23 julho 2017

Desinteresse

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Javier Pérez


 


 


 


A ninguém interessa se morro


se deixo as mãos pousadas e os olhos fechados


se deixo as flores no canto da floresta


e os caminhos lisos e rasos com a erva verde quieta


se deixo o sol arrefecer o corpo e a água inchar no lago


sem as ondas da minha existência.


A ninguém interessa que os dias desaprendam o meu nome


pendurado devagar no galho da oliveira


e a mansidão da madrugada não seja por mim respirada.


A ninguém interessa que a desertificação


dos ventos e das areias que o tempo espalha


surja no espaço de uma outra vida que desponte.


 

Meridional - 25 anos de encantamento

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O Teatro Meridional comemorou, no dia 21 de Julho, 25 anos.


 


Em 54 espectáculos, cerca de 2 por ano, o Teatro Meridional foi criando peças inesquecíveis, em que a simplicidade dos cenários e da música, a magia das palavras, ou mesmo a sua quase ausência, associadas e interligadas com o espantosa performance dos actores, fizeram e fazem a sua imagem de marca - qualidade, ternura, inteligência, humor. Esta qualidade tem vindo a ser reconhecida pelas dezenas de prémios com que tem sido distinguido, e pela presença do público incondicional e cada vez mais numeroso.


 


Desde há cerca de 15 anos que têm o seu espaço próprio no Beco da Mitra, a melhor sala de espectáculos do Poço do Bispo, como diz Miguel Seabra que, com Natália Luíza, dirige esta família de gente de excepção. Não faltam o café e o chá, o bolo, as mantas no Inverno e os leques no verão, tantos toques de atenção particular que, também por isso, fazem do Meridional um Teatro único.


 


Sinto-me uma privilegiada por ter podido partilhar estes 25 anos. Sempre que vou assistir a uma das suas peças, saio de lá mais atenta, mais alerta, mais feliz.


 


Muito obrigada.

Dunkirk


 


 


Belíssimo, sóbrio, depurado, muito bom filme, diferente do habitual deste géneros de filmes. Não há heróis nem demónios, apenas a luta pela sobrevivência, individual e de uma Nação.

Da falsidade das notícias...

... ou de como o jornalismo é o campeão da desinformação


 


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Confesso que estremeci quando li a manchete do último Expresso, pensando num escândalo inominável e de uma imensa gravidade. Ao contrário do que é meu hábito, comprei o saquinho com todas aquelas folhas de papel de jornal, para ler com cuidado todo o artigo.


 


É mesmo um escândalo inominável - ter um semanário, como o Expresso, a fazer uma primeira página com uma falsidade que a própria notícia, depois de lida, desmente. Mais inominável ainda é ler o Expresso curto de hoje, onde Pedro Santos Guerreiro repete a falsidade e desmente-a, de novo, de seguida.


 


Afinal, quais e quantas são as vítimas de Pedrógão Grande que não estão incluídas na lista dos 64 mortos? Não existem. Até porque o critério de inclusão das vítimas está explícito na própria reportagem - aquelas que resultaram directamente do incêndio. E, infelizmente, são 64 mortos. Aliás, independentemente de concordar ou não com o critério, nunca o vi ser questionado noutras tragédias.


 


Além de ser uma notícia falsa, é manipuladora e pretende criar um facto político usando desavergonhadamente a tragédia de Pedrógão Grande. No entretanto, tanto o PSD como o BE continuaram o embuste e amplificaram o facto político, pedindo explicações sobre os mortos escondidos.


 


Passamos o tempo a falar do pseudo jornalismo do Correio da Manhã, mas ele já se espalhou. Tanto faz ler as notícias no facebook como nos jornais ditos de referência. Já não se distinguem. É pena que os pedidos de demissão dos vários actores políticos, permanentemente brandidos pelos jornalistas, que se auto nomearam os seus juízes, não se estendam a eles mesmos, actores políticos também, ma não eleitos.


 


Como é hábito após a compra do Expresso concluo que foi dinheiro atirado ao lixo.

21 julho 2017

Paula Rego: Secrets and Stories

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Há dias assisti, na RTP play, ao filme Paula Rego: Secrets and Stories, de Nick Willing, seu filho. Vale a pena conhecer um pouco desta pintora, verdadeira artista cujo único objectivo na vida era pintar, que para ela era a própria vida. Na verdade só na pintura era capaz de reconhecer e expulsar os seus demónios, os seus medos, as suas esperanças e alegrias.


 


Através da pintura falava de si, consigo e com os outros, interpretando o seu sentimento para com os mais diversos assuntos, desde a violência da ditadura à violência do aborto. Com a pintura vivia as relações e as depressões, os problemas e as frustrações, reservada, tímida, introvertida, e um rio de personagens e cor nas telas. O seu estúdio é um manancial de figuras que faz e depois explora na pintura.


 


O relacionamento com o marido, o pintor Victor Willing, seu companheiro, orientador, inspirador e crítico da sua arte, modelou também tudo o que fez depois da sua morte. É comovente a sua carta de despedida que lhe endereçou e que ela conserva sempre consigo.


 


É também muito interessante perceber o relacionamento com aqueles que divulgaram a sua obra, uma vezes enganando-a, quando ela diz que todos lhe falavam dos preços elevadíssimos das suas obras de que ela não se apercebia, pois o que lhe davam era muito pouco, outras vezes dando-lhe a possibilidade de sobreviver, como a bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.


 


Extraordinária e sentida homenagem que lhe faz o filho. E que luxo podermos partilhar as suas histórias.

20 julho 2017

Democracia - a linha divisória

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Comunistas portugueses defendem Maduro


 


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PCP votou contra homenagem a dissidente chinês. E ouviu: “Lembram-se de Tiananmen?”


 


O PCP não aprende nada com a História. Mantém a mesma linha ideológica totalitária e, contra as maiores evidências de atropelos à democracia, desde que perpetrados por regimes próximos dos comunistas, negam-os, enquanto os mesmos atropelos dos regimes de direita, denunciam-nos.


 


É por estas e por outras que a coabitação com o PS deixa tanta gente, eu incluída, com um sabor amargo e com a sensação de se estar a ultrapassar a linha que divide os verdadeiros democratas, que defendem a liberdade de expressão de pensamento e aceitam o jogo democrático, dos defensores das ditaduras, mesmo que empreguem muitas vezes a palavra democracia.

Esclarecimentos

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Estive a ouvir a entrevista a Azeredo Lopes, o nosso Ministro da Defesa, na RTP play.


 


Gostei muito e fiquei esclarecida de algumas coisas. Só tenho pena que estes esclarecimentos tenha vindo, quanto a mim, um pouco tarde.


 


Portanto, se bem percebi:



  • para além de material obsoleto foram roubados armamentos importantes e perigosos;

  • não têm razão os que dizem que a divulgação da lista foi feita, em primeiro lugar, pela imprensa espanhola;

  • estão a decorrer as averiguações para apuramento de responsabilidades do crime (porque é de um crime que se trata);

  • a inoperância da vigilância electrónica era já bastante antiga (2009)

  • o governo estava avisado deste problema e actuou rapidamente (segundo o ministro em 32 dias)

  • todos concordam - governo e chefias militares - que a responsabilidade da segurança dos paióis é estritamente militar


 


Posso ter sido demasiado célere em pedir a demissão do Ministro da Defesa. Mas sinceramente, não entendo porque ele próprio não esclareceu todos estes pontos mais cedo e à medida que surgiam os problemas e a barragem informativa, mais ou menos inventada, na comunicação social. Por isso mesmo continuo a pensar que estas situações são penosas e que trarão desgaste ao governo, mesmo que isso só seja sentido ao retardador. Acredito que a saída de Constança Urbano de Sousa e de Azeredo Lopes acabarão por acontecer, mais da primeira do que do segundo.


 


É difícil pensar com os dados viciados. O jornalismo também se demitiu da sua função de informar e aderiu ao tremendismo mediático das redes sociais. E isso está a matá-lo. E à discussão de ideias também.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...