24 outubro 2009

A coligação do inadiável

 


Acho muito interessante a discussão que tem havido sobre a índole reformista do governo, que vários comentadores e politólogos já decidiram que não terá.


 


Antes da tomada de posse do governo anterior havia um clamor de todas as elites académicas, económicas, artísticas, todas, em como eram essenciais e inadiáveis as reformas estruturais na saúde, na economia, na educação, na administração pública, na justiça, enfim, era preciso reformar o país.


 


O governo anterior fez precisamente isso. Mas quando as reformas começaram a incomodar as inúmeras corporações, romperam as movimentações para parar as ditas reformas. Contra as manifestações, as notícias do desagrado das populações, do fechamento das estradas, o governo manteve as suas intenções reformistas.


 


Pois a oposição toda, da esquerda à direita, criticaram-nas na forma e no conteúdo, de tal forma que a campanha eleitoral foi feita com base na coligação negativa que queria mudar o que o governo tinha feito em quatro anos.


 


Ou seja, os ímpetos reformistas do anterior governo foram arrasados precisamente por quem sempre exigiu as tais reformas inadiáveis. Agora que o governo é minoritário os partidos, os comentadores e os politólogos estão preocupadíssimos com as tais reformas mais uma vez e cada vez mais inadiáveis que já decidiram que o governo não será capaz de fazer.


 


Talvez se enganem, apesar dos esforços que farão para terem razão.


 


Nota: também aqui.

23 outubro 2009

Les Goûts du Vin

 



 


Mesmo em frente à Assembleia da República, descendo umas escadinhas, encontramos um fragmento de Paris em Lisboa. Nathalie Cojan recebe com um português impecável, num sotaque francês cerradíssimo. A sala é pequena, acolhedora e demasiado vazia para a comida e a bebida que lá se experimenta.


 


Les Goûs du Vin, na Rua de São Bento, vale bem uma visita prolongada, amorosa, tentadora e confortável, com música ambiente bem ao som de Paris.

 

Paris en colère

 



 


Paris en Colère


Canta Mireille Mathieu

(Maurice Jarre - Paris brûle-t-il?)




Que l'on touche à la liberté

Et Paris se met en colère

Et Paris commence à gronder

Et le lendemain, c'est la guerre.


 


Paris se réveille

Et il ouvre ses prisons

Paris a la fièvre:

Il la soigne à sa façon.


 


Il faut voir les pavés sauter

Quand Paris se met en colère

Faut les voir, ces fusils rouillés

Qui clignent de l'œil aux fenêtres


 


Sur les barricades

Qui jaillissent dans les rues

Chacun sa grenade

Son couteau ou ses mains nues.


 


La vie, la mort ne comptent plus

On a gagné on a perdu

Mais on pourra se présenter là-haut

Une fleur au chapeau.


 


On veut être libres

A n'importe quel prix

On veut vivre, vivre, vivre

Vivre libre à Paris.


 


Attention, ça va toujours loin

Quand Paris se met en colère

Quand Paris sonne le tocsin

Ça s'entend au bout de la terre


 


Et le monde tremble

Quand Paris est en danger

Et le monde chante

Quand Paris s'est libéré

.

C'est la fête à la liberté

Et Paris n'est plus en colère

Et Paris peut aller danser

Il a retrouvé la lumière.


 


Après la tempête

Après la peur et le froid

Paris est en fête

Et Paris pleure de joie.

 

Gripes

 


Desde Maio que as notícias sobre a gripe A inundam os media. Desde Maio que se preparam planos de contingência e se alertam as populações, a nível mundial, para a pandemia, para os anti-virais, para as vacinas, para os grupos de risco. Desde Maio que se vive em função daquilo que há-de acontecer nas escolas, nos hospitais, nos transportes públicos, quando a gripe atacar a sério, que a Ministra Ana Jorge se multiplica em afirmações que se pretendem calmantes e assegura que teremos vacinas e anti-virais suficientes para quem precisar.


 


A pouco e pouco começam a surgir vozes respeitadas e avisadas que explicam que o alarme é demasiado, que a preocupação é exagerada, que o susto não se justifica. Jaime Nina afirma que a mortalidade desta gripe é igual ou inferior à da gripe sazonal, a Organización Médica Colegial de España fez mesmo um comunicado em que deplora o alarmismo e acalma as pessoas, informando-as do que se está, na realidade, a passar – a gripe A é uma doença benigna, contagiosa, que na maior parte das vezes tem pouca sintomatologia, noutras tantas passa em 3 dias e tem uma taxa de mortalidade igual ou inferir à da gripe sazonal.


 


É importante que as autoridades sanitárias estejam atentas, que tenham planos de contingência, que preparem cenários mais gravosos, o que já não se percebe é o ambiente que se está a criar para uma obrigatoriedade de  vacinação, como o facto de ficar registado quem não se quiser vacinar, assim como a notícia repetida de meia em meia hora, na TSF, de uma significativa percentagem de funcionários da linha saúde 24 que não está disposta a ser vacinada.


 


A vacina está disponível e existem grupos de risco que deverão ser vacinados, tal como acontece com a vacina para a gripe sazonal. Mas não é obrigatória nem deve ser. Todas as pessoas deverão ser informadas, esclarecidas e assim decidirão o que fazer, tal como para tantos outros tipos de procedimentos e de terapêuticas. Será que estamos a preparar uma sociedade cujos indivíduos são penalizados por exercerem o seu direito à livre escolha?


 


Convém, no entanto, não acreditar em todas as teorias da conspiração que circulam por toda a parte. A última de que tenho conhecimento é protagonizada por Rauni-Leena Luukanen-Kilde, que nunca foi ministra e que já defendeu que os nazis foram à Lua na década de 40, que os americanos já foram a Marte, que teve diversos contactos com OVNIs, etc.


 


22 outubro 2009

Governo

 


Foi apresentado o novo governo.


 


Apenas algumas notas. Parece muito sensata a manutenção do ministro Teixeira dos Santos na pasta das Finanças. Não há melhor que ele para o novo esforço de equilíbrio, tendo já provado que o sabe fazer.


 


A pasta da Saúde para Ana Jorge era já esperada. Espero que a política regresse a esta área e que as reformas iniciadas com Correia de Campos se continuem pois o país precisa de muito mais do que apenas um estilo tranquilo e paciente. Precisa de um SNS sustentável e que responda às necessidades da população.


 


A pasta da Educação será a grande incógnita. Desejo toda a sorte do mundo a esta ministra, que tem uma tarefa bem difícil.


 


Aguardo com expectativa quais os sinais para esta legislatura. Refazer tudo o que se fez durante estes 4 anos, como a oposição se prepara e já anunciou ou persistir no caminho da mudança. Foi para a segunda hipótese de recebeu novo mandato governativo.


 


Felicidades para o governo e para todos nós.


 


Nota: Também aqui.

 

Deste tempo

 











 


É um tempo novo, como todo o tempo pode ser. Serão novos desde que os olhemos de novo, com olhos de ontem e de hoje, com olhares voltados para o que há-de vir.


 


É um tempo novo, aquele que usamos para enfrentar o mundo, para nos encontrarmos, connosco e com os outros.


 


As regras com que jogamos são feitas por nós, naquilo em que somos diferentes, dentro do que temos de idêntico – o gosto de trocar ideias, uma certa noção de sociedade, uma certa forma de entender o serviço público.


 


Assim me junto a esta equipa. Vou a jogo.


 


Nota: também aqui.






Da revolta na dor

 


Tenho lido, desde há bastante tempo, os posts do Besugo, primeiro no blogame mucho e depois no gravidade intermédia.


 


Outro dia o Besugo escreveu um extenso post de alguém a sofrer, de alguém com uma revolta infinita contra tudo e contra todos, de alguém que se dedica de alma e coração à sua profissão de médico, que sofre com os seus doentes, que sofre com a impotência de quem não vence a morte, de quem a combate todos os dias e de quem odeia ser vencido.


 


É assim com todos nós. Quando recebemos a notícia de que temos cancro, ou de que alguém a quem amamos tem cancro, ou outra qualquer doença grave, sentimos uma enorme revolta contra o mundo e um sentimento de culpa por não termos dado atenção aos sinais, pequenos ou grandes, mesmo inexistentes. Sentimos que deveríamos ter estado mais atentos, que deveria ter sido possível  prevenir, que deveríamos ter tido a obrigação de impedir que tal acontecesse.


 


Transformar esse grito de dor num texto de desvario de um indivíduo doente, de alguém que não respeita os doentes e que é perigoso, de alguém que merece ser desprezado porque teve a fraqueza e a força de se confessar em público, isso sim, eu acho muito preocupante.


 


Os médicos são pessoas como as outras que estão sujeitos a pressões e a stress como as outras, que têm vidas complicadas, como as outras, e que têm o direito a sofrer e a revoltarem-se contra si próprios e contra o mundo, como as outras. Inferir daí que não suportam a perda de regalias ou de status ou de poder, parece-me uma leitura absolutamente redutora.


 


O blogue está lá, para quem o quiser ler. Os comentários que lá estão são de quem quer que corra tudo bem porque, tal como o Besugo diz em vários posts ao longo de vários anos, ninguém merece ter um cancro.


 


E sim, Besugo, vai correr tudo bem.


 


Nota: recomendo outro post do Besugo.

 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...