Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
01 dezembro 2017
Prosas Bíblicas - Livro 1

(…) É dessa matéria terrestre, corporal, palpável, que temos sempre de partir para encetar outros voos, o que implica que, tal como na Bíblia, a linguagem aqui veiculada é eminentemente simbólica, fazendo apelo a uma dimensão metafórica latente em todas as palavras que proferimos, cujo alcance acaba por ser bem mais amplo do que seria o seu significado literal: “Suspendo a luz que semeia / A ânsia do teu perfume / Palavra que incendeia / O feno do meu ciúme // Recebe-me em fogo lento / Os beijos que te confortam / Desfaz-te do desalento / Das cordas que te sufocam”. (…)
O HUMANO E O DIVINO – Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
4.
Suspendo a luz que semeia
A ânsia do teu perfume
Palavra que incendeia
O feno do meu ciúme
Recebe-me em fogo lento
Os beijos que te confortam
Desfaz-te do desalento
Das cordas que te sufocam
Se ainda sentes na sombra
O manto da descoberta
Esquece o medo que assombra
O sonho que te liberta
Livro 1 (pág. 18)
Voar
Eu queria ser astronauta
o meu país não deixou
Depois quis ir jogar á bola
a minha mãe não deixou
Tive vontade de voltar a escola
mas o doutor não deixou
Fechei os olhos e tentei dormir
aquela dor não deixou.
Ó meu anjo da guarda
faz-me voltar a sonhar
faz-me ser astronauta ...e voar
O meu quarto é o meu mundo
o ecrã é a janela
Não choro em frente á minha mãe
eu que gosto tanto dela
Mas esta dor não quer desaparecer
vai-me levar com ela
Ó meu anjo da guarda
faz-me voltar a sonhar
faz-me ser astronauta....e voar
Acordar meter os pés no chão
Levantar e dar o que tens para dar
Voltar a rir, voltar a andar
Voltar Voltar
Voltarei
Voltarei
Voltarei
Voltarei
Prosas Bíblicas - Livro 1

(…) Leiamos, então, as Prosas Bíblicas de Maria Sofia Magalhães, organizadas em três “livros”, dos quais o primeiro ocupa cerca de metade do conjunto e avulta como aquele em que sentimos mais intensamente a carga misteriosa que o ilumina. Quando digo “carga misteriosa”, uso o adjectivo sem uma conotação demasiado espiritual, já que, embora estes poemas mostrem um inegável pendor místico desde a abertura – “Senhor Deus a fome é tua / Que alimento sem querer / Raiva fria alma crua / Corpo em vida a perecer” –, as imagens que neles encontramos descem muitas vezes à nossa natureza de seres humanos, i.e., seres terrestres na sua materialidade. (…)
O HUMANO E O DIVINO - Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
1.
Senhor Deus a fome é tua
Que alimento sem querer
Raiva fria alma crua
Corpo em vida a perecer
Senhor Deus a tua sede
Banha ombros a quem sente
Penitência de quem pede
Incerteza de quem mente
Senhor Deus não tenho rumo
Com a tua direção
Numa prece te consumo
Sem te dar o meu perdão
Livro 1 (pág. 15)
30 novembro 2017
Prosas Bíblicas - Biblioteca Camões (2)
Não sei se pelo nome do livro, mas São Pedro resolveu brindar-nos com um fim de tarde de temporal e trânsito infernal, correspondendo a tantas preces que há tantos dias todos faziam.
Mas nem assim se desmobilizou a manifestação de carinho com que me brindaram, a mim e a todos os responsáveis pela concretização de mais esta aventura - Graça Morais, que cedeu a imagem para a capa e contracapa, Fernando Pinto do Amaral, que prefaciou e o apresentou, José Teófilo Duarte, pela edição e realização gráfica, Natália Luíza, que lhe deu voz,e Manuel d'Oliveira, que lhe emprestou música e encanto.
Foi um fim de tarde inesquecível. Muito obrigada a todos, com um agradecimento especial à Biblioteca Camões e a Lithales, o nosso anfitrião e autor das fotos.





Prosas Bíblicas - Biblioteca Camões (1)

Falta-nos um dilúvio, Senhor Deus, um dilúvio de palavras e de estrelas que nos acalentem e nos guiem. Faltam-nos cajados de serpentes e ramos de oliveira para remarmos na água turbulenta dos anseios, mergulhados nos corpos, nas mágoas, nos filhos, nas mulheres, nos homens, em todas as coisas vivas ou mortas com que nos brindas diariamente, pelos infinitos que não conhecemos com os finitos que nos impões, por capricho ou por castigo.
Faltam-nos os gestos, Senhor Deus, com que oferecemos os frutos da razão, entrincheirados nos ruídos do mundo, nas mais diversas necessidades desnecessárias a que nos obrigamos e acrescentamos, entulhando as almas de detritos e tédios supérfluos.
Falta-nos a terra, a chuva, a luz do pão da partilha, dentro dos círculos que traçamos para a quietude da revolta, para a tranquilidade das tempestades com que ciclicamente nos dilaceramos. Faltam-nos árvores e fios de prumo, as geometrias de um universo que vamos trilhando, horizontes desconhecidos de mãos, de olhos, do fogo lento no amor que nos negamos.
Sobram-nos espaços de solidão em que o silêncio rasga os leitos e as janelas de tantos outonos cobertos da cinza do abandono, rugas que cavam o tempo, caminhos que se encurtam de medo, de luto, de esquecimento.
E no entanto, Senhor Deus, cada olhar que retenho, cada abraço que aconchego, a cada voz que se eleva em miraculosos sons irrepetíveis, a cada mundo que habito apenas porque me dou, me dispo, me sonho, a cada verso que escrevo, vou percebendo que a enorme e misteriosa arte de te saber ausente e presente, não é mais que o holograma do meu pensamento, tão divino e inconcebível como o mais humano dos seres.
28 novembro 2017
Skoda - o carro musical
Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...
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