30 agosto 2026

Conversas matinais


Deitada no sofá, obedecendo ao seu pedido, sinto as mãozinhas pequenas em festas, nos meus pés.

    - Estou a pôr creme à vovó (carinha sorridente).

    - Tu gostas de pôr creme?

    - Sim. A mamã também põe creme (informa, muito séria).

    - Ai sim? Aonde?

    - Aqui, aqui, aqui (apontava ela com os dedinhos as bochechas, a testa, o nariz), no bigode...

    - No bigode? A mamã tem bigode?

Pergunto, curiosa.

Uns olhos espantados.

    - Não.

    - E o papá, tem bigode?

    - Sim.

    - O papá tem barba.

    - Sim.

    - E tu, tens barba?

    - Não.

E abanando a cabecita para trás, num vaidoso movimento em que o cabelo dança, diz-me doce mas firmemente:

    - Eu tenho cabelo na cabeça.

29 agosto 2026

Sustentabilidade


O assunto importantíssimo da sustentabilidade da Segurança Social, das reformas, pensões e outras prestações sociais, é sempre causa de grandes discussões e análises, clamando a esquerda e a direita, com a mesma veemência, que os estudos relatórios e soluções são técnicas e não ideológicas.

Se há temas ideológicos, este é mesmo um deles. A escolha política do tipo desse regime depende da ideologia de quem o decide e o implementa.

Não há ninguém que pense um pouco que não se preocupe com o futuro. O inverno demográfico, as políticas anti migrações, as especulações financeiras e a insegurança e volatilidade das sociedades e das economias, são motivos mais que suficientes para que se discutam soluções.

Com seriedade e sem demagogia. E serão precisamente as ideologias que decidirão como avançar.

A demonização da política e da ideologia é própria das ditaduras.

Integração

José Maria Pimentel e Cátia Batista


Espreito os jornais, ouço os noticiários e podcasts.

Estamos numa época deprimente, mas há gente que nos alumia e ensina.

A falta de inteligência e a ignorância de André Ventura e dos seus apaniguados não faz férias: Chega quer que crianças portuguesas e europeias tenham prioridade no acesso a escolas.

Sugiro a este parlamentar e aos seus sequazes que ouçam estes dois podcasts, precisamente sobre as repercussões das migrações nos países de partida e de acolhimento, a sua importância económica, nomeadamente quando são integrados nas culturas de acolhimento.

Talvez não se ouvissem tantos disparates.

Fica aqui o CV de Cátia Batista. Em vez de vermos a cada meia hora os horrores, os crimes e os desastres do mundo, principalmente aqueles que não têm qualquer interesse, agarremo-nos à rádio que ainda nos informa e distrai.

08 agosto 2026

Horizontes

Horizons

Neil Dawson


Hoje o dia não se repete

no intenso azul das almas livres.

A prisão da felicidade

a que não chega nem se entrega

a que não conquista árvores nem gaivotas.


Hoje o dia sussurra tempo.

A morna imensidão do nada

a plana quietude do silêncio

a plena sensação da finitude.


Hoje o dia será de areia

de vento que se ouve muito ao longe

da certeza de breves sinais

sem luzes nem cantos.

Sem amanhãs.

06 agosto 2026

Quebradiço


A voz do mar na boca

O gume afiado do horizonte

Na curva infinita do esquecimento

 

Reconheço nos ossos

A aridez da vontade

Quebradiços

Quebradiça

16 julho 2026

Pássaro adormecido

 


Eduardo Kingman

1.

Sento-me na beira de um banco

no jardim de folhas leves e pássaros adormecidos.

As minhas mãos confundem o tempo

semeiam todos os beijos que não te dei

no verde transtornado do relvado.

 

Vagarosamente soltam-se as asas

iluminam-se as papoilas de encarnado

como se o veneno dos dias felizes

se espalhasse pelas encostas da tua ausência.

 

2.

Há vozes nas nuvens a tua voz

que me chama com o carinho

de quem sabe que morro sem ti

que me diz que a névoa voa

e que nada me dará a paz ansiada

a não ser aceitar a funda tristeza

de te não ter.

01 julho 2026

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz

É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente.

O mundo mudou com uma velocidade vertiginosa, ou fui eu que mudei. Tudo aquilo que me habituei a pensar e a sentir como certo, na forma de conviver, de cidadania, aquilo que sempre considerei como dever de humanidade, como a vivência do que de mais básico há no respeito, no carinho, na tolerância, na empatia, no compromisso com os outros, na defesa dos mais frágeis, na partilha, no amor ao próximo e à liberdade, aqueles preceitos das nossas sociedades ditas evoluídas de raiz judaico-cristã, está a desaparecer e a deixar de ser a matriz que nos enforma e conduz.

Neste momento, a política europeia, já não falando dos EUA, considera que os emigrantes e a emigração são um mal em si mesmos, ressuscitou os campos de detenção, o racismo e a xenofobia passaram a ser a norma.

Nunca houve tanta riqueza, mas também nunca esteve tão concentrada em tão poucas mãos. As evoluções tecnológicas, em vez de ajudarem precisamente à melhoria da qualidade de vida de todos, afunilam as nossas sociedades para guetos e bolsas de pobreza e exclusão.

A humanidade, na prática, deixou de ter direito à busca da felicidade, de melhores condições de vida. A humanidade, ou uma grande parte dela, está cada vez mais condenada à sua condição, dependendo de onde nasce, da cor da pele, do credo de cada um.

Inventam-se fantasmas que alimentam o medo. E o medo é o melhor combustível para a desgraça e para a ignomínia. O ódio lançou-se e prolifera a céu aberto. A mentira é o argumento primário e definitivo.

Por isso, quando penso em escrever, desanimo. Tudo me cala e cada vez me sinto mais excluída e encolhida nas minhas certezas ultrapassadas.

Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a mudez perante o indizível.

Façamos diferente

  Façamos diferente. Diferente do aqui e do agora. Levantar. Ouço, ouço muito. Mas não ouço a minha própria voz. O ruído ajuda-me a fa...