Tenho lido, desde há bastante tempo, os posts do Besugo, primeiro no blogame mucho e depois no gravidade intermédia.
Outro dia o Besugo escreveu um extenso post de alguém a sofrer, de alguém com uma revolta infinita contra tudo e contra todos, de alguém que se dedica de alma e coração à sua profissão de médico, que sofre com os seus doentes, que sofre com a impotência de quem não vence a morte, de quem a combate todos os dias e de quem odeia ser vencido.
É assim com todos nós. Quando recebemos a notícia de que temos cancro, ou de que alguém a quem amamos tem cancro, ou outra qualquer doença grave, sentimos uma enorme revolta contra o mundo e um sentimento de culpa por não termos dado atenção aos sinais, pequenos ou grandes, mesmo inexistentes. Sentimos que deveríamos ter estado mais atentos, que deveria ter sido possível prevenir, que deveríamos ter tido a obrigação de impedir que tal acontecesse.
Transformar esse grito de dor num texto de desvario de um indivíduo doente, de alguém que não respeita os doentes e que é perigoso, de alguém que merece ser desprezado porque teve a fraqueza e a força de se confessar em público, isso sim, eu acho muito preocupante.
Os médicos são pessoas como as outras que estão sujeitos a pressões e a stress como as outras, que têm vidas complicadas, como as outras, e que têm o direito a sofrer e a revoltarem-se contra si próprios e contra o mundo, como as outras. Inferir daí que não suportam a perda de regalias ou de status ou de poder, parece-me uma leitura absolutamente redutora.
O blogue está lá, para quem o quiser ler. Os comentários que lá estão são de quem quer que corra tudo bem porque, tal como o Besugo diz em vários posts ao longo de vários anos, ninguém merece ter um cancro.
E sim, Besugo, vai correr tudo bem.
Nota: recomendo outro post do Besugo.
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