24 fevereiro 2007

A suspender

Se estas notícias são verdadeiras, exactamente assim como são contadas, Sócrates prestou um mau serviço ao país e acabou de despedir o ministro Correia de Campos.

Esta reforma está a ser contestada não porque não seja necessária, diria mesmo que ela é imprescindível, não porque não tem fundamentos técnicos e científicos, porque está baseada num relatório que ainda ninguém demonstrou se e onde falha, mas apenas porque é preciso afastar Correia de Campos.

Era previsível que se acendessem todos os rastilhos e que as forças mais conservadoras da sociedade, que vão da direita à esquerda, aproveitassem todas as brechas que se abrissem.

Correia de Campos tem ajudado bastante, com a enorme inabilidade que tem mostrado, falando e rindo quando deveria estar calado e sério. Mas isso não é motivo para se afastar um ministro.

Só o facto de Sócrates ter centralizado o problema da reorganização da rede de urgências, fragilizou enormemente o ministro. O recuo na decisão de quais as urgências que fecham, fragiliza todo o governo e corporiza uma estrondosa derrota política.

É claro que Marques Mendes, que tem andado a dizer a Sócrates para pôr o ministro da saúde na ordem, já contabiliza como vitória o recuo do governo, que teve medo da rua, e criticando-o por isso.

Podem suspirar de alívio todos os que querem suspender o país. Mais uma vez, vamos suspender.

23 fevereiro 2007

Título tinhoso

Quando se fala tanto no fim dos jornais generalistas, quando se discute qual a orientação a dar à informação, se deve ser factual ou interpretativa, se deve haver artigos de opinião ou artigos aprofundados sobre assuntos específicos, eis que nos deparamos com exemplos do que é um péssimo serviço prestado às populações, ao jornalismo e aos jornais.

No DN oline o título desta notícia “Confirmada relação entre tinha e tumores”, para além de ser um enorme disparate em termos científicos, só pode alarmar as pessoas que, nalguma ocasião, tiveram ou terão tinha.


A tinha é uma infecção da pele, provocada por diversos tipos de fungos, contagiosa, que se classifica de acordo com a localização no corpo e se trata com antimicóticos. Mas, há cerca de 40, 50 anos, usavam-se radiações para tratar alguns tipos de tinha (tinha do couro cabeludo, com irradiação da cabeça e pescoço). Sabendo-se, hoje em dia, que as radiações aumentam a probabilidade de se desenvolverem alguns tipos de cancro (pele, tiroideia, etc), o IPATIMUP está a desenvolver um projecto de investigação que consiste em determinar se houve aumento da incidência destes tipos de cancros (ou outros) em doentes que tenham recebido tratamentos com radiações para tratar a tinha, pensa-se que cerca de 53.000 crianças, no Porto e arredores.

Tudo isto está explicado no artigo, ou seja, não é a tinha que está relacionada com tumores, mas sim as radiações usadas para tratar a tinha.

Para assunto tão comichoso foi intitulado de uma forma bem tinhosa!

(tinea capitis – hifas e esporos)

Inutilidade

Ontem discutia-se sobre o significado da poesia, sobre o ser poeta, sobre o artifício da linguagem, a transfiguração da palavra, sobre a mensagem poética.

Só, perante a minha inutilidade como definidora ou catalogadora de actividade tão íntima, tão exigente, tão manipuladora, em frente das palavras que brotam não sei se das vísceras, se da pele, se de algo mais transparente e sinuoso que tenha nome, não me sinto poeta, não me sinto artística, não me sinto mais do que a pobre e miserável tentativa de me olhar, de arrancar de mim esse desacerto, esse desconcerto, esse desassossego que me angustia.

Serei um poeta? Ou serei apenas infinitas possibilidades de mim, fraccionadas umas, expostas outras, hipersensíveis, que se entrechocam e se moldam sem que o eu que me analisa o compreenda?

Serei um poeta? Ou serei apenas o conjunto de emoções pouco atractivas, violentas, repressivas, que se enfeitam e transformam em vazio e nada?


(Ira-Ono: masks)

"Que a voz não te esmoreça/vamos lutar"

Foi em Cabo-Verde, em 1973 que, pela primeira vez, ouvi Zeca Afonso. Não fazia ideia de quem era, o que representava, o que era a política ou qual era o regime em que vivíamos. Não sabia o que era a censura.

Dos problemas de que falavam poucos e das dores de muitos, só me apercebia a 10 de Junho, dia de Portugal, quando o Presidente Américo Tomás condecorava garotos, viúvas, velhos pais e velhas mães, rapazes e homens estropiados, alguns com as mangas dos blusões e as pernas das calças vazias, outros sem olhos, outros conduzidos em cadeiras de rodas, com aquela voz monocórdica lembrando aos portugueses que eles tudo tinham dado pela pátria. Eram momentos de silêncio arrepiante, em que os olhos da minha mãe se marejavam de lágrimas.

Outras vezes em que a palavra pátria nos estremecia era por alturas do Natal, no desfile de rapazes que enviavam, pela televisão, aos seus "entes queridos, pai, mãe, minha adorada mulher e minha filha, um Feliz Natal e um ano cheio de prosperidades. Adeus, até ao meu regresso". Entes queridos que, provavelmente, nunca ouviram esses postais, enredados nas suas vidas feitas de ausências e suspiros, pela inevitabilidade do tributo a prestar à mãe pátria.

Mas em Cabo-Verde, local que o meu pai nos tinha mostrado, numa tarde de Verão, abrindo o Atlas e apontando as ilhas no meio do Atlântico: “é para aqui que vamos, por 2 anos”, totalmente desconhecido, em que aterrámos virgens de mornas e coladeiras, de pão de custarda e de cachupa, bebendo água de um dessalinizador, regalámo-nos de vida boa e de liberdade, adolescentes que éramos entre os 10 e os 15 anos.

A pracinha do Mindelo, a Baía das Gatas, o Monte Cara, os pátios das casas, os terrenos envolventes, as noites cálidas em que os grupos se juntavam a conversar e a participar em sessões de espiritismo, que acabavam sempre à gargalhada, a vida ao ar livre, o crioulo, o liceu, os colegas de várias cores, as recepções nas varandas das casas, as modistas, a má língua, das capitoas, majoras, comandantas e almirantas, o professor de canto coral, as aberturas solenes dos anos lectivos, tudo era uma descoberta, tudo era bom e eterno, mesmo sabendo que estávamos a prazo.

Não havia televisão, mas não fazia falta. Tínhamos as rádio-novelas e os gira-discos, um móvel de pés cónicos, com tampa superior, onde se colocavam os discos que os Alferes milicianos ou as suas esposas traziam da metrópole.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou

E foi este o encanto que nunca se quebrou. Ainda hoje, depois de tantos anos, ainda ouço, como se ainda estivesse sentada no chão fresco de tijoleira, com o cão a tentar acomodar-se debaixo de uma mesa:

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Era o canto de Maio e da esperança. Estávamos todos na Primavera. Após estas estações invernosas apetece cantar com o Zeca Afonso: “Que a voz não te esmoreça/Vamos lutar”. Sempre.

22 fevereiro 2007

Suspendamos

É claro! É preciso suspender a reorganização da rede hospitalar, como era preciso suspender o fecho das maternidades e o fecho das escolas com menos de 10 crianças!

Ao fim de 2 anos, o governo é acusado de apenas ter afrontado algumas classes profissionais, ter tomado algumas medidas superficiais, sem reformas estruturais. No que diz respeito à reorganização da rede de urgências que, no entender da oposição, chefiada pelo PCP e secundada pelo PSD, não é uma reforma estrutural, esta deve ser suspensa.

Aliás, a única coisa que a oposição tem para oferecer é a suspensão. Já vem de longe, com a suspensão da co-incineração, e agora com a suspensão das responsabilidades governativas na Câmara de Lisboa (em que parece que estão todos de acordo em manter a Câmara em suspensão!). O PCP quer que haja explicações técnicas que justifiquem esta reorganização. Devem querer que se nomeie outra comissão científica, tal como já aconteceu com a co-incineração. Se as comissões científicas não dizem o que a oposição quer, nomeia-se outra!

Este país é exímio em estudos, comissões, diagnósticos e considerações. Por isso é que, desde há tantos anos, está suspenso!

21 fevereiro 2007

Graça

Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti.

(poema de Eucanaã Ferraz; recorte de Gémeo Luís)

19 fevereiro 2007

É a guerra!

Alberto João Jardim tornou, infelizmente, a mostrar o cimento carnavalesco de que é feito.

Em cerca de 15 minutos, com uma solenidade de palhaço em desgraça, insultou os órgãos de soberania nacionais, por certo esquecendo-se que ele também é português, os socialistas madeirenses, os seus companheiros de partido, visto que justificou a sua recandidatura por palavras em que enxovalhava todos os outros potenciais candidatos do seu próprio partido. Clamou contra a quebra de solidariedade do país, esquecendo-se da falta de solidariedade que ele demonstrou sempre ao gastar mais do que podia.

Enfim, fez muito barulho, grande estardalhaço, mas não explicou como, depois de legitimado pelo voto dos madeirenses e dos porto-santenses, vai combater o governo central.

Eu aposto na declaração simultânea de secessão de guerra, entre o Soberano Reino da Madeira e Porto Santo contra a República Portuguesa.

Que tristeza!

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...