Hamlet de William Shakespeare mostra-nos o génio do escritor.Em cena no Teatro Maria Matos, a peça é o texto e os actores que lhe dão vida.
Um palco totalmente depurado de adereços, um som que se manifesta entre as cenas, nunca deixando transparecer tempos mortos, uma iluminação minimalista.
O teatro é o texto e os actores, com as palavras bem pronunciadas, às vezes um pouco gritadas, com solenidade e pesar, onde até os momentos mais leves prenunciam tragédia, onde os pés descalços servem a discrição dos movimentos que possam distrair das palavras.
A roupa escolhida é uma mistura intemporal, que faz lembrar histórias de fadas e príncipes, de cavaleiros e reinos, óbvia nos vestidos da rainha (Gertrudes), com excepção do rei (Cláudio) e do pai de Ofélia (Polónio), que vestem colete e gravata, para mim uma opção incompreensível.
O início e o fim da peça são fabulosos, com os espelhos e as máscaras que invocam as várias faces que nos moldam e que usamos, num drama em que todas as emoções humanas são violentamente tratadas. Duas horas e meia com ritmo e intensidade paralelas, sem deixar que se abrande a atenção de quem assiste, transformaram esta tarde de domingo num magnífico início da minha temporada de Outono.
- HAMLET - William Shakespeare
(tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen e adaptação de João Maria André) - versão cénica e encenação - João Mota
- cenografia - José Manuel Castanheira
- figurinos - Carlos Paulo
- música - José Pedro Caiado
- desenho de luz - João Mota e Zé Rui
- interpretação - Albano Jerónimo, Alexandre Lopes, Ana Lúcia Palminha, Carlos Paulo, Diogo Infante, Frédéric Pires, Gonçalo Ruivo, Hugo Franco, João Ricardo, João Tempera, Jorge Andrade, José Pedro Caiado, Miguel Sermão, Natália Luíza e Raúl Oliveira
- execução musical - Hugo Franco e José Pedro Caiado
co-produção - Comuna Teatro de Pesquisa e Teatro Maria Matos
(pintura de Delacroix: Hamlet e Horácio)
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