09 dezembro 2019

Quadras de Natal (6)

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Presépio em burel


 


Fui à feira dos afectos


que se vendem bem baratos


mas os meus predilectos


estavam já desbotados.


 


Fui à loja dos carinhos


para enfeitar a amizade


achei apenas uns ninhos


de cinismo e má vontade.


 


Onde estão os corações 


os abraços e a bondade? 


Onde andam as canções 


paz e solidariedade? 


 


Voltei a casa cansada


de tanto buscar em vão


as luzes claras da estrada


acesas num turbilhão.


 


Mas a porta estava aberta


nos teus olhos de Natal


com amor na dose certa


sem hora nem ritual.


 


No teu enlace a quentura


conforto de quem se quer


nesta festa de ternura


Jesus já pode nascer.


 

01 dezembro 2019

Nada eterno

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Retrato de Outono


Salvador Dali


 


Nem sei se gente se janelas


à minha volta os ruídos da existência


gestos que se repetem e se multiplicam


como as folhas de outono que rangem


e se desfazem sem que o vento


se demore.


Nem sei se dedos se olhos


para quê ou para quem tanto se morre


sem que a vida se conforte e se repita


com os meus ou os teus deuses


um nada eterno que se agita.

24 novembro 2019

Das datas fracturantes

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Manifestação do PS na Fonte Luminosa, na Alameda, em Lisboa (30-12-1975)


 


No dia 25 de Novembro de 1975 defrontaram-se duas concepções de sociedade - os defensores de um regime democrático multipartidário de tipo ocidental e os de um regime totalitário ditatorial de tipo comunista. Foi uma data fundamental para a consolidação da democracia portuguesa, tal como o 25 de Abril de 1974 foi a data fundacional desse mesmo regime. Ambas foram fracturantes e em ambas poderia ter eclodido uma guerra civil.


Aos militares que organizaram e concretizaram o golpe militar a 25 de Abril e aos que defenderam o regime democrático a 25 de Novembro, devemos o nosso reconhecimento e as nossas homenagens.


O PS foi o partido político mais importante no combate à deriva extremista e totalitária de 1975. Essa memória faz parte da sua e da nossa História recente. Durante muitos anos foi precisamente esse momento um dos grandes entraves ao entendimento entre o PS e os partidos que, no 25 de Novembro, representavam a facção antidemocrática. António Costa conseguiu ultrapassar ressentimentos e posicionamentos monolíticos, fazendo uma ponte indispensável entre o que unia o PS e os partidos à sua esquerda, seguindo a abertura do PCP, que a percebeu como a única forma de desapear a direita do poder.


Mas o PCP e o BE terão que perceber que o caminho reiniciado a 25 de Novembro foi aquele que permitiu que eles próprios sobrevivessem, para não falar da democracia e da liberdade. A existência da Geringonça não pode levar o PS a negar a sua história nem a sua identidade intrinsecamente democrática, para não ferir as sensibilidades dos seus parceiros.


Ao permitir que a direita e a extrema direita se mostrem como os únicos defensores do 25 de Novembro, reclamando-o como uma das suas vitórias, o PS acaba por se deixar colar aos que, nessa altura, estavam do lado do totalitarismo esquerdista, esquecendo que foi uma trave mestra da liberdade naqueles tempos revolucionários. Eu não o esqueço e penaliza-me muito que, no Parlamento, seja apenas a direita a querer homenagear o 25 de Novembro.


Adenda: Grupo parlamentar do CDS/PP - Voto de saudação n.º 41/XIV – Pelo 44.º Aniversário do 25 de Novembro


Grupo parlamentar do PS - Voto de saudação n.º 53/XIV - À construção da Democracia em Portugal

10 novembro 2019

Desenho de mar

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The Conversation


Naomi Grossman


 


Desenho de mar


escrita de pedra


ondas desanimadas


secam de silêncio.


Um dia serão nuvens


e terra


distâncias


de eternos amantes


em guerra.


 

Nove de Novembro

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Em 1938, na Alemanha nazi, a noite de 9 de Novembro foi de violência contra os Judeus, com milhares de ataques a casas, a lojas e a sinagogas, levadas a cabo pelas SA e por cidadãos anónimos - Kristallnacht - Noite de Cristal. Anunciava-se o pesadelo e o horror de que o mundo inteiro se apercebeu após o fim da II Guerra Mundial - o Holocausto.


Em 1989, na noite de 9 de Novembro, caiu o símbolo da Guerra Fria, o muro que separava Berlim Leste de Berlim Oeste, erguido a 13 de Agosto de 1961 numa tentativa tosca de travar a hemorragia de gente que fugia do bloco comunista, numa bravata que podia ter iniciado a III Guerra Mundial.


Custa-nos hoje acreditar como foi possível tudo isto - a loucura nazi que perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas, nomeadamente Judeus, arrastando o mundo para uma Guerra 21 anos após uma matança de proporções nunca vistas, a loucura comunista que fechou e dividiu o mundo, perseguiu, torturou e matou milhões de pessoas com base num totalitarismo pseudo científico e violento.


E no entanto as sementes do ódio e da intolerância estão a germinar de novo. A Europa vai-se esquecendo da sua História recente e os movimentos xenófobos, racistas e totalitários começam a ganhar cada vez mais força. Com os EUA perdidos na era Trump, é difícil recuperar a esperança renascida a 9 de Novembro de 1989 em que tudo parecia ser possível, como a reunificação da Alemanha no ano seguinte.


As desigualdades, as várias crises (demográfica, das migrações, climática, do trabalho), a emergência das novas organizações da sociedade e do trabalho com a era digital, a voragem exponencial que nos deixa em desequilíbrio permanente, os bloqueios políticos, os movimentos sociais que tão depressa inundam o quotidiano como se esquecem e descartam por outros, a irrealidade e irrelevância dos factos, a volatilidade da verdade, hordas de outros tempos neste nosso escasso e turbulento tempo.


Nove de Novembro é também a data de nascimento da minha mãe. Facto irrelevante para o resto do mundo, mas fundamental para este meu pequeno e invisível mundinho, onde diariamente me alimento de inquietação e esperança.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...