26 agosto 2007

Direito à indignação

No Público de ontem saiu um artigo assinado por Luís Raposo, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA) e signatário de um abaixo-assinado que se demarcou das afirmações de Dalila Rodrigues, posto a correr por altura do episódio da não renovação da comissão de serviço, como directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).

O artigo é duro e demolidor, arrasando muito do que foi dito sobre a performance de Dalila Rodrigues nesse cargo, sobre as suas posições no que respeita a lei de financiamento dos museus, a sua pretensão relativamente à autonomia financeira do MNAA e sobre as suas posições anteriores, noutros aspectos da política cultural deste governo. É, sem dúvida, um ataque pessoal, que responde passo por passo ao que tinha sido divulgado nos media, fundamentado e concretizado.

Numa pesquisa pela Internet, dei apenas por dois blogues que reagiram a este artigo, acusando Luís Raposo de baixeza e apelidando-o de megafono da brigada do reumático.

Não conheço Dalila Rodrigues nem Luís Raposo, para além do que se lê na imprensa. Não tenho qualquer conhecimento especial da problemática dos museus portugueses, para além do que qualquer utilizador observa. Mas não posso deixar de comparar as críticas concretas de Luís Raposo com os elogios generalistas e generalizados a Dalila Rodrigues.

Quanto ao ataque pessoal, parece-me que quem foi insultado pela própria Dalila Rodrigues, que comentou o abaixo-assinado como uma forma de os signatários defenderem o seu lugar de directores, tem o direito de se defender. Ou não?

25 agosto 2007

Ota, ou seja, Alcochete

Depois de tantas juras e trejuras de José Sócrates e de Mário Lino quanto à inevitabilidade da Ota, depois de estudos infinitos sobre a bondade da decisão, depois de anos de decisão e de marcar passo, depois das pressões a favor da Ota, a favor de Alcochete, a favor de Rio Frio, depois das declarações de Mário Lino a desdizer o que sempre disse, talvez não seja má ideia incluir todas as hipóteses no estudo, a não ser que o objectivo seja adiar para o dia de S. Nunca a construção da nova pista/aeroporto de Lisboa.

Que grande trapalhada!

Em paz

Infinitas partículas de ar, junto ao rio, nesta deliciosa Lisboa melancólica de fim de Verão.

Absurdamente em paz com a vida, distende o cansaço e a tensão, enche bem os olhos de transeuntes, de pés calçados de sandálias, de montras de lojas com infinitas coisas lindas, com linhas harmoniosas, sugestivas de uma obrigatoriedade de consumo, de objectos perfeitos e inúteis, apenas indispensáveis à necessidade de beleza.

Esta é uma liberdade secreta e sagrada, horas de silêncio e absolvição.

Mínimos, devedores, perdedores

O seu lugar é junto daqueles que chegam aos 48 anos e deixam instalar-se a febre e os tremores e morrem com pneumonia, é junto daqueles que emagrecem continuamente e vêm nascer-lhes tumores em sítios feios ou vergonhosos e fazem deles mais um braço, é junto daqueles que têm tuberculose e estão desempregados, fumando cigarros encostados às paredes dos cafés de bairro, é junto daqueles que são comidos por toda a espécie de bichos microscópicos porque o HIV se instalou e venceu, nem sequer sabendo da hipótese de se tratarem.

É trabalhando nessas comunidades suburbanas, à volta de Lisboa, nessa mole de gente que parece nem existir, quando se olha para determinados hospitais de luxo com médicos de luxo, que cumpre um juramento que nunca fez.

As doenças são democráticas e castigam homens, mulheres e crianças, de luxo ou de sucata. Por debaixo das roupas, dos cremes, dos sinais exteriores da condição social, os corações falham igualmente quando enfartam, os fígados cirróticos têm a mesma cor e consistência, independentemente das bebidas que os modulam, os tumores invadem todos os corpos, silenciosa e implacavelmente.

Mas mesmo reduzidos ao mínimo múltiplo comum, uns são máximos e credores, outros mínimos, devedores e eternos perdedores.

(aguarela de Isidre Nonell: Dues dones)

Literatura e homossexualidade

O Público de ontem, no Ypsilon, falou da literatura gay.

Não entendo muito bem a que se chama literatura gay, se é literatura sobre ou com personagens homossexuais, ou se é aquela que é escrita por homossexuais.

Tal como penso que não há uma literatura feminina, porque a literatura não tem género, também penso que não há literatura homossexual, porque a literatura não tem orientação sexual.

A vivência de um escritor, desde o seu género, ao seu ambiente familiar, às doenças que tem, à cor dos olhos, da pele e do cabelo, à sua estatura, à forma como se relaciona com ele e com o mundo, os amores e desamores, a situação económica, a forma como escolhe as viagens que faz, se as faz, a comida de que gosta, o tipo de roupa que veste, as horas que dorme e sim, a sua orientação sexual, são importantes na forma como ele entende a vida e, principalmente como a transmite e a sonha, como usa a imaginação, como se expande ou se reduz no que escreve.

Escrever sobre sexo, de todos os tipos, pode ser e é feito por escritores com todo o tipo de orientações sexuais, activos ou reformados, tímidos ou exibicionistas.

A literatura, ela própria, é inesquecível ou indigente, delicada ou crua, que prende ou martiriza, enfim, boa ou má.

24 agosto 2007

Artesãos

Na cidade ficaram os pombos e os carpinteiros dos corpos, com o trabalho sempre em atraso. Fazem muito pó e são pouco perfeitos.

Corpos com medidas personalizadas não cabem nas costuras de um diagnóstico. Difícil de entender, neste mundo normalizado.

É tudo artesanato: o nosso conhecimento e a nossa arrogância.

Hábitos

Externo é o hábito
de usar a pele
dos búzios
espalhar olhos
pelos dedos
raspar a tampa
do silêncio.

Interno é o hábito
de revolver
as ondas
desejar o mundo
imerecido
morrer infinitamente
só.

(Leonardo da Vinci: desenho do coração e dos seus vasos)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...