
(…) Leiamos, então, as Prosas Bíblicas de Maria Sofia Magalhães, organizadas em três “livros”, dos quais o primeiro ocupa cerca de metade do conjunto e avulta como aquele em que sentimos mais intensamente a carga misteriosa que o ilumina. Quando digo “carga misteriosa”, uso o adjectivo sem uma conotação demasiado espiritual, já que, embora estes poemas mostrem um inegável pendor místico desde a abertura – “Senhor Deus a fome é tua / Que alimento sem querer / Raiva fria alma crua / Corpo em vida a perecer” –, as imagens que neles encontramos descem muitas vezes à nossa natureza de seres humanos, i.e., seres terrestres na sua materialidade. (…)
O HUMANO E O DIVINO - Fernando Pinto do Amaral - prefácio de Prosas Bíblicas
1.
Senhor Deus a fome é tua
Que alimento sem querer
Raiva fria alma crua
Corpo em vida a perecer
Senhor Deus a tua sede
Banha ombros a quem sente
Penitência de quem pede
Incerteza de quem mente
Senhor Deus não tenho rumo
Com a tua direção
Numa prece te consumo
Sem te dar o meu perdão
Livro 1 (pág. 15)
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