23 setembro 2007

As vidas dos outros

Depois do cartaz, a intimidade da arte na nossa casa, embrulhada em mim própria, só, eu e o filme. Uma história de pessoas e valores, de gradientes e de sofrimento, de idealismo e resistência.

Uma história brilhantemente interpretada, num tempo escuro e invernoso, num tempo perigoso, de demissão e denúncia, de solidão e companheirismo, de amargura e esperança.

Às vezes alguém redime as culpas dos outros, redimindo as suas. Às vezes os outros somos nós, que insidiosamente invadimos, que vagarosamente trituramos, que silenciosamente amamos.

"Ser ou não ser, isso É a questão"

Hamlet de William Shakespeare mostra-nos o génio do escritor.

Em cena no Teatro Maria Matos, a peça é o texto e os actores que lhe dão vida.

Um palco totalmente depurado de adereços, um som que se manifesta entre as cenas, nunca deixando transparecer tempos mortos, uma iluminação minimalista.

O teatro é o texto e os actores, com as palavras bem pronunciadas, às vezes um pouco gritadas, com solenidade e pesar, onde até os momentos mais leves prenunciam tragédia, onde os pés descalços servem a discrição dos movimentos que possam distrair das palavras.

A roupa escolhida é uma mistura intemporal, que faz lembrar histórias de fadas e príncipes, de cavaleiros e reinos, óbvia nos vestidos da rainha (Gertrudes), com excepção do rei (Cláudio) e do pai de Ofélia (Polónio), que vestem colete e gravata, para mim uma opção incompreensível.

O início e o fim da peça são fabulosos, com os espelhos e as máscaras que invocam as várias faces que nos moldam e que usamos, num drama em que todas as emoções humanas são violentamente tratadas. Duas horas e meia com ritmo e intensidade paralelas, sem deixar que se abrande a atenção de quem assiste, transformaram esta tarde de domingo num magnífico início da minha temporada de Outono.

  • HAMLET - William Shakespeare
    (tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen e adaptação de João Maria André)
  • versão cénica e encenação - João Mota
  • cenografia - José Manuel Castanheira
  • figurinos - Carlos Paulo
  • música - José Pedro Caiado
  • desenho de luz - João Mota e Zé Rui
  • interpretação - Albano Jerónimo, Alexandre Lopes, Ana Lúcia Palminha, Carlos Paulo, Diogo Infante, Frédéric Pires, Gonçalo Ruivo, Hugo Franco, João Ricardo, João Tempera, Jorge Andrade, José Pedro Caiado, Miguel Sermão, Natália Luíza e Raúl Oliveira
  • execução musical - Hugo Franco e José Pedro Caiado
    co-produção - Comuna Teatro de Pesquisa e Teatro Maria Matos

(pintura de Delacroix: Hamlet e Horácio)

22 setembro 2007

Ondas

Chegaremos às ondas
sedentos de mar de bruma
de barcos.

Que as auroras de espuma
nos guiem para além do eco
dos deuses.


(fotografia em friskyreddog: bluewave)

Incompatibilidades

Sabemos bem que o objectivo do BE é ocupar alguns minutos da atenção de uma forma populista e demagógica, usando a sua farda moralista e de superioridade moral, que está bastante encolhida desde o episódio Verde Eufémia.

Mas a questão, independentemente do erro nos protagonistas, é real e deveria ser objecto de rigor legislativo e da verve crua e certeira do nosso tão prolixo ministro Correia de Campos.

Não sei quantos médicos deixaram o SNS e suspeito que serão muito menos do que o que se apregoa, numa excepcionalmente bem montada manobra propagandística dos grupos privados de saúde. Mas o Ministro e o Estado deveriam aprender algumas lições com esses grupos.

Uma delas é a fidelização dos colaboradores, ou seja, o objectivo de ter os profissionais a trabalhar a tempo inteiro para o grupo.

Outra o elogio e o respeito (mesmo que mais explicitado do que praticado), as condições de satisfação profissional, de realização pessoal, de acarinhamento e de sentimento de pertença.

Outra a exigência, a avaliação e o rigor. Sou totalmente a favor de controlos de qualidade, relatórios de desempenho, avaliações de produtividade, melhoria de eficiência. Mas também sou a favor do espírito de corpo, de boas condições de trabalho, de remunerações dignas, de respeito de parte a parte.

Talvez não fosse má ideia o Estado perceber que (ainda) tem os melhores e pode melhorar (ainda) a qualidade dos seus recursos humanos, utilizando a inspiração de Correia de Campos no reconhecimento público e continuado do excelente serviço público que a grande maioria dos profissionais praticam, mesmo não ouvindo elogios, mesmo tendo um salário construído com base na soma de um vencimento curto e desprestigiante com vários tipos de subsídios e estratagemas.

Exigir, responsabilizar, avaliar e credibilizar, aceitar a incompatibilidade de funções exercidas na função pública e no sector privado, fidelizando os seus funcionários com um pouco mais do que palavras destemperadas e desagradáveis, criando um verdadeiro espírito de equipa, fazendo sentir que o melhores estão no melhor lugar, trabalham o melhor possível e, por isso, são os mais apoiados.

Seria muito mais difícil a Francisco Louçã atrapalhar, mesmo que por pouco tempo, o Primeiro-Ministro que demonstrou, mais uma vez, pouca flexibilidade no encaixe e, pior, nenhum argumento credível.

19 setembro 2007

Assiduidade biométrica

Estamos mesmo na rentrée. Mas, pelos vistos, a moda não se alterou e voltámos aos mesmos assuntos do ano passado.

O controlo de assiduidade e pontualidade nos hospitais do SNS é indispensável, e não consigo perceber qual é a lógica de se defender o contrário. O argumento da rigidez desse controlo por se utilizar um método biométrico é absurdo e demagógico.

Só haverá rigidez no controlo da assiduidade e na pontualidade se os funcionários resolverem boicotar o método. O despacho é bem claro ao adoptar períodos de aferição para compensação de presenças até 90 dias (3 meses).

O tipo de trabalho efectuado e as funções exercidas deverão ser tidas em conta na obrigatória flexibilidade dos horários de entrada e saída, dentro de certos limites que permitam um funcionamento equilibrado dos serviços, com recurso a desdobramento de turnos e compensações de horas já feitas ou por fazer. Se a carga horária for distribuída tendo em conta este e outros factores (horas de formação, pesquisa e consultadoria) só há razões para aumentos de produtividade.

Ser pontual e assíduo não significa entrar rigidamente a uma hora e sair rigidamente a outra.

Mas ainda alguém vai nesta conversa?

Abismo

Desato as mãos que me sustêm.

Sento-me no nada
esperando que a doçura
do teu olhar
me embale na queda.

(pintura de Georg Baselitz: Bussard)

Luxos

A DECO revelou que, num estudo efectuado em 20 escolas, se conclui que, dentro das salas de aula está frio e húmido no Inverno e o ar tem pouca qualidade. O Ministério da Educação contra ataca, defendendo que o estudo é tecnicamente deficiente e que a DECO se está a promover à custa do alarmismo dos cidadãos.

Não conheço o estudo e não sei se 40 salas de aulas em 20 escolas são uma amostragem representativa do universo escolar. Só pelo número não pode assumir-se que não é, pois as sondagens pré eleitorais, assim como os estudos epidemiológicos, estudam uma percentagem da população para se poder extrapolar os resultados para a generalidade da mesma.

Se a DECO se está a promover, até acredito que sim. Mas a realidade, independentemente das manobras publicitárias eventualmente existentes, é que o parque escolar é muito mau, mesmo que não todo uma enorme fatia dele.

Em quantas escolas há aquecimento no Inverno e arrefecimento no Verão? Quantas escolas têm cacifos para os alunos pendurarem casacos e guardarem as pilhas de livros e cadernos que todos os dias carregam? Quantas escolas têm balneários adequados à prática de ginástica e outros desportos, que fazem parte dos seus curricula? Quantas escolas têm acessos adaptados a deficientes, escadas largas e suaves para os mais idosos (professores, por exemplo)? Quantas escolas têm entradas e saídas seguras? Quantas escolas necessitam de obras de manutenção e melhoramentos nos pátios, nas casas de banho, nas salas de aulas, nas salas de professores, nas cantinas, nas bibliotecas?

O Ministério escusa de se ofender pois a responsabilidade é dele, deste e dos outros todos, e de todos os nossos governantes que investem em rotundas, estádios de football e semelhantes, em vez de investir em escolas.

E é de todos nós porque até achamos natural estar entro de uma sala de aula com duas camisolas e luvas por causa do frio. Nas escolas, nos Hospitais ou noutros locais da responsabilidade do maior empregador e prestador de serviços que é o estado.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...