28 maio 2011

Das notas que tomamos (7)


 


Depois de uma crise internacional gravíssima, com o país em recessão e em austeridade absoluta, cumprindo as exigências externas supranacionais, com o desemprego em níveis altíssimos, descontentamento social generalizado, o PS continua com intenções de voto idênticas ao maior partido da oposição. Isto mostra bem o que a população pensa das alternativas a governo existente.


 



  • Como já é habitual, para o PSD, é lícito interromper, boicotar e impedir comícios do PS. É uma noção antidemocrática do que é a liberdade.

  • Paulo Rangel decidiu ressuscitar a asfixia democrática. Ouvi-lo torna-se, de facto, claustrofóbico.

  • Passos Coelho faz prestidigitação com concursos que insinua suspeitos, para se cobrir de ridículo.

  • Num dia de campanha eleitoral o momento alto foi a apanha das cerejas. Este tipo de campanha eleitoral é totalmente ridículo e parte do princípio de que os cidadãos são apoucados. Independentemente dos protagonistas, porque todos os partidos apanham fruta, arrancam legumes ou plantam batatas, conforme os gostos.

  • Os média divulgaram ontem que o memorando assinado a 3 de Maio, pelo governo demissionário e pela Troika, aceite pelo PSD e pelo CDS, é diferente do assinado pelo mesmo governo demissionário, na reunião da EcoFin, a 17 de Maio. Passos Coelho, Paulo Portas e Eduardo Catroga dizem que não sabiam da diferença. Sócrates diz que os partidos políticos sabiam da existência dos dois documentos, um com o FMI outro com os representantes da Comissão Europeia, e que o memorando final de 17 de Maio é o documento resultante da compatibilização dos outros dois. Depois do PSD ter negado o conhecimento do PEC4, quando posteriormente admitiu que foi chamado pelo Primeiro-ministro para debater o assunto, na véspera da sua aprovação em Bruxelas, ninguém sabe em quem acreditar. Se o acordado é realmente diferente do que se previa, não é admissível que o governo demissionário não tenha disso dado conhecimento as partidos que, dentro de duas semanas, poderão ter que colocar em prática essas medidas. É uma questão de respeito democrático.


 

27 maio 2011

A adaptação às circunstâncias

 


Esta campanha tem tido vários momentos de estupefacção para os eleitores. Dá-me a impressão que, secretamente falando, Passos Coelho está a fazer tudo para perder as eleições. Ou será que está convencido que esta guinada à direita, completamente extemporânea e despropositada, verdadeiramente conservadora e retrógrada, lhe vai dar alguns votos?


 


(...) Pela primeira vez na sua história, o partido social-democrata elegeu um líder não católico que defende, por exemplo, a adopção por casais homossexuais - uma ideia que o governo Sócrates vetou por recear uma espécie de alarme social. Pedro Passos Coelho já tinha sido favorável à despenalização do aborto, admitiu a liberalização das drogas e atacou o Presidente da República por causa do veto à lei do divórcio de Sócrates. (...)


 


Ana Sá Lopes, jornal  i, 02/04/2010


 


 


(...) Eu acho que precisamos fazer, tal como, de resto, estava previsto, uma avaliação dessa situação. Eu estive, há muitos anos, do lado daqueles que achavam que era preciso legalizar o aborto – não era liberalizar o aborto, era legalizar a interrupção voluntária da gravidez. Porque há condições excepcionais que devem ser tidas em conta e não devemos empurrar as pessoas que são vítimas dessas circunstâncias para o aborto clandestino. Mas não fui favorável a esta última alteração, na medida em que me pareceu que o Estado tinha obrigações que não cumpriu. (...)


 


Pedro Passos Coelho, citado pelo Público, 26/05/2011


 

23 maio 2011

Limites éticos

 


Em relação ao post anterior, todos sabemos que os comícios são alimentados por militantes, simpatizantes e outras pessoas que aproveitam para se distrairem, passearem e comerem sem pagar.


 


Mas há limites que, ao serem ultrapassados, transformam tudo à volta num estado de decrepitude e náusea de que é difícil recuperar. Como se um estalar de dedos decretasse o desaparecimento das máscaras antes tão compostas.


 


Portanto, Ana Matos Pires, não sei o que me causa mais indigestão, se a inacreditável cretinice de quem se lembrou de tal ideia, se a total falta de respeito pelos concidadãos, sejam eles de que nacionalidade forem e tenham eles a cor que tiverem, que permite a atitude, essa sim xenófoba, essa sim racista, de se aproveitar dos imigrantes com conhecimentos rudimentares da língua portuguesa, indocumentados e sem ter direito a voto, que procuram agradar e obter autorizações de residência, oferecendo-lhes comida e bandeiritas, ensinando-lhes a gritar Sócrates.


 


O abuso do poder pode ter muitas formas. O racismo e a xenofobia estão patentes em todos os actos que menorizam o outro. O que o vídeo abaixo mostra deveria merecer o repúdio generalizado da população por ser manifestamente indecente. Não é uma questão de populismo, mas de decência.

Inclusão e cidadania

 



Através do Herdeiro de Aécio


 


Inacreditável e vergonhoso.


 


E não se pode acabar já com a campanha eleitoral para irmos votar?


 


A desculpa ainda é pior.


 


 

Revolução

 



Michael Peterson: Revolution/Evolution


 


Se desatarmos os braços


com que atamos o próprio corpo


espartilhado pela solidão


se entre nós enredarmos os dedos


alargando os corpos que se oferecem


o vento revolverá os sentidos


as superfícies visíveis e inaparentes


acenderão os olhos de lume


e seremos nós


a revolução.


 

22 maio 2011

Cultura democrática

 


A estratégia dos opositores ao PS e a José Sócrates passa por desacreditar todos os que, mesmo que remotamente, apontem factos positivos na governação socialista, tratando-os a todos como um grupo em que não há indivíduos, numa corja abrantina, últimos fanáticos, mentirosos, vigaristas, gente colada ao poder.


 


A intimidação expressa ou implícita, desde as caixas de comentários de gente que prepara uma vingança mítica, até aos bem pensantes que destilam ódio por pessoas, estende-se pela sociedade dos publicados.


 


Esta cultura que se instalou, anti-democrática, em que não se vislumbra qualuqer respeito pelas ideias dos outros, está centrada na incapacidade de convencer com argumentos lógicos, de ter carisma e capacidade de liderança.


 


Desde a campanha eleitoral para as legislativas de 2009 que se assiste a um crescendo de impaciência e desespero, pela ausência de alternativas credíveis, à esquerda e à direita. Nada melhor do que fazer alastrar a doutrina do ódio. Neste momento, para além da inevitabilidade da intervenção externa, primeiro não advogada por ninguém e sinónimo de falhanço do governo - Passos Coelho e Cavaco Silva dixit - depois procurada insistentemente até à exaustão, já se afirma em campanha que Sócrates e este governo demissionário não estão a cumprir o acordo com a Troika.


 


As irredutíveis recusas dos partidos em campanha de estudarem soluções governativas resultantes das eleições, condicionando assim a sua própria margem de manobra após as mesmas, são mais um sintoma da irresponsabilidade destes líderes que, ao contrário do que afirmam, não parecem estar preocupados com o futuro do país.


 

21 maio 2011

Um dia como os outros (87)


(…) Apesar de ser necessário dar o desconto das tradições anarquistas espanholas, julgo que a natureza profunda do 15-M esconde uma perigosa tendência, cada vez mais visível nas democracias ocidentais: a fragmentação populista. (…) A demagogia e o populismo compensam no discurso político, assim como os argumentos anti-capitalistas e a recusa da solidariedade entre países ou entre regiões ou entre classes sociais ou entre gerações. (…)


 


(…) Num mundo onde se glorifica a juventude, um certo tipo de beleza, onde se combate a cultura e se despreza a inteligência, onde se procura a fama e a riqueza a qualquer preço, as pessoas parecem precisar de novas causas, que estimulem o orgulho de pertencer a algo distinto e vencedor. (…) 


 


(…) Para mais, a comunicação social (e agora as redes sociais) amplificam estes movimentos de protesto difuso. As redes sociais podem ser úteis para uma democracia, mas também facilitam o populismo. (…)


 


(…) Por tudo isto, acho que os movimentos populistas ao estilo do 15-M estão condenados a crescer e multiplicar-se. A democracia que conhecemos será combatida sobretudo desta forma, a partir do incómodo geral que os povos sentem, uma espécie de comichão superficial que alimenta a sua ansiedade. É ao mesmo tempo contestação das elites e aceitação de uma ordem mais inflexível e menos liberal. As minorias vão impor as suas visões estreitas em referendos, cujas discussões favorecem os que gritam mais alto. Haverá mais proporcionalidade nos votos e, por isso, maior fragmentação de partidos, com instabilidade governativa, liberdade para os grupos de pressão ganharem influência, divisões mais óbvias e profundas entre as pessoas. Os sinais da radicalização do nosso tempo e da doença democrática estão em Madrid.


 


Luís Naves


 

Conversas matinais

Deitada no sofá, obedecendo ao seu pedido, sinto as mãozinhas pequenas em festas, nos meus pés.      - Estou a pôr creme à vovó (carinha so...