A voz do mar na boca
O gume afiado
do horizonte
Na curva
infinita do esquecimento
Reconheço nos
ossos
A aridez da
vontade
Quebradiços
Quebradiça
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
A voz do mar na boca
O gume afiado
do horizonte
Na curva
infinita do esquecimento
Reconheço nos
ossos
A aridez da
vontade
Quebradiços
Quebradiça
1.
Sento-me na
beira de um banco
no jardim de
folhas leves e pássaros adormecidos.
As minhas mãos
confundem o tempo
semeiam todos
os beijos que não te dei
no verde
transtornado do relvado.
Vagarosamente
soltam-se as asas
iluminam-se as
papoilas de encarnado
como se o
veneno dos dias felizes
se espalhasse
pelas encostas da tua ausência.
2.
Há vozes nas
nuvens a tua voz
que me chama
com o carinho
de quem sabe
que morro sem ti
que me diz que
a névoa voa
e que nada me
dará a paz ansiada
a não ser
aceitar a funda tristeza
de te não ter.
É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas
várias indignidades a que assistimos diariamente.
O mundo mudou com uma velocidade vertiginosa, ou fui eu que
mudei. Tudo aquilo que me habituei a pensar e a sentir como certo, na forma de conviver,
de cidadania, aquilo que sempre considerei como dever de humanidade, como a
vivência do que de mais básico há no respeito, no carinho, na tolerância, na empatia,
no compromisso com os outros, na defesa dos mais frágeis, na partilha, no amor
ao próximo e à liberdade, aqueles preceitos das nossas sociedades ditas
evoluídas de raiz judaico-cristã, está a desaparecer e a deixar de ser a matriz
que nos enforma e conduz.
Neste momento, a política europeia, já não falando dos EUA,
considera que os emigrantes e a emigração são um mal em si mesmos, ressuscitou
os campos de detenção, o racismo e a xenofobia passaram a ser a norma.
Nunca houve tanta riqueza, mas também nunca esteve tão concentrada
em tão poucas mãos. As evoluções tecnológicas, em vez de ajudarem precisamente
à melhoria da qualidade de vida de todos, afunilam as nossas sociedades para
guetos e bolsas de pobreza e exclusão.
A humanidade, na prática, deixou de ter direito à busca da
felicidade, de melhores condições de vida. A humanidade, ou uma grande parte
dela, está cada vez mais condenada à sua condição, dependendo de onde nasce,
da cor da pele, do credo de cada um.
Inventam-se fantasmas que alimentam o medo. E o medo é o melhor
combustível para a desgraça e para a ignomínia. O ódio lançou-se e prolifera a
céu aberto. A mentira é o argumento primário e definitivo.
Por isso, quando penso em escrever, desanimo. Tudo me cala e
cada vez me sinto mais excluída e encolhida nas minhas certezas ultrapassadas.
Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a
mudez perante o indizível.
Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais ou menos popularuchos, para irem ao encontro da amálgama de cidadãos mais ou menos indiferenciados.
Os políticos têm de fazer de conta. De que são iguais aos outros, de que se interessam pelos temas dos outros, de que pensam e querem o mesmo que os outros, sendo os outros o povo, que (des)consideram se disso necessitarem, fazendo de conta que o amam.
O pacote laboral foi apresentado como essencial para a modernização do país, para a flexibilidade na contratualização do trabalho, para o aumento da produtividade e para a melhoria salarial, principalmente dos jovens.
Todo este pacote de justificações é repetido à exaustão pelos seus defensores, clamando pelo imobilismo e pelo atavismo de partidos como o PS, o PCP, o BE, etc., que não aceitam nada que possa alterar os direitos dos trabalhadores, que consideram ser inamovíveis e sagrados. Ouvir a rádio Observador, o que tenho feito ultimamente, é ouvir esta ladainha, dita por vozes histéricas e indignadas.
Curiosamente, ou não, nunca, mas mesmo nunca, ouvi explicar como é que este pacote laboral vai contribuir para tudo isso.
Se procurar opiniões, textos, declarações variadas de agentes políticos e económicos, este pacote conseguiria algum aumento de produtividade à custa da redução dos custos do trabalho - como é que isso melhora os mesmos, não se vislumbra. Ou seja, a receita é piorar a vida aos trabalhadores, aumentando a precariedade, aumentando as horas de trabalho sem remuneração, facilitando os despedimentos. Trabalhadores que, nomeadamente para Anselmo Crespo, são um anacronismo a descartar sempre que for possível.
A discussão parlamentar de quinta-feira, em que o discurso da ministra do Trabalho (Solidariedade e Segurança Social) Rosário Palma Ramalho foi ácido e triunfante, tal como o de Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, e da gritaria apocalíptica, mal educada e grosseira de André Ventura, foi um total fazer de conta. Sinceramente, não percebi ainda se foi apenas o de André Ventura, se também o do PSD e o do governo.
O desfecho da votação, qual passo doble ou magia negra, deixou o governo e a sua ministra em péssimo estado (mesmo que o objetivo fosse a esperada vitimização), o PSD e o seu líder parlamentar com o gosto amargo da traição política, e o CHEGA escancaradamente a mostrar a sua natureza.
Será que André Ventura ainda consegue enganar alguém?
Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à
minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar
funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.
As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação estranha de paz e segurança. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores,
personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas
que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.
Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do
inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se
libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida
tinha estado em suspenso por demasiado tempo.
Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por
mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E
depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a
inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.
Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de
apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a
redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui
revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e
heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o
compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a
política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler.
Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.
Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de
mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias
a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.
A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me
acaricia. É perfumada.
Aguardo.
A música varre o tempo
amena a brisa que consola.
Aguardo a voz
de quem se esconde
a terra aprisionada
a vida insatisfeita
condicionada
que tudo oferece às estacas
às feras aos casulos aos opacos.
Aguardo a voz
de quem se curva
de quem se anula
de quem se prende.
Aquele grito silencioso
de dignidade.
Ontem, depois do concerto,
caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela
hora já ao lusco-fusco, ainda com várias barraquinhas iluminadas. Estava linda
a praça.
Tinha lá ido de manhã, com sol e frio. Fruta, muita, mas também flores, muitas. Cores e cheiros, artesãos vários, principalmente de cestos. Havia compotas, mel, cavacas, de tudo um pouco. Deambulei por lá, enchendo os olhos de feira e de luz. De cada vez que me aproximava de alguém, queria convencer-me a levar tudo. Nomeadamente uma árvore em vaso, de Kumquat (laranja anã).
Deitada no sofá, obedecendo ao seu pedido, sinto as mãozinhas pequenas em festas, nos meus pés. - Estou a pôr creme à vovó (carinha so...