02 setembro 2012

Estratificação social

 


Há uns meses perguntava-me, entre outros considerandos em que concordava com a existência de exames em fins de ciclo, o que se faria com os alunos que reprovassem. Temos, neste momento, a resposta desta coligação: em vez de se mobilizarem todos os esforços, em termos de trabalho personalizado, de empenhamento dos próprios alunos, dos professores e dos encarregados de educação, em vez da aposta na formação dos professores e dos alunos, em vez do empenho da sociedade na valorização das aprendizagens, sejam elas de que tipo forem, práticas ou teóricas, profissionalizantes ou de tipo académico, resolve-se o problema compartimentando a sociedade em patamares estanques.


 


Há aqueles que têm direito a umas coisas e aqueles que têm direito a umas coisinhas. Todo o trabalho que Maria de Lurdes Rodrigues fez, na responsabilização da Escola como um todo, na qualificação e trabalho dos docentes, na filosofia do combate ao insucesso escolar, com um maior investimento em trabalho e saber focalizados em todos, mas predominantemente naqueles que mais dificuldades têm, na reabilitação das instalações e na valorização dos conteúdos, olhado como uma utopia perigosa e inútil, sorvendo dinheiro dos contribuintes, acabou.

A estratégia da raposa

 



 


Como era de prever, Paulo Portas demarca-se do desastre. A inenarrável intervenção de António Borges, no caso RTP, foi o pretexto de que o CDS necessitava para dar a conhecer o seu desagrado quanto ao rumo do governo.


 


Paulo Portas prepara-se para a crise política que se avizinha e tudo fará para não pagar a factura da coligação de que faz parte. Pairando de longe e de cima, em silêncios bem geridos, deixando aos deputados ou a alguns ministros a gestão dos recados ao Primeiro-ministro, de Miguel Relvas à hipótese de aumento dos impostos, directos ou indirectos, vem agora falar para os media das suas preocupações e do indispensável renascer da negociações entre os partidos governamentais.


 


Os sinais são fáceis de entender. A Troika tem nas suas mãos também o possível amainar da tempestade a curto prazo, caso aceite o aumento do défice deste ano sem novas medidas de austeridade para já, como o aumento do défice do próximo ano. Penso que não tem outra saída, pois como todos já o afirmaram, esta foi a sua receita falhada.


 


Mas o governo não tem a desculpa da imposição do memorando, pois assumiu, desde sempre que concordava com ela, que esta era a sua opção política e que até iria fazer mais e mais depressa, para além da Troika. O PSD e o CDS, parceiros desta coligação que nos governa, são os responsáveis pelo falhanço total da sua política. Não foi Sócrates, não foram os mercados, não foi a Troika. Tudo fizeram para que Portugal fosse obrigado a pedir o resgate financeiro, com a campanha feroz levada a cabo em 2010 e 2022, culminando no chumbo do PEC IV que precipitou a crise política que conhecemos. Prometeram o contrário daquilo que decidiram imediatamente após a tomada do poder. Puseram em prática aquilo que sempre quiseram, esvaziando o estado das suas funções e alterando radicalmente os equilíbrios sociais que se têm vindo a construir nas últimas gerações.


 


Afinal a crise não era só portuguesa. A incompetência, a impreparação e a ganância destes novos iluminados, que se apoiam e sucedem aos velhos iluminados de sempre, é dolorosa pelo que, em tão pouco tempo, conseguiram destruir.

01 setembro 2012

Setembro

 


E já estamos em Setembro, aquele que será o mês do regresso em massa da ansiedade e da depressão, da impossibilidade de pagar impostos, da mesa vazia e dos sonhos desfeitos, da escola distante, da saúde reduzida.


 


O mês do recomeço, do desemprego galopante e do falhanço mais que anunciado desta política de empobrecimento, tristeza, cinzentismo e retrocesso, das compras (s)em dinheiro, do assalto aos contribuintes, da culpa dos consumidores, da imoralidade dos vencedores.


 


Estamos em Setembro e tentamos continuar, sem um vislumbre de onde chegará a marcha atrás do país.

Cantigas de troikar

 



 


Troikemos nós já todas três, ai amigas
sob estas vidas doridas


e quem for sofrida, como nós, sofridas


se quiser viver


sob estas vidas doridas


virá troikar.


 


Troikemos nós já todas três, ai irmãs


sob estas esperanças vãs


e quem for falida, como nós, falidas


se quiser viver


sob estas esperanças vãs


virá troikar.


 


Por Deus, ai amigas, que não podemos,


sob estas vidas doridas troikemos


e se tiver que ser, como nós sabemos,


se quisermos viver


sob esta praga que recebemos


iremos troikar.

31 agosto 2012

Nevoeiro

 



Sittikorn Pokpong


 


Recolho-me em nevoeiro no todo cinzento da negação


no presente mais que passado sem futuro.


Recolho-me atrás do mundo no todo ausente de inspiração


no limite da selva para além do muro.


 


Tal como em ilhas de isolamento prisioneira de mim e da rotina


espaço-me despojo-me em sono lento


afasto desejos


desço a cortina.


 

30 agosto 2012

Um dia como os outros (116)


(...) Mas se é assim tão evidente, porque nunca se deu este passo como deve ser? Porque será que a concretização se revela tão difícil? Porque será que as famílias e os alunos evitam esta escolha? A resposta está no projeto macabro de Nuno Crato. De acordo com o ministro, quem irá para estes cursos? Ora bem, além dos voluntários - coitadinho, tem 14 anos, mas não dá para mais... -, os que chumbarem duas vezes no ensino secundário também têm o destino traçado. É um castigo: és uma besta, vais já para jardineiro; sim, terás mais uma oportunidade para voltar ao ensino regular, mas para já ficas-te por aqui. Depois, se passares os exames do 9.º ou 12.º anos, logo veremos. (...)




André Macedo






Portugal vai pôr em experiência no terceiro ciclo do ensino básico o regresso à concepção do ensino de há meio século. A experiência-piloto anunciada no DN de hoje, que de facto só pode ser um teste à aceitação social da medida, contém todos os erros das concepções ultrapassadas de ensino vocacional:
1. Diz aos jovens que ir aprender uma profissão é sinal de insucesso escolar, em vez de promover as aprendizagens vocacionais de todos os alunos;
2. Cria a ilusão de uma certificação profissional sub-escolarizada, numa Europa em que já nenhum jovem é diplomado profissionalmente antes da conclusão do ensino básico;
3. Reforça a ideia de que o ensino profissional é "fácil" e é para jovens que não têm sucesso escolar, apesar do insucesso escolar ser essencialmente nas disciplinas que, por serem fundamentais, terão que continuar a existir nesses cursos. Ou imagina-se um diplomado do 9º ano que não saiba português e matemática por ser "profissional"? Dito de modo mais cru, já é bom certificar a ignorância se for numa via profissional? (...)




Paulo Pedroso



26 agosto 2012

À porta

 



Ai Weiwei


 


Ficar à porta sempre à porta.


Vislumbrar contornos sombras


ouvir sons indistintos familiares


o morno em coisas conhecidas seguras


perfumes vagos de conforto.


Ficar à porta como ladrão faminto


ansiando por migalhas de carinho.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...