Stephan Hüsch: windows
Voltas dentro do obscuro tempo
das ondas sem espuma
reabrir janelas sem vidros
ao som do vento
que revolve o medo
em volta do passos que aguardam
as chamas de volta.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Stephan Hüsch: windows
Voltas dentro do obscuro tempo
das ondas sem espuma
reabrir janelas sem vidros
ao som do vento
que revolve o medo
em volta do passos que aguardam
as chamas de volta.
Mas apetece ouvir, falar e escrever dos e sobre os nossos artistas, os que melhor são e fazem. Como exemplo escolho o Teatro Meridional.
Não há peça deles a que tenha assistido que me tenha deixado desiludida. A imaginação com que tratam temas actuais, compondo textos imprevisíveis, rigorosos, absurdos, corrosivos, cómicos, a simplicidade dos cenários, depurados, minimalistas, o jogo de luzes e de sombras, a música e o excelente trabalho de excelentes actores, transformam os espectáculos em experiências memoráveis e difíceis de traduzir.
Em Especialistas, agora em cena (e até 7 de Agosto), o Teatro Meridional usa a sustentabilidade ambiental, centrada no problema da energia, para ilustrar aquilo que a nossa sociedade ocidental transformou na ditadura das linguagens dos divulgadores especializados em parcelas do conhecimento. A manipulação da informação é um facto, misturando nos discursos apelos aos instintos do consumismo, do misticismo, da especulação, da mesquinhez, do altruísmo e da ingenuidade, sob a capa da imparcialidade científica, económica, psicológica e moralizadora.
Um retrato contemporâneo, em que a preponderância dos Especialistas e a hegemonia da especialização, ao olhar apenas segmentos desligados de um corpo social, é incapaz de manter um cimento entre os vários sectores, de avaliar as necessidades, os valores, os anseios desse corpo, privilegiando uns em detrimento de outros para manter equilíbrios, tal como se vai afastando daquilo que é a escolha de todos para impor a opinião de alguns – a dos Especialistas que ninguém pode, sabe ou quer escolher.
Acresce ao excelente espectáculo o espaço e o ambiente de conforto e acolhimento, onde nunca falta café, chá, e até bolo, associado à preocupação de bilhetes com preços em consonância com estes tempos de crise.
Parabéns a todo o grupo do Teatro Meridional por mais este magnífico espectáculo.
Não apetece escrever sobre a realidade diária, sobre a frustração de certezas que se concretizam, das notícias que vamos ouvindo, murmuradas ou gritadas, de conhecidos ou familiares, envolvendo a falta de ética, de profissionalismo, de informação e de competência de alguns companheiros de profissão, que se aproveitam da fragilidade alheia, sem qualquer contemplação para os indivíduos e para o sistema.
Não apetece falar das privatizações a qualquer preço, dos aumentos dos preços dos transportes públicos, do cinismo dos responsáveis políticos, demonstrando à saciedade o calculismo e a desvergonha que foi a campanha e a manipulação anterior às eleições legislativas.
Não apetece ouvir o que se vai passando nas esferas de decisão política europeia, onde continuam a pontificar personagens como Durão Barroso, sem qualquer rasgo, visão ou simples ideia, arrastados por uma total incapacidade de olhar para além do seu próprio perímetro geográfico. A reboque dos acontecimentos, as cimeiras sucedem-se e vamo-nos agarrando à esperança de ainda ser possível acontecer alguma coisa que ilumine os responsáveis europeus.
Natallia Yaskevich
De olhos inundados de mar horizontes largos
luz poente luas cheias e gaivotas em terra
vou criando asas penas bicos experimentando
bússolas aéreas alargando o peito em quilha
para que quando a vida me cansar
possa descolar.
Aplaudo vigorosamente as medidas do Ministério da Educação, aumentando a carga horária de Matemática e Português, à custa da Área Projecto e do Estudo Acompanhado que, embora boas ideias na teoria, pouco resultaram na prática. O mais interessante é que estas medidas já tinham sido aprovadas pelo anterior executivo e revogadas no Parlamento, pela coligação que englobava o PSD e o CDS. Não é interessante e esclarecedor?
Picasso: Joven mujer leyendo un libro en la playa
Há umas semanas, numa conferência durante a Feira do Livro do Porto, uma das senhoras da assistência justificava a diminuta compra de livros de poesia em Portugal com a falta de qualidade e o défice de leitores e de leitura. Discorreu sobre a quantidade de estrangeiros que, em férias e nas praias e piscinas, não dispensavam um livro, enquanto os portugueses nem o jornal liam.
Talvez por isso tenha estado mais atenta ao mundo da leitura banhista este ano. Aquilo que constatei, idêntico ao que já tinha constatado em férias anteriores, é que há raríssimas pessoas a ler, apenas jornais desportivos ou os tablóides, nas várias línguas em que eles são produzidos e distribuídos. Para além disso recordo-me que, há alguns anos, os locais de venda de jornais e revistas costumavam ter livros de bolso, também em várias línguas embora menos em Português, tendo chegado a comprar alguns policiais para me distrair. Neste momento, no sítio onde costumo veranear, não há um único posto de venda em que se reconheça qualquer coisa parecida com um livro, seja de que tipo for.
Concluo que eu e a referida senhora fazemos férias de verão em locais com características muito diferentes, e que a população que gosta de ler ocupa um nicho paradisíaco e ... desconhecido, pelo menos para mim.
Escultura de barco na praia de Stonehaven
Alguma coisa diferente na praia deste ano, alguma coisa de abandono, de melancólico, de apreensivo. Não as pequenas ondas de mar frio e brando, não a areia fina e limpa, não o vento que se levantava pelo meio-dia, não as cores vivas das bolas, dos fatos de banho, dos guarda-sóis.
Era o silêncio. A falta de gritos da criançada, a ausência das risadas da juventude, a inexistência dos pregões a oferecerem bolos, água, gelados, a música calada, os tagarelas mudos.
A praia cumpria-se, como em todos os Verões, mas neste mais triste, mais parada, mais apática, mais introspectiva.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...