25 agosto 2007

Literatura e homossexualidade

O Público de ontem, no Ypsilon, falou da literatura gay.

Não entendo muito bem a que se chama literatura gay, se é literatura sobre ou com personagens homossexuais, ou se é aquela que é escrita por homossexuais.

Tal como penso que não há uma literatura feminina, porque a literatura não tem género, também penso que não há literatura homossexual, porque a literatura não tem orientação sexual.

A vivência de um escritor, desde o seu género, ao seu ambiente familiar, às doenças que tem, à cor dos olhos, da pele e do cabelo, à sua estatura, à forma como se relaciona com ele e com o mundo, os amores e desamores, a situação económica, a forma como escolhe as viagens que faz, se as faz, a comida de que gosta, o tipo de roupa que veste, as horas que dorme e sim, a sua orientação sexual, são importantes na forma como ele entende a vida e, principalmente como a transmite e a sonha, como usa a imaginação, como se expande ou se reduz no que escreve.

Escrever sobre sexo, de todos os tipos, pode ser e é feito por escritores com todo o tipo de orientações sexuais, activos ou reformados, tímidos ou exibicionistas.

A literatura, ela própria, é inesquecível ou indigente, delicada ou crua, que prende ou martiriza, enfim, boa ou má.

24 agosto 2007

Artesãos

Na cidade ficaram os pombos e os carpinteiros dos corpos, com o trabalho sempre em atraso. Fazem muito pó e são pouco perfeitos.

Corpos com medidas personalizadas não cabem nas costuras de um diagnóstico. Difícil de entender, neste mundo normalizado.

É tudo artesanato: o nosso conhecimento e a nossa arrogância.

Hábitos

Externo é o hábito
de usar a pele
dos búzios
espalhar olhos
pelos dedos
raspar a tampa
do silêncio.

Interno é o hábito
de revolver
as ondas
desejar o mundo
imerecido
morrer infinitamente
só.

(Leonardo da Vinci: desenho do coração e dos seus vasos)

A estrada

Piso a estrada vagarosamente
o caminho a pedra
o sol que queima.

Piso a estrada dolorosamente
o longe o vento
a sede de névoa.

Amo a estrada silenciosamente.


(pintura de Dianne D. Baker: Passage of Fire)

Intervalozinho

Nunca tão bem me soube chegar a 6ª feira à tarde. Vou poder espreitar o mundo para lá do trabalho, encher a cabeça com outros assuntos, outras vozes, outras músicas. Tenho sede de lazer.

(pintura de Carol McCormack: Dinnabarraba dancers)

19 agosto 2007

Desocupados

Um bando de meninos que não tinham mais nada que fazer, resolveram passar um pouco das suas férias em luta ambientalista e irreverente, tão criadores e originais, tão independentes e cidadãos que são.

Não há nada melhor do que ser verde e vermelho, encenar uns batuques e uns ruídos de batuque e gritar contra os transgénicos, essa palavra que soa logo a manipulação genética e a guerra biológica, frutos do capitalismo, do consumismo e da poluição mental das mentes imperialistas e globalizantes.

É um excelente tema fracturante.

O resto foi o costume. O proprietário indignado e com um princípio de um ataque cardíaco, assustado com a flagrante ameaça da fome que iriam passar a mulher e a filha, após aquela destruição insana (1 em 50 hectares, ou seja 2% do total), a GNR a olhar para o outro lado, que isto de trabalhar cansa, e os comentadores a comentarem a idiotia de alguns e a preguiça estúpida de outros, que nem se dão ao trabalho de abrir a boca para dizer algumas evidências, como condenar o sucedido e responsabilizar quem deve ser responsabilizado.

E se os puséssemos a cavar, até pagarem com o seu próprio suor, os prejuízos?

A novíssima (confitada) cozinha

  1. Pato esturricado em molho de laranja azeda, envolto em batata esmagada e arroz engomado, com fatias de tomate verde e tiras de alface secante.
  2. Fragmentos de vitela empalada, acompanhados de cubos de pimento verde e nacos de cebola carbonizada, em cama de batatas crocantes ensopadas em óleo vegetal com salpicos de sal grosso.
  3. Bife da vazia ensanguentado, levemente escaldado, mergulhado em piscina de manteiga de mostarda e natas azedas, envolto em coroa de palitos de amido em textura estaladiça, passados por óleo antigo e cansado, com encaracolado de alface em cabelo.

Tudo isto num espaço com toques de província, serviço langoroso, em que o Chefe se mantém invisível nos bastidores. As bebidas são as únicas que se podem aceitar neste ambiente urbano e de subúrbio, com o leite de cevada bem tirado, em espuma líquida derramante.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...