09 abril 2006

Cenas do quotidiano (1)



Já vai longa a viagem. No CD tocam os Supertramp. Lá atrás o T:
- Quem é o vocalista deste grupo?
O pai de T:
- São dois…
- (inclinando-se para a frente) - Van Dóis?
- Não, são dois!
- (as mãos em concha, atrás das orelhas) - Sam Dóis??
O irmão de T, de voz arrastada, gazadora e trovejante:
- Não, é Van Der Dóis!!!
- (cara franzida e incrédula) - O quêê?!?!
O pai, a mãe e o irmão de T, em desespero ensurdecedor:
- Nãããooo!! São DOIS!!! São DOIS vocalistas!!
- (recostando-se no assento) - Hahh, são dois!

Evangelho segundo Judas


Na continuação do estudo de antigos manuscritos sobre os primeiros anos do cristianismo, evangelhos não canónicos, hereges ou gnósticos, o Evangelho segundo Judas será um acontecimento de grande importância, não só cultural mas teológica.

O facto de Judas não ser um traidor mas o discípulo predilecto de Jesus, de tal forma que é ele a quem Jesus confia o papel confirmador da previsão messiânica (com a sua morte) e sendo a ressurreição espiritual, ao contrário da carnal, a experiência inscrita nos textos gnósticos, é uma diferença substancial à leitura canónica da ressurreição de Jesus e da morte de Judas, consumido pelo remorso.

Por outro lado, Judas traidor e assassino de Jesus foi utilizado como estandarte do anti-semitismo, interpretação tolerada pelos responsáveis cristãos, com implicações macabras.

Considero interessantíssimos os debates sobre a pessoa de Jesus, na sua dimensão histórica e religiosa, fora da visão limitativa e redutora do catolicismo. Ao contrário de Frei Bento Domingues ("Um partido do Papa?" - Público de hoje), penso que Jesus teve um importante papel político e que a sua intervenção cívica, integrada na religião judaica, foi vista como uma perigosa promessa de revolução social e política, como tantas houve naqueles tempos.

Violência e ignorância

Livros queimados, escolas destruídas, os templos do saber profanados.

Isto é, para mim, a verdadeira e mais perigosa guerra religiosa.

Não há causa, reivindicação ou direito que justifique a glória da ignorância e da violência, ou da violência e da ignorância, porque uma implica a outra, sem ordem definida.

08 abril 2006

Untitled


Languidez

Tardes da minha terra, doce encanto,
tardes de uma pureza de açucenas,
tardes de sonho, as tardes de novenas,
tardes de Portugal, as tardes de Anto,

como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
horas de fumo e cinza, horas serenas,
minhas horas de dor em que sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
que poisam sobre duas violetas,
asas leves cansadas de voar…

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
traçam gestos de sonho no ar…

(Florbela Espanca)

Escola em vias de extinção

Sou absolutamente a favor da reorganização das escolas, serviços administrativos, serviços de saúde, judiciais e outros, de forma a combater os desperdícios, concentrar vontades e readaptá-los à realidade, tão diferente da de há 30 ou 50 anos.

No entanto, e porque essa reorganização implica mudanças que nem sempre são positivas para a totalidade dos cidadãos, há que escolher com precisão e rigor, fundamentar opções e partilhá-las com as populações.

Isto é particularmente necessário em matérias sensíveis como a saúde e a educação.

A propósito do anunciado fecho da Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico D João de Castro e da sua fusão com a Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Fonseca Benevides, dos quais tive conhecimento através de uma companheira de lutas antigas, também na área da educação, fiz várias pesquisas na net.

Na mesma zona, junto a Alcântara, há estas duas escolas e a ainda a Escola Secundária com 3º Ciclo do Ensino Básico Rainha D Amélia (que já se fundiu com a Ferreira Borges), ao todo três escolas de ensino público, exactamente do mesmo tipo. Parece fazer sentido pensar que não são necessárias essas três escolas. Talvez duas, ou mesmo só uma.

O que convinha explicar bem é quais sãos os critérios que levam à cessação de actividades de uma em detrimento das outras. É pior em espaço e infra estruturas, tem menos alunos, tem um corpo docente mais instável, tem piores resultados nos exames?

Quais as vantagens das outras?

Não tenho razões para desconfiar da bondade da decisão ministerial. Em princípio é-me indiferente quais as escolas que fecham e quais as que se mantém, se estiverem asseguradas as melhores instalações, as melhores acessibilidades, os melhores professores, os melhores projectos educativos, as melhores hipóteses de interacção com as comunidades, etc.

Mas para isso é preciso haver razões técnicas muito bem explicadas. Porque senão é apenas uma questão de fé na Sra. Ministra e no seu Secretário de Estado.

Angola


Angola surge, mais uma vez, como a terra prometida.

Não serão exploradores a explorar explorados mas cidadãos de um estado a trabalharem para outro estado. Resolvem-se, pelo menos, dois problemas: reduzem-se os desempregados em Portugal, aumentam-se os empregos em Angola. Pelo menos, assim se espera.

Mas não deixa de ser curioso que assuntos como liberdade de expressão do pensamento, censura, presos políticos, eleições livres, corrupção e outras palavras e conceitos, tenham sido varridos para debaixo de todas as mesas, calando as consciências democráticas do nosso governo e dos nossos empresários que, subitamente, descobriram em José Eduardo dos Santos um parceiro estratégico para a economia portuguesa.

As voltas que a História dá.

Saúde a martelo

Correia de Campos não podia ter-se lembrado de um tema mais fracturante que a luta anti tabaco para fazer esquecer outros problemas, menos glamorosos, saudáveis e de tipo milénio XXI, mas talvez mais prementes, tais como a receita médica por denominação comum internacional, a liberalização do negócio das farmácias, a falta de médicos, o caos dos cuidados primários de saúde, etc.

Claro que se não deixarmos as pessoas fumarem, beberem álcool, comerem doces, usarem o carro, não caírem e não … (há sempre o perigo da SIDA e/ou do HPV), elas não adoecerão. O dinheiro que se pouparia, meu Deus!

Deve ser essa a ideia.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...