16 julho 2026

Pássaro adormecido

 


Eduardo Kingman

1.

Sento-me na beira de um banco

no jardim de folhas leves e pássaros adormecidos.

As minhas mãos confundem o tempo

semeiam todos os beijos que não te dei

no verde transtornado do relvado.

 

Vagarosamente soltam-se as asas

iluminam-se as papoilas de encarnado

como se o veneno dos dias felizes

se espalhasse pelas encostas da tua ausência.

 

2.

Há vozes nas nuvens a tua voz

que me chama com o carinho

de quem sabe que morro sem ti

que me diz que a névoa voa

e que nada me dará a paz ansiada

a não ser aceitar a funda tristeza

de te não ter.

01 julho 2026

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz

É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente.

O mundo mudou com uma velocidade vertiginosa, ou fui eu que mudei. Tudo aquilo que me habituei a pensar e a sentir como certo, na forma de conviver, de cidadania, aquilo que sempre considerei como dever de humanidade, como a vivência do que de mais básico há no respeito, no carinho, na tolerância, na empatia, no compromisso com os outros, na defesa dos mais frágeis, na partilha, no amor ao próximo e à liberdade, aqueles preceitos das nossas sociedades ditas evoluídas de raiz judaico-cristã, está a desaparecer e a deixar de ser a matriz que nos enforma e conduz.

Neste momento, a política europeia, já não falando dos EUA, considera que os emigrantes e a emigração são um mal em si mesmos, ressuscitou os campos de detenção, o racismo e a xenofobia passaram a ser a norma.

Nunca houve tanta riqueza, mas também nunca esteve tão concentrada em tão poucas mãos. As evoluções tecnológicas, em vez de ajudarem precisamente à melhoria da qualidade de vida de todos, afunilam as nossas sociedades para guetos e bolsas de pobreza e exclusão.

A humanidade, na prática, deixou de ter direito à busca da felicidade, de melhores condições de vida. A humanidade, ou uma grande parte dela, está cada vez mais condenada à sua condição, dependendo de onde nasce, da cor da pele, do credo de cada um.

Inventam-se fantasmas que alimentam o medo. E o medo é o melhor combustível para a desgraça e para a ignomínia. O ódio lançou-se e prolifera a céu aberto. A mentira é o argumento primário e definitivo.

Por isso, quando penso em escrever, desanimo. Tudo me cala e cada vez me sinto mais excluída e encolhida nas minhas certezas ultrapassadas.

Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a mudez perante o indizível.

20 junho 2026

Os pacotes


Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais ou menos popularuchos, para irem ao encontro da amálgama de cidadãos mais ou menos indiferenciados.

Os políticos têm de fazer de conta. De que são iguais aos outros, de que se interessam pelos temas dos outros, de que pensam e querem o mesmo que os outros, sendo os outros o povo, que (des)consideram se disso necessitarem, fazendo de conta que o amam.

O pacote laboral foi apresentado como essencial para a modernização do país, para a flexibilidade na contratualização do trabalho, para o aumento da produtividade e para a melhoria salarial, principalmente dos jovens.

Todo este pacote de justificações é repetido à exaustão pelos seus defensores, clamando pelo imobilismo e pelo atavismo de partidos como o PS, o PCP, o BE, etc., que não aceitam nada que possa alterar os direitos dos trabalhadores, que consideram ser inamovíveis e sagrados. Ouvir a rádio Observador, o que tenho feito ultimamente, é ouvir esta ladainha, dita por vozes histéricas e indignadas.

Curiosamente, ou não, nunca, mas mesmo nunca, ouvi explicar como é que este pacote laboral vai contribuir para tudo isso.

Se procurar opiniões, textos, declarações variadas de agentes políticos e económicos, este pacote conseguiria algum aumento de produtividade à custa da redução dos custos do trabalho - como é que isso melhora os mesmos, não se vislumbra. Ou seja, a receita é piorar a vida aos trabalhadores, aumentando a precariedade, aumentando as horas de trabalho sem remuneração, facilitando os despedimentos. Trabalhadores que, nomeadamente para Anselmo Crespo, são um anacronismo a descartar sempre que for possível.

A discussão parlamentar de quinta-feira, em que o discurso da ministra do Trabalho (Solidariedade e Segurança Social) Rosário Palma Ramalho foi ácido e triunfante, tal como o de Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, e da gritaria apocalíptica, mal educada e grosseira de André Ventura, foi um total fazer de conta. Sinceramente, não percebi ainda se foi apenas o de André Ventura, se também o do PSD e o do governo.


O desfecho da votação, qual passo doble ou magia negra, deixou o governo e a sua ministra em péssimo estado (mesmo que o objetivo fosse a esperada vitimização), o PSD e o seu líder parlamentar com o gosto amargo da traição política, e o CHEGA escancaradamente a mostrar a sua natureza.

Será que André Ventura ainda consegue enganar alguém?

10 junho 2026

Mudanças

 


Las manos

Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.

As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação estranha de paz e segurança. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores, personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.

Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida tinha estado em suspenso por demasiado tempo.

Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.

Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler. Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.

Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.

A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me acaricia. É perfumada.

30 maio 2026

 


Aguardo.

A música varre o tempo

amena a brisa que consola.

Aguardo a voz

de quem se esconde

a terra aprisionada

a vida insatisfeita

condicionada

que tudo oferece às estacas

às feras aos casulos aos opacos.

Aguardo a voz

de quem se curva

de quem se anula

de quem se prende.

Aquele grito silencioso

de dignidade.

17 maio 2026

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com várias barraquinhas iluminadas. Estava linda a praça.

Tinha lá ido de manhã, com sol e frio. Fruta, muita, mas também flores, muitas. Cores e cheiros, artesãos vários, principalmente de cestos. Havia compotas, mel, cavacas, de tudo um pouco. Deambulei por lá, enchendo os olhos de feira e de luz. De cada vez que me aproximava de alguém, queria convencer-me a levar tudo. Nomeadamente uma árvore em vaso, de Kumquat (laranja anã)


Mas à noitinha a praça parecia cheia de pirilampos e o ar cheirava bem. Tinha o coração apertado, mas cheio. Ao aproximar-me vi uma bancada com uns objetos que pareciam pequenas árvores coloridas. Fui ver de perto e percebi que eram galos, feitos de paus e pinhas, berrantes, desconjuntados e espalhafatosos.


Falei com o artesão (João Rêgo), simpaticíssimo. Não resisti. Trouxe um galo para casa. Está junto dos livros, para cantar em verso.

O ar ocupado pela música



Beethoven Symphony No. 2in D major

Coa-se a luz nas cortinas

embrulhadas de saudade.

O teu rosto à janela

poema tão longo o nosso

como foi curto

o adeus.


Mozart Mass no. 15 in C major, K. 317 (Coronation Mass) 

A poesia nos puros sons de uma orquestra, o crepúsculo lentamente a serenar as almas. O ar ocupado pela música, no silêncio desta secreta e contínua mágoa.

Quebradiço

A voz do mar na boca O gume afiado do horizonte Na curva infinita do esquecimento   Reconheço nos ossos A aridez da vontade Queb...