17 novembro 2007

Abraço

Sabem – me a sal
as sombras do navio.
Basta que me abraces
e um infinito de ondas
solta-se na sede imensa
de navegar.

Sabem-me a sol
as ondas deste rio.
Basta que navegues
e solta-se a sede
no imenso infinito
do teu abraço.

(pintura de Evelyn Williams: Lovers I)

Anacronismo deontológico

A atitude do Bastonário da Ordem dos Médicos, em vez de contribuir para a credibilização e prestígio da classe médica, apenas serve para a fechar sobre si própria e afastá-la cada vez mais da restante comunidade.

O poder dos médicos, enquanto senhores de um saber que lhes dava acesso às portas da vida e da morte, conferia-lhes um halo de sacerdócio tão importante como o dos ministros religiosos.

A abertura ao conhecimento, a democratização da informação e do acesso ao saber, foi corroendo a relação entre os médicos e a restante população, porque estes se fecham e resistem com atitudes, normas e dogmas que se vão desadequando cada vez mais da sociedade em que vivem, e se vão afastando cada vez mais da verdadeira prática profissional.

Se a existência de um código deontológico se pode aceitar como normal, pela regulamentação de práticas e normas de conduta que protejam as populações de actuações erradas, abusivas, negligentes e pouco éticas, a declaração de não proceder conforme esse código questiona de imediato a pertinência desse mesmo regulamento ético.

Por outro lado, se o código deontológico se arroga como defensor da consciência dos médicos, a consciência individual é privada e o comportamento individual é regulado pela lei e pelo sistema judicial pelo que, mais uma vez, se questiona a necessidade de regulamentação de uma consciência colectiva.

As normas de conduta foram-se modificando ao longo dos séculos e aquilo que era crime há uns anos deixou de ser considerado como tal, assim como atitudes aceitáveis e até desejáveis há 50, 100, 200 anos, são agora olhadas como verdadeiros crimes.

Ao Bastonário da Ordem dos Médicos pede-se que defenda o saber, a formação, a idoneidade dos seus associados, que valorize os médicos naquilo que têm de valorizável, não a manutenção de atitudes anacrónicas, protestos de independência e superioridade moral, tão eloquentes como vazios, defendendo o indefensável.

Em suspenso

Não olho
não falo
não ouço
não sinto as migalhas
de ar
a seda dos dias
não conto as batidas
do tempo.

Estou em suspenso
espero.

(pintura de Herman Pekel: Afternoon Coffee Break)

15 novembro 2007

Ética e deontologia

  • Código Deontológico
    ARTIGO 47.º
    (Princípio Geral)
    1. O Médico deve guardar respeito pela vida humana desde o seu início.
    2. Constituem falta deontológica grave quer a prática do aborto quer a prática da eutanásia.
    3. Não é considerado Aborto, para efeitos do presente artigo, uma terapêutica imposta pela situação clínica da doente como único meio capaz de salvaguardar a sua vida e que possa ter como consequência a interrupção da gravidez, devendo sujeitar-se ao disposto no artigo seguinte.
  • Estatuto Disciplinar dos Médicos
    Artigo 17.º
    Suspensão
    1. A pena de suspensão é aplicável às seguintes infracções:
    a) Desobediência a determinações da Ordem dos Médicos, quando estas correspondam ao exercício de poderes vinculados atribuídos por lei;
    b) Violação de quaisquer deveres consagrados em lei ou no Código Deontológico e que visem a protecção da vida, da saúde, do bem-estar ou da dignidade das pessoas, quando não lhe deva corresponder sanção superior.
    2. O encobrimento do exercício ilegal da medicina é punido com pena de suspensão nunca inferior a dois anos.

O Bastonário da Ordem dos Médicos deu uma conferência de imprensa para dizer que não alteraria o código deontológico, de forma a que os médicos que pratiquem o aborto antes das 10 semanas de gravidez, ou seja, dentro dos preceitos legais que regem o país, sejam vistos como autores de falta grave e, portanto, punível com pena de suspensão.

Mais afirmou o Bastonário da Ordem dos Médicos que nenhum médico seria punido se praticasse o aborto dentro dos limites da lei.

Mais afirmou o Bastonário da Ordem dos Médicos que o pensamento dos médicos não muda só porque se altera a lei, e que a Ordem assume a subordinação dos seus regulamentos à lei do país.

Não percebo como é que uma Ordem profissional cujos regulamentos se subordinam à lei do país tem regulamentos que punem o que as leis do país consideram legal. Não percebo como é que uma Ordem profissional tem um estatuto disciplinar que publicamente se compromete a não cumprir.

Não percebo onde está a ética e a deontologia de tudo isto.

Adenda: a propósito deste assunto, ler também As palavras e os actos, de João Pinto e Castro, no ...bl-g- -x-st-; Pedro “versão soft Jardim” Nunes?, de Ana Matos Pires, no cinco dias; Teimosia e faz-de-conta, de Vítor Dias, em o tempo das cerejas*; as certezas absolutas têm prazo de validade, de Cristina Vieira, no Contra Capa

A flor na boca

Fim de tarde saboreando palavras, gestos, cada um absorvendo os tons, respirando a calma dos poemas.

Poesia clara, verde e terra, de luz, de frémitos, descobertas, fragmentos de natureza.

Membros de uma comunidade virtual, juntos em real comunhão.


Abocanhar a terra,
molhada do orvalho da manhã;
Mordê-la, triturá-la nos dentes
até à dor.
Esperar pacientemente a Primavera
e sorrir à flor
que nascerá na boca


(poema de Vasco Pontesdovoar)

14 novembro 2007

O sino

Descrente das letras das cinzas
que ensaio e esqueço.

Descrente do tempo das cordas
que enrolo de dedos.

Acordo o sino.

(pintura de Kim Maple: bells)

Os decisores

A localização do novo aeroporto está novamente na ordem do dia. Cavaco Silva deixa no ar a sugestão de que será o resultado dos estudos comparativos efectuados pelo que serão o factor decisório.

Por muito que defenda a importância dos estudos científicos e técnicos que apoiem as decisões políticas, não foram os cientistas que foram eleitos para governar, mas sim os políticos.

As decisões estratégicas de desenvolvimento e ordenamento do país têm que ser da esfera política.

Espero que o Primeiro-Ministro e que o Presidente da República não esvaziem as suas próprias funções.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...