Sidney Bechet
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
15 julho 2016
Sax soprano
Há um ano escrevi um livro
que não queria ser escrito
que ninguém quer ler.
Este ano qual será o livro
que me vai escrever?
Sax soprano de fundo
persianas bem fechadas
o ar parado de insolação.
Apenas os dedos imolam
os pássaros da solidão.
Continuando com os clássicos
A guerra acabou
Um filme interessante, mas muito datado. A preto e branco, de uma sobriedade assinalável, silencioso e soturno, retrata a vida de um comunista espanhol exilado em França, das suas reuniões e vidas clandestinas, da sua insatisfação e crescente certeza de que a luta é anacrónica, desligada da realidade e dos verdadeiros trabalhadores, dando-se conta de uma nova geração mais violenta e destemida.
Os actores são bons e a história está bem contada, deixando-nos melancólicos e um pouco nostálgicos.
Muriel ou O tempo de um regresso
(Muriel ou Le temps d'un retour - 1963)
Absolutamente intragável. Adormeci três vezes. Mas consegui vê-lo até ao fim.
Os diálogos são péssimos e totalmente inverosímeis, as situações forçadas, a música, que entra com total despropósito é horrível, as sequências são confusas e pouco compreensíveis, os actores são maus.
A história passa-se em Boulogne-sur-Mer, à volta de uma mulher viúva (Hélene), que vive num apartamento que é simultaneamente a sua loja de antiguidades, com o enteado (Bernard), traumatizado por actos de tortura a uma mulher (Muriel) durante a guerra da Argélia. Hélene recebe um antigo amante (Alphonse), que a visita com uma jovem actriz (Françoise) que faz passar por sobrinha. Hélene tem o vício do jogo e sofre ainda com as memórias da II Guerra Mundial, mais precisamente dos seus bombardeamentos em 1943 e 1944, altura em que conheceu e amou Alphonse.
Já vi outros filmes de Alains Resnais, bastante posteriores, dos quais gostei. Até tenho medo de rever algum!
Da necessidade absoluta de cuidado e contenção
Nestas horas de horror, em que todos nos interrogamos como é possível e que motivações poderão estar por detrás de semelhantes carnificinas, o que leva um homem a lançar um camião para cima de uma multidão de gente com a vontade e o objectivo de as matar, procuramos, mesmo sem querer, culpados. Aplaca-nos o sentido de justiça ter alguém a quem acusar, julgar e condenar.
Por isso me custam as várias notícias que poderão ser extemporâneas sobre a ineficácia e a incapacidade da polícia e/ ou de outras autoridades francesas no combate ao terrorismo. Não fazemos ideia do que se passou nem do número de vezes que terão sido prevenidos outros ataques, tão ou mais sangrentos que este.
Por outro lado também não me parece que se possa concluir já que este foi um ataque do DAESH ou da AL QAEDA ou de outro qualquer grupo terrorista. Até agora, que saibamos, ainda não foi reivindicado por nenhum dos grupos que o celebram e aplaudem. A acreditar nas notícias, o homem estaria acompanhado por armas falsas e por uma granada inutilizada. Parece-me muito bizarro, tudo isto.
Por isso penso que todos devemos ter cautelas redobradas perante conclusões que poderão ser apressadas e erradas. O horror e a solidariedade que sentimos assim como o desejo de esclarecimento não devem sobrepor-se à frieza e capacidade de análise, de forma a não sermos arrastados para mais ódios e mais medo.
Dos tempos que se cruzam
E lá fomos à Fundação Calouste Gulbenkian. Como de costume, um oásis de calma, silêncio, simples sofisticação e bem-estar.
Visitámos duas exposições temporárias:
40 anos
Eleições Presidenciais
Um Presidente para todos os Portugueses
Esta exposição inaugurou-se no passado 27 de Junho, dia do aniversário das primeiras eleições presidenciais livres e democráticas. Para quem, como eu, viveu esses tempos heróicos, é quase comovente lembrar os dias das campanhas, os cartazes, os discursos, as conferências de imprensa e até o enfarte do miocárdio de Pinheiro de Azevedo, o Almirante sem medo e que tinha sido um pilar no Verão quente de 1975.
Aos mais jovens, não percam este pequeníssimo pedaço de história viva, em que observamos os protagonistas de um tempo que nos parece já tão longínquo mas que ainda nos é tão próximo. Um época em que as Forças Armadas eram olhadas como defensoras dos cidadãos e não como um corpo estranho e gastador de recursos, como o é na actualidade e o era antes da revolução de Abril.
Ramalho Eanes foi eleito por cerca de 62% dos votos (fez ontem 40 anos da tomada de posse). Quarenta anos passados todos lhe reconhecem uma estatura, uma integridade e um sentido de missão e de serviço público que foram decisivos na democratização do regime e na recuperação da serenidade. É com justiça que tem recebido inúmeras condecorações, mas a maior de todas é o reconhecimento e a gratidão de todos os cidadãos portugueses.
À saída estava a passar um fragmento de um comentário da época de... Marcelo Rebelo de Sousa! Já nessa altura comentava, dizia e fazia muitas coisas...
Aberta ao público até 27 de Julho.
Linhas do Tempo
Esta exposição inscreve-se na comemoração dos 60 anos da própria Fundação Calouste Gulbenkian. Se puder faça pontaria para assistir à visita guiada. Eu gosto de o fazer, mais para perceber melhor a ideia subjacente à exposição e para me dar conta de tantos pormenores e informações que desconheço de todo.
Confesso que me desiludiu um pouco. Os fios condutores e as razões da escolhas de algumas obras em detrimento de outras não me parece muito claro. Percebemos que há o conceito de mostrar o que é a colecção adquirida por Calouste Gulbenkian e o que foi adquirido posteriormente, mantendo vivo o museu e actualizando obras e artistas, mas pouco mais.
Uma das informações que nos é dada é que Calouste Gulbenkian não adquiriu nenhuma obra de qualquer artista português, o que me fez pensar e indagar o porquê dessa ausência. Vasculhando a sua história não consegui entender a razão para tal esquecimento. Enfim, uma personagem um tanto ou quanto enigmática, cujo legado tem sido determinante no desenvolvimento e divulgação da cultura e da ciência em Portugal.
O almoço, desta vez, foi marroquino e muito agradável: tagine de frango com limão e azeitonas e de vaca com ameixa e amêndoas, antecedidas por uma mistura de várias saladas e de paparis com alguns molhos, e acompanhadas de naan (o restaurante é marroquino e indiano). Estava-se bem na esplanada, com um grande senão - os carros estacionados mesmo, mesmo ao lado.
Nice, 14 de Julho de 2016
Nice, Promenade des Anglais (1891)
Edward Munch
A tudo nos habituamos e ao que de pior temos também. A multiplicação da morte e da violência, sem se perceber exactamente em nome de quê, de quem, para quê ou para quem, por muitas explicações mais ou menos informadas, mais ou menos realistas, mais ou menos apaixonadas que ouçamos, transforma a barbárie na norma e nós em seres sem palavras, sem lágrimas, sem paixão para a revolta.
Talvez por isso e paradoxalmente a nossa melhor arma seja o silêncio e a indiferença, tratando todo este horror e ignomínia como mais uma distracção de verão.
Talvez os mentores de toda esta carnificina em todo o mundo, privados do melhor instrumento terrorista que é a divulgação e a manutenção do medo, percebam que continuaremos a viver e a trabalhar, a passear e a aplaudir, a dançar e a sofrer diariamente com aquilo que nos é mais precioso – a nossa liberdade.
14 julho 2016
Totalmente "out" quando queria estar "in"
Isto de gozar as férias ao ritmo do que nos apetece, lento ou frenético, decidindo na hora o que se veraneia, não é tão fácil como parece.
Decididos a visitar o Museu Gulbenkian, que comemora os seus 60 anos de existência, levantamos a âncora de casa na terça-feira, muito bem-dispostos com a perspectiva de dar uma volta pelas livrarias que estão ao pé, principalmente a Pó dos Livros e a Livraria Europa-América, na Av. Marquês de Tomar.
Carro bem estacionado do parque da Av. De Berna, de mão dada até à entrada principal da Fundação, estranhamente esvaziada para um dia de Julho com inúmeros turistas deambulando pela Capital. Percebemos rapidamente porquê: a Gulbenkian fecha precisamente às terças-feiras.
Não faz mal, podemos ir lá depois. Avançamos para a Pó dos Livros, da qual ambos gostamos muito. Só que, após subir e descer a Av. Marquês de Tomar, olhando para a esquerda e para a direita, não vislumbramos a livraria. Será que faleceu? O que vale é que o smartphone tudo resolve, maravilha das tecnologias de informação. E não, não faleceu nem está em fase agónica. Descobrimos que se tinha deslocalizado para a Av. Duque de Ávila, há mais de 1 ano, e que continua um espaço muito agradável, com boa exposição e boa variedade de livros.
No entretanto, enquanto a procurávamos, entrámos na Livraria Europa-América que tem um Espaço Arte com uma exposição de pintura e escultura, de que destaco as obras de Henrique Gabriel e de Moisés Preto Paulo, muitíssimo interessantes.
Enfim, é hora de almoçar - que tal uma esplanada à beira rio? Se bem o pensámos, melhor o fizemos. A Piazza di Mare, ao pé do Museu da Electricidade, era uma escolha que combinava a esplanada, o rio e as saladas. Repetimos o estacionamento do carro, desta vez ao pé do Café In, e fomos a pé, gozando o sol e o azul do Tejo, até à Piazza di Mare. Só que, para além de umas obras, não demos com o dito restaurante. Será que nos enganámos e que era mais ao pé de Algés? Depois de algum tempo tornámos ao smartphone para nos darmos conta de que as ditas obras eram os antigos Piazza di Mare e BBC.
Ficámo-nos pelo Café In, concluindo que estávamos completamente out.
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