendo o Código Civil, o Código Penal ou o Código das Sociedades Comerciais...”
  • “Por o povo não poder deliberar sobre tudo – por falta de informação, de saber e de disponibilidade – é que se inventou a democracia representativa..."

Não posso deixar de concordar com o Prof. Vital Moreira quando diz que referendar textos longos, complexos e prolixos é impossível. Mas estou totalmente em desacordo com a necessidade de que um tratado político entre vários estados soberanos seja de tal forma complexo e prolixo, e que esteja redigido de maneira que o torne ilegível.

Em primeiro lugar, mesmo que não estivesse em causa um referendo, os cidadãos têm o direito de ter acesso a documentos perceptíveis, de forma a poderem informar-se, debaterem, questionarem-se sobre os vários assuntos tratados.

Por outro lado, não percebo a comparação que o Prof. Vital Moreira faz entre o Projecto de Tratado Reformador e o Código Civil, o Código Penal e outros. Porque não o compara com a Constituição? Também está prolixa, complexa, longa e ilegível? Pois não é o Projecto de Tratado Reformador uma reforma da Constituição Europeia?

E porque é que não se pode referendar uma Constituição? Aceito que haja posições antagónicas a este propósito, mas não pela complexidade ou inteligibilidade dos assuntos e, principalmente, dos textos.

A democracia representativa é indispensável para o normal funcionamento de um país. Mas o voto de todos os cidadãos é importante nalgumas circunstâncias, nomeadamente na eleição do Presidente da República.

A redução da democracia a directórios de iniciados só faz perigar a própria essência da participação democrática, vai legitimando o alheamento dos cidadãos e corroendo o regime.

06 outubro 2007

A Escola (2)

(…) As condições nas escolas de Lisboa estão, portanto, longe de garantir uma escola que seja um local digno de aprendizagem, de cidadania participativa e de vida comunitária.

Só uma escola revalorizada e bem inserida no tecido urbano é capaz de responder com sucesso às necessidades da comunidade educativa.

As crianças de Lisboa exigem-no, os professores merecem-no e a revitalização da cidade não permite qualquer adiamento.

A modernização e a qualificação da Escola deve pois ser o programa que permita simultaneamente afirmar a viva actualidade do ideário da República e a satisfação de uma necessidade dramática do presente.

(…) Deve o Município acompanhar o Estado neste esforço, com o lançamento de um programa especial de modernização e qualificação do pré-escolar e ao 1º ciclo do ensino básico na cidade de Lisboa. Um programa a desenvolver entre 2008/2009 e 2011/2012 e que assim comemore o duplo centenário da 1ª Vereação Republicana e da descentralização para os Municípios das competências relativas ao ensino primário.

É na prioridade à Escola que começaremos a construir uma estratégia sustentada de afirmação de Lisboa como cidade criativa. (…)

(discurso do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na cerimónia de comemoração do 5 de Outubro de 1910)


Há quem tenha interpretado as palavras de Cavaco Silva como um incentivo ou como um recado ao governo; há quem tenha interpretado a coincidência de temas abordados pelo Presidente e por António Costa como um incentivo do primeiro, ou como uma manobra de antecipação do segundo.

Pois eu interpreto as palavras e o tema de ambos como uma prova de que não se pode adiar mais a revolução cultural de que necessitamos, como povo.

Projecto de Tratado Reformador (2)

A minha satisfação pela publicação dos textos do projecto de tratado reformador foi imensamente precipitada.

Tal como diz Luís Naves no DN em letras garrafais, são quase ilegíveis, pois apenas remetem para as transformações, adições e subtracções de texto a tratados prévios, incompreensíveis para quem não os sabe de cor, e uma tarefa hercúlea para quem os queira comparar.

Desconfio que, como muito bem sugeriu A. Teixeira, que esta solução não será inocente. Ao contrário do que deveria ser o dever dos nossos representantes, dificulta-se ao máximo a participação cívica, a discussão das ideias fundamentadas, servindo-se a verdade oficial em fascículos, cirurgicamente combinada entre os vários actores.

Esvazia-se assim de conteúdo a proposta referendária. Referendar algo incompreensível, com cerca de trezentas páginas, é impossível.

Parabéns aos arquitectos dos directórios que tecem as teias onde, cada vez mais, se instala a descrença e a distância entre quem fala e quem ouve. Já ninguém presta atenção e preferem-se outras ocupações.

No entretanto, e para entreter as massas, há sempre a eterna Casa Pia e Catalina Pestana, a corrupção e João Cravinho.

05 outubro 2007

Projecto de Tratado Reformador (1)


Já estão online os documentos do Projecto de Tratado Reformador. Para ler e discutir acesa e lealmente.

A Escola (1)

(…) Entre eles, destacaria o ideal educativo, que sempre marcou o programa político do regime instituído em Outubro de 1910.

(…) Tratámos a escola como um problema de governo e não como um problema de regime. E concentrámo-nos em demasia na relação entre o Estado e a escola, sem atender ao papel e às responsabilidades próprias da sociedade civil.

(…) Devemos começar por afirmar que uma escola republicana é uma escola plural e aberta, que cultiva a convivência entre as mais diversas convicções, credos ou ideologias.

É também uma escola neutra, no sentido em que não se encontra ao serviço de uma qualquer ideologia oficial patrocinada pelo Estado ou qualquer organização.

Por outro lado, importa sublinhar que a educação é a base da verdadeira inclusão social, pois esta encontra-se associada, em larga medida, às qualificações e competências de que cada um dispõe.

Mas também num outro sentido se deve salientar o carácter inclusivo da escola: a democratização do ensino e a escolaridade obrigatória são factores de igualdade e elementos de convivência interclassista, interracial ou interconfessional.

(…) Preocupamo-nos em cuidar dos nossos filhos no plano material, mas é frequente julgarmos que a educação, o bem mais importante e decisivo para o seu futuro, é tarefa que compete sobretudo a outros.

(…) Há toda uma cultura de autoexigência que deve ser estimulada nos pais, levando-os a envolver-se de forma mais activa e participante na qualidade do ensino, na funcionalidade e na conservação das instalações escolares, no apoio ao difícil trabalho dos professores.

A escola está inserida na comunidade. Poder-se-á dizer, de certo modo, que uma comunidade deve ser construída tendo a escola como centro. Daí que as autarquias locais devam assumir maiores responsabilidades relativamente aos estabelecimentos de ensino.

(...) Esse envolvimento pressupõe também, como é natural, que a figura do professor seja prestigiada e acarinhada pela comunidade, o que requer, desde logo, a estabilidade do corpo docente.

É também necessário compreender que, em larga medida, a dignidade da função docente assenta no respeito e na admiração que os professores são capazes de suscitar na comunidade educativa, junto dos colegas, dos pais e dos alunos.
(…)


Não tarda nada e começo a gostar (um bocadinho) de Cavaco Silva…

(
discurso do Presidente na cerimónia de comemoração do 5 de Outubro de 1910)

Pecados públicos

A propósito do projecto de regulamentação da assistência religiosa nas unidades públicas de saúde, documento ainda não disponível online (pelo menos que eu conseguisse encontrar), as informações sobre o seu conteúdo são, para dizer o mínimo, ligeiramente desencontradas.

Enquanto o coro de jograis constituído por diversos Bispos e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, orientados e amplificados por Marcelo Rebelo de Sousa, nos sermões dominicais, clama a heresia do governo e as malfeitorias dos não católicos, Fernanda Câncio assina dois artigos (um de opinião) no DN de hoje, em que denuncia a enorme desinformação orquestrada pela Igreja Católica a respeito do referido projecto.

Gostava de ler o documento para tirar as minhas próprias conclusões. Tomando como factos os relatados por Fernanda Câncio, continuo a desconfiar das promessas dialogantes do nosso Primeiro-Ministro. Por outro lado as certezas do Prof. Marcelo estão já a fazer parte do anedotário nacional.

A República

Senha
Mandou-me procurar?
e contra-senha
Passe cidadão!

utilizadas pelos revolucionários republicanos de 1910

04 outubro 2007

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos
encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar
encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar.

Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.

Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.

Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.

(letra e música de Jorge Palma: encosta-te a mim)

Registo final

O corpo estende-se em perspectiva, maiores os pés que a cabeça. Regista mentalmente o tom marmóreo, a temperatura frigorífica, a simetria das mamas, os livores, as unhas dos pés espessas e curvas. Toma nota da distribuição pilosa, da espessura do panículo adiposo, das cicatrizes, dos edemas, da rigidez dos membros.



O som da água a correr em fio, o tabuleiro em equilíbrio instável, a triste afirmação do corpo que chegou ao fim e se expõe, na nudez e despojamento que a todos reduz ao máximo comum da morte.



Homens ou mulheres, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus, cobardes ou heróis, alegres ou melancólicos, mestres ou alunos, novos ou velhos, todos somos uma mistura de órgãos, sangue e dejectos, com as mesmas cores e consistências, as mesmas pregas e espessuras, máquinas orgânicas com validade finita.



Falta o relatório completo e pormenorizado, num registo quantificado, medido e pesado do que se gastou e do que viveu.

(desenho de Leonardo Da Vinci)

Desistência espiritual

Espero que o espírito do diálogo, o acordo com a Constituição e com a Concordata não sejam uma benzedura subserviente e amarfanhante do primeiro-ministro, tão forte e convicto com quem não tem força, tão benevolente e sorridente com os porta-vozes do além.

Myanmar

Myanmar, Mianmar, Mianmá, Birmânia, Burma - tantos nomes para uma só realidade.

International Bloggers' Day for Burma on the 4th of October

03 outubro 2007

Chaves

Transportamos por dentro
fragmentos passados
com ferro tatuados
caixas vazias
esquecidas de segredos.

Perdemos as chaves
enterradas em bolsos
sem fundos
queimando teimosas
no relevo das mãos.

Em horas bravias
quebramos o vidro
de absurdas razões
e abrimos caminho
a outras paixões.


(pintura de Todd Bellanca: wardrobes, closets, doors)

Preço do petróleo

Há pouco mais de um ano todos os dias se falava com grande alarmismo na subida do preço do petróleo que atingiu, em Julho de 2006, um máximo de $78,40.

Este ano o preço do petróleo já atingiu $83,60 mas ninguém parece importar-se grandemente.

Ou seja os problemas só existem se nos disserem que existem e só são graves se nos convencerem de que são graves. É tudo completamente independente dos problemas em si.

Tratado de Lisboa

Portugal conseguiu trabalhar o suficiente, em contactos, diplomacia e palavras, para terminar a elaboração do documento a que quer chamar Tratado de Lisboa.

O optimismo reina entre os responsáveis da União Europeia quanto à certeza da aprovação do tratado.

Mas aprovação não significa ratificação. Para isso, é necessário que o Presidente da República, os partidos políticos e os cidadãos, colectiva ou individualmente, leiam, discutam e promovam a discussão do Tratado, exigindo um referendo.

Quanto maior for a União Europeia mais imperativa a ligação realista entre os cidadãos e os seus representantes.

Esperemos que o sentir democrático prevaleça.

01 outubro 2007

Sous le ciel de Paris

Sous le ciel de Paris
S'envole une chanson
Hum Hum
Elle est née d'aujourd'hui
Dans le cœur d'un garçon
Sous le ciel de Paris
Marchent des amoureux
Hum Hum
Leur bonheur se construit
Sur un air fait pour eux

Sous le pont de Bercy
Un philosophe assis
Deux musiciens quelques badauds
Puis les gens par milliers
Sous le ciel de Paris
Jusqu'au soir vont chanter
Hum Hum
L'hymne d'un peuple épris
De sa vieille cite

Près de Notre Dame
Parfois couve un drame
Oui mais à Paname
Tout peut s'arranger
Quelques rayons
Du ciel d'été
L'accordéon
D'un marinier
L'espoir fleurit
Au ciel de Paris

Sous le ciel de Paris
Coule un fleuve joyeux
Hum Hum
Il endort dans la nuit
Les clochards et les gueux
Sous le ciel de Paris
Les oiseaux du Bon Dieu
Hum Hum
Viennent du monde entire
Pour bavarder entre eux

Et le ciel de Paris
A son secret pour lui
Depuis vingt siècles il est épris
De notre Ile Saint Louis
Quand elle lui sourit
Il met son habit bleu
Hum Hum
Quand il pleut sur Paris
C'est qu'il est malheureux
Quand il est trop jaloux
De ses millions d'amants
Hum Hum
Il fait gronder sur nous
Son tonnerr' éclatant
Mais le ciel de Paris
N'est pas longtemps cruel
Hum Hum
Pour se fair' pardonner
Il offre un arc en ciel


(letra de Jean Dréjac; música de Hubert Giraud; Juliette Greco - sous le ciel de Paris)

Ya comienza a llover

Ya comienza a llover.
Llega, por mi ventana
el secreto mensaje
de la lluvia.
Demasiadas promesas
para morir ahora.

(poema de José Corredor-Matheos; pintura de Bezugly Oleg: waiting for the rain)

Valter Lemos

Vale a pena ler este artigo de Maria Filomena Mónica. Absolutamente arrasador. E triste, muito triste. Talvez fosse boa ideia a Sra. Minisra começar a avaliação pelos seus mais próximos colaboradores...

A prédica dominical

Marcelo Rebelo de Sousa, desconfortavelmente, fugiu o mais que pôde às perguntas de Flor Pedroso, na tentativa de passar despercebido o terrível falhanço da sua genial previsão. Apontou o dedo aos barões.

Manuela Ferreira Leite não gostou. Calculo que não. O partido seguirá (ou não) dentro de alguns anos.

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...