16 outubro 2007

Paula Rego - exposição em Madrid

Salazar vomitando a Pátria – não se percebe bem o que é Salazar, o vómito ou a Pátria. Se calhar é esse mesmo o objectivo: não distinguir umas coisas das outras porque Salazar, a Pátria e o vómito, deviam ser sinónimos para Paula Rego.

De um abstraccionismo estranho e aterrador, de um exílio de muitos olhos e muitas línguas, passa para uma pintura figurativa exímia, com proporções grotescas, intencionalmente absurdas, em que as mulheres são másculas, com braços curtos, cabeças e mãos enormes, expressões fechadas e, por vezes, quase demenciadas.

As pinturas de Paula Rego vivem das histórias infantis, em que os personagens reais se transformam e adquirem animalescas figuras, animalescas atitudes e visões. Os adultos com a crueldade desses contos, com a ingenuidade simples e concreta das crianças. Em muitos quadros há várias cenas de uma peça que está a ser visionada, normalmente em planos diferentes, com dimensões diminutas ou cores esbatidas, escondidas em brinquedos ou peças de mobiliário.

Em raros quadros se nota alguma felicidade, com no quadro da dança ou no quadro da fuga para o Egipto. Neste último a figura masculina é preponderante e acolhedora, a feminina carinhosa, sem toque.

Os quadros que retratam as bailarinas são chocantes, pois as figuras a que estamos habituados a associar leveza e beleza, aparecem curtas, grossas, pesadas, desfeadas, em vestidos de cores fortes e escuras, tudo bizarro e violento.

Os últimos quadros retratam a velhice nas suas facetas mais cinzentas, ridículas, dependências e decadências de corpos, amarguras e solidões de almas.

Interessantíssimos os estudos para os quadros, onde se percebem várias hipóteses antes da decisão, elas próprias séries espantosas, como as da dança, em que há alguns desenhos de corpos em dança satânica, tal como um quadro a preto e branco de diabos e outro sobre as bruxas e os seus bruxedos.

Não sei como Paula Rego convive com ela própria, mas a quem olha o que ela pinta, o estômago, os nervos e a cabeça revolvem-se e transtornam.

É uma pintura visceral, e que provoca reacções viscerais. É espantosa.


(pinturas de Paula Rego: Salazar vomiting the Homeland – 1960; The maids – 1987; War – 2003; O repouso na fuga para o Egipto – 1998; Dancing Ostriches from Disney’s Fantasia 3 – 1995; Scavengers – 1994;)

3 comentários:

  1. A.Teixeira12:00

    Parabéns Sofia, pela objectividade, seriedade e sobriedade da descrição da exposição de Paula Rego.

    É bom ler um texto destes em que o autor não manifesta erudição em excesso e não parece, por isso, que também está "pendurado" das paredes da galeria.

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  2. MUMIA14:03

    Eu sou suspeito porque, para mim, Paula Rego está elevada ao patamar dos Deuses (e não são muitos na minha cosmogonia particular). Mas posso arriscar dizer que Paula Rego tem um ar doce e meio absorto precisamente porque toda a loucura violenta que a poderia amargurar está despejada no seu trabalho. As tuas observações são excelentes, sem dúvida, e revelam um certo olhar...

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  3. Sofia Loureiro dos Santos23:37

    Obrigada ao A. Teixeira e à(o) Múmia (!!) pelos comentários. De facto não percebo nada de pintura mas é uma arte que me envolve e que adoro. Acho espantoso conseguir-se comunicar assim, através dos desenhos, das cores, das formas.

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