22 dezembro 2007

Osso buco

São 10 horas da manhã de um sábado véspera de Natal. Apesar de tudo, as compras da semana e as compras para as festanças natalícias, Consoada de 24, dia de 25 e restantes dias até ao fim-de-semana seguinte, têm de ser feitas, custe o que custar.

Pega na carrinha e, com a calma possível, ao chegar ao hipermercado, único local onde cortam a carne exactamente como deve ser, arranja um lugar de estacionamento com relativa facilidade. As caves ainda não estão interditas.

Moeda no carrinho e é vê-lo destemido e rápido, mexendo determinadamente as pernas, empurrando o carrinho com firmeza, a dirigir-se como uma flecha certeira para o balcão das carnes, que fica na outra ponta do hipermercado. Mas conhece-o como a palma das mãos e não há canto de agricultura biológica, nem área de detergentes para lãs que desconheça. Troca simpaticamente de sacos com uma senhora avantajada, pesa rapidamente limões e escolhe as batatas com a certeza de quem sabe o que faz.

Em completa subjugação, a esposa segue a energia deste dono de casa como um cordeirinho, comprando sob as suas ordens queijos, leite e ovos. Até a arrumação dos sacos, após uma hora na fila da caixa registadora, ou não fosse Natal, é organizada segundo um método de gestão de alimentícios de quem tem mestrado e doutoramento.

É deliciosamente arrasador.

Alternativa para almoço de Natal -
Osso Buco (4 pessoas):



  • 4 cenouras médias, sem pele, cortadas aos bocados



  • 4 tomates, sem pele nem sementes, cortados da mesma maneira



  • 4 aipos/alhos franceses, também cortadas



  • 4 cebolas médias, (o mesmo)



  • 1 dente de alho e azeite



  • 4 rodelas de osso buco (carne do pernil da vitela, cortado perpendicularmente)



Levam-se os legumes com o azeite e o alho ao lume brando, numa grande panela, durante 30 minutos.

Juntam-se as rodelas de carne e 1 copo (ou 2) de vinho branco (ou tinto), sal e pimenta; deixa-se cozer tudo, em lume brando, durante 1 hora. Mexe-se de vez em quando e se estiver sem molho, acrescenta-se vinho; prova-se e rectificam-se os temperos.

Acompanha-se com esparguete ou puré de batata, ou batata cozida, e um bom vinho tinto.

21 dezembro 2007

BCP em maus lençóis

Que grande confusão que vai pelo BCP.

Então e o Governador do Banco de Portugal só agora dá pelo imbróglio?

Fazer sentido

Também não sei o que é o verdadeiro espírito de Natal. De ano para ano agrava-se a vontade de me encolher a um canto e dormir, com a hora do despertar lá para meio de Janeiro.

E no entanto, o ritual das couves e do bacalhau, das rabanadas e da aletria, da mesa que se põe vagarosamente, da cozinha envolta em bruma nevoenta de vapor d’água e de cheiros, a sensação de estar a fazer o que é certo quando se abre a porta à família, dos encontros com os amigos a sério, a quem se deseja a sério que tudo lhes corra bem, nem que seja neste intervalo quase virtual, quase verdadeiro, esta sensação não passa, apenas se aprofunda de ano para ano.

Quando a cidade está em silêncio, à noite, e rodamos pelas avenidas ladeadas de árvores luminosas, com o barulho dos pneus nos restos da chuva, parece que a paz é possível, que há uma regra misteriosa e universal a que obedecemos, que nos torna ligeiramente melhores, por alguns instantes, aqueles maravilhosos instantes em que tudo parece fazer sentido.

20 dezembro 2007

Bastidores

Esta época de filas intermináveis de trânsito, de acotovelamentos sucessivos e desagradáveis, de toneladas de papel de embrulho a restolhar, de melopeias inaguentáveis, luzinhas a tremeluzir, musgo de plástico e Pais Natal pendurados nas janelas, oblitera totalmente qualquer resquício de boa vontade, tolerância e sentimentos de abnegação.

E no entanto, o esforço de tanta gente que trabalha o dobro ou o triplo que nos restantes dias do ano, que nos atura o enfado e as queixas, que se levanta de noite para bater massas e fritar filhós, para demolhar o pão e misturar leite e farinha, para matar leitões e perus, para nos transportar em segurança e nos proporcionar um Natal tradicional, sufocante, verde, vermelho e indispensável, que nos trata as indisposições, é esquecido e passa nos bastidores das prendas, pelas traseiras das nossas vidas.

(In)Competência?

O Tribunal Constitucional chumbou algumas normas da proposta de lei sobre o regime de vínculos, carreiras e remunerações na Função Pública, dando razão às dúvidas do Presidente da República, partidos da oposição, Juízes, etc.

Tudo normal em democracia, só demonstrando que os mecanismos de vigilância e compensação funcionam.

Mas não poderiam (o PS e o governo) ter sido evitadas estas inconstitucionalidades? O partido do governo e o próprio governo não têm juristas? Estão todos distraídos?

17 dezembro 2007

Sementes

Encosto o corpo à terra
sinto o pulsar do mundo
estou cega surda muda
na pele a vida enrugada.

Pelas veias corre o tempo
crescem árvores e dedos
sou ninho pássaro vento
noutras asas semeada.

(pintura de Christopher Reilly: Untitled Seed Branch)

16 dezembro 2007

Ave Maria

Ave Maria, gratia plena,
Dominus, tecum,
benedicta tu in mulieribus
et benedictus fructus ventris tui, Iesus.
Sancta Maria, sancta Maria,
Maria, ora pro nobis nobis peccatoribus,
nunc et in hora, in hora mortis nostrae.
Amen! Amen!

(Charles Gounod/J. S. Bach: Ave Maria; canta: José Carreras)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...