O corpo estende-se em perspectiva, maiores os pés que a cabeça. Regista mentalmente o tom marmóreo, a temperatura frigorífica, a simetria das mamas, os livores, as unhas dos pés espessas e curvas. Toma nota da distribuição pilosa, da espessura do panículo adiposo, das cicatrizes, dos edemas, da rigidez dos membros.O som da água a correr em fio, o tabuleiro em equilíbrio instável, a triste afirmação do corpo que chegou ao fim e se expõe, na nudez e despojamento que a todos reduz ao máximo comum da morte.
Homens ou mulheres, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus, cobardes ou heróis, alegres ou melancólicos, mestres ou alunos, novos ou velhos, todos somos uma mistura de órgãos, sangue e dejectos, com as mesmas cores e consistências, as mesmas pregas e espessuras, máquinas orgânicas com validade finita.
Falta o relatório completo e pormenorizado, num registo quantificado, medido e pesado do que se gastou e do que viveu.
(desenho de Leonardo Da Vinci)
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