24 novembro 2019

Das datas fracturantes

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Manifestação do PS na Fonte Luminosa, na Alameda, em Lisboa (30-12-1975)


 


No dia 25 de Novembro de 1975 defrontaram-se duas concepções de sociedade - os defensores de um regime democrático multipartidário de tipo ocidental e os de um regime totalitário ditatorial de tipo comunista. Foi uma data fundamental para a consolidação da democracia portuguesa, tal como o 25 de Abril de 1974 foi a data fundacional desse mesmo regime. Ambas foram fracturantes e em ambas poderia ter eclodido uma guerra civil.


Aos militares que organizaram e concretizaram o golpe militar a 25 de Abril e aos que defenderam o regime democrático a 25 de Novembro, devemos o nosso reconhecimento e as nossas homenagens.


O PS foi o partido político mais importante no combate à deriva extremista e totalitária de 1975. Essa memória faz parte da sua e da nossa História recente. Durante muitos anos foi precisamente esse momento um dos grandes entraves ao entendimento entre o PS e os partidos que, no 25 de Novembro, representavam a facção antidemocrática. António Costa conseguiu ultrapassar ressentimentos e posicionamentos monolíticos, fazendo uma ponte indispensável entre o que unia o PS e os partidos à sua esquerda, seguindo a abertura do PCP, que a percebeu como a única forma de desapear a direita do poder.


Mas o PCP e o BE terão que perceber que o caminho reiniciado a 25 de Novembro foi aquele que permitiu que eles próprios sobrevivessem, para não falar da democracia e da liberdade. A existência da Geringonça não pode levar o PS a negar a sua história nem a sua identidade intrinsecamente democrática, para não ferir as sensibilidades dos seus parceiros.


Ao permitir que a direita e a extrema direita se mostrem como os únicos defensores do 25 de Novembro, reclamando-o como uma das suas vitórias, o PS acaba por se deixar colar aos que, nessa altura, estavam do lado do totalitarismo esquerdista, esquecendo que foi uma trave mestra da liberdade naqueles tempos revolucionários. Eu não o esqueço e penaliza-me muito que, no Parlamento, seja apenas a direita a querer homenagear o 25 de Novembro.


Adenda: Grupo parlamentar do CDS/PP - Voto de saudação n.º 41/XIV – Pelo 44.º Aniversário do 25 de Novembro


Grupo parlamentar do PS - Voto de saudação n.º 53/XIV - À construção da Democracia em Portugal

5 comentários:

  1. Anónimo20:10

    «Eu não o esqueço»-Não vale a pena, Sofia.
    Passo pela Calçada da Ajuda (24Nov), zona da placa alusiva aos comandos ali caídos em 25Nov, pelas 11h15.
    Uma formatura de 70 a 80 antigos comandos, presente a Senhora Viúva de Jaime Neves com uma neta, uma representação de cariz militar em cerimónia aos mortos, todos ex-Comandos.
    Vindos da Amadora a pé por Monsanto até ao local, uma bandeira Nacional atrás e PSP à frente.
    Faço perguntas a um dos presentes, como foi a caminhada, como regressam à Amadora?
    a) Pediram para sair do exterior da Porta de Armas do antigo Regimento, sem sequer ir ao interior: "Não autorizados". Escorraçados para estrada antiga de acesso ao Reg Cmds, a saír do IC19!
    b) Pediram ao Exército autocarro para os recuperar da Ajuda para a Amadora:
    "Recusado". Socorreram-se de alguns dos presentes com auto-própria para o regresso.
    Falta de meios no Exército? Receio de censuras políticas do ministério-MDN?
    Ou dominados por uma cultura de empresa e chefia de teor cobardola e miserabilista,
    quando perante a tropa no activo, falam e vendem nas paradas ás praças, a superior moral e sentido de coesão da 'corporação'?
    Nada a fazer, Sofia.
    José Monteiro (Cor Páraq)

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  2. Anónimo00:22

    Julgo, Sofia, que o PS se recusou a associar ao voto pelo aniversário porque a iniciativa partiu justamente daqueles que querem fazer um aproveitamento político do 25 de Novembro que este acontecimento não permite de todo.

    Tratou-se de uma operação militar destinada a restaurar a autoridade do Estado e o respeito pela hierarquia militar, sendo que os seus principais fautores, Costa Gomes, Eanes e Melo Antunes, isto para além naturalmente das tropas no terreno a quem é devida homenagem, em particular aos que perderam a vida, são absolutamente insuspeitos de simpatias pelas causas hoje defendidas por uma parte do CDS ou pelo deputado do Chega.

    Mas Eanes tem razão. O 25 de Novembro representou uma fractura entre duas secções da sociedade portuguesa que continuam a existir (ainda alguém se proclama do 24 de Abril?). Talvez valha pois a pena não lhe atribuir uma dignidade semelhante à do 25 de Abril, cuja importância é consensual.

    O PCP e o BE são hoje Partidos fundamentais à nossa democracia, representando qualquer coisa como 15% dos eleitores votantes. João Ferreira disse aqui atrasado num debate com Adolfo Mesquita Nunes que o PCP se revia no regime democrático tal como existe. Pena é que, como diz, que ainda não consigam admitir que a prática democrática é mais importante que a via para o socialismo.

    Como alguém disse recentemente, o socialismo só é democrático se colocar a democracia à frente do socialismo...

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  3. "Aos militares que organizaram e concretizaram o golpe militar a 25 de Abril e aos que defenderam o regime democrático a 25 de Novembro, devemos o nosso reconhecimento e as nossas homenagens."
    Grata Sofia, por esta partilha que convida à reflexão.

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  4. António Estrela Teixeira16:46

    Se, como se escreve no início do terceiro parágrafo do texto acima, «Eanes tem razão», suponho que a concordância se referirá a uma passagem por si proferida há quatro anos, nas Filipinas:

    «O 25 de Novembro foi um momento fracturante e eu entendo que não devemos comemorar; os momentos fracturantes não se comemoram, recordam-se e recordam-se apenas para reflectir sobre eles. (...)»

    passagem essa que me deixou profundamente curioso pela "oportunidade" como se "materializou" e como ela "encaixa" nos propósitos de uma certa esquerda de que a evocação/celebração do 25 de Novembro se fizesse no formato o mais "tépido" possível, sem hostilidades demasiadas à "outra" esquerda.

    O que eu gostaria de recordar o comentador acima é que, nesse mesmo ano de 2015 e nessa mesma altura, Eanes, que já disse muitas coisas a respeito do 25 de Novembro, foi citado pelo Expresso (que dedicou uma reportagem ao assunto), dizendo:

    «Se perdêssemos, seria fuzilado» (https://expresso.pt/sociedade/2015-11-25-Tive-de-andar-a-bofetada-para-nao-haver-disparos-o-dia-em-que-Portugal-esteve-a-beira-de-uma-guerra-civil)

    Também neste caso, «Eanes tem razão» e é uma frase que ainda hoje me impressiona e que mostra de uma forma bastante menos adocicada o que esteve em confronto naqueles dias do Outono de 1975. Que a Verdade do que aconteceu não convenha ao actual ambiente político, nomeadamente a uma das facções do PS, isso é uma outra coisa, mas que não se tome o expediente argumentativo de "dar pancada" nos revanchistas da direita (que sempre os houve) e "esquecer" os da esquerda totalitária como um sucedâneo da homenagem séria aos intervenientes e ao significado da data.

    Quanto ao resto, o PCP e o BE são hoje partidos tão fundamentais à nossa democracia quanto os outros todos, nomeadamente os que recolheram votação suficiente para estarem representados na Assembleia da República. É (mais) uma coisa que devemos ao 25 de Novembro...

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  5. Jaime Santos23:37

    Não estou a dar pancada na Direita Revanchista, meramente a lembrar que se calhar não será boa ideia andar a secundá-la, naquilo que foi um nítido ato para tentar entalar o PS.

    Que ninguém tenha dúvidas que se Portugal tivesse caído numa ditadura de sinal contrário, os principais intervenientes na defesa da democracia durante 1975, a começar por Eanes ou Soares, teriam acabado no mínimo exilados, ou mesmo mortos.

    Agora, convém igualmente lembrar que o 25 de Novembro representou o culminar de um confronto que se desenrolou durante muitos meses, e que a homenagem a ser feita não deverá ser apenas aos militares que se bateram nesse dia, mas igualmente aos Partidos e aos Cidadãos que resistiram nas ruas durante o Verão Quente, a começar, naturalmente, pelo PS.

    Ora, eu nunca vi, e bem, este Partido a fazer especial gáudio de tal coisa... Talvez porque o próprio Mário Soares quereria, também por conveniência política, manter pontes abertas para com o PCP?

    Porventura, mas parece-me é mais uma atitude de grandeza para com os vencidos...

    Ora nisso, Eanes mostra o mesmo desprendimento. Coisa que aliás sempre caracterizou o General, mesmo quando eu discordei profundamente das suas opções políticas, como quando da fundação do PRD...

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