25 março 2006

Fim-de-semana

O bom dos fins-de-semana é que não são programáveis.

Mesmo que tenhamos pensado em ocupar os dias com afazeres culturais, sociais ou apenas e só domésticos, o que têm de absolutamente sublime é o podermos estar totalmente desocupados.

Só assim os rituais do lazer se transformam em pequenos prazeres indispensáveis à sanidade de uma semana trabalhosa e, por vezes, acinzentada.

24 março 2006

O lugar das coisas


Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.

(poema: Nuno Júdice; pintura: Scott - simple things)

23 março 2006

O misterioso caso da alegada fuga (ao fisco)

Adensa-se a intriga.

Será que António Carrapatoso pagou e não devia ter pago, ou não pagou e devia ter pago? Será que é ele que deve dinheiro ao estado ou o estado que lhe deve dinheiro a ele? Será que foi ele que interpretou bem a lei, e mesmo assim pagou, ou que foi o estado que não a interpretou mal, e mesmo assim não recebeu?

Esperam-se os novos desenvolvimentos desta novela (de mau gosto e perigosa, não sabemos é bem para quem) nos próximos dias (ou até cair tudo no abençoado esquecimento).

22 março 2006

Irritação bloguística

Não sei o que se passa mas não consigo fazer "upload" das imagens nos "posts". Alguém sabe o que se passa? Sou só eu?

"Consolidar agora para um futuro melhor"

O nosso primeiro descobriu um método excelente de propagandear a sua política – pôr os funcionários das finanças a fazer a mini-maratona com camisolas oferecidas com o lema: “consolidar agora para um futuro melhor”. Esperemos que os funcionários públicos colaborem, a bem da nação! Mas afinal acabou por desistir.

Não sei porquê. A ideia até se podia estender a outros ministérios. Ele era professores, médicos, enfermeiros, técnicos administrativos, eu sei lá, todos esses milhares de funcionários a mostrarem entusiasmo e alegria por irem parar ao quadro de excedentes. Até vão ter mais tempo para praticar desporto!

Hilariante.

Notícias

Cada vez mais desconfio das grandes frases noticiosas gritadas pela TSF, logo de manhã.

Hoje a notícia era dada pelo DN, segundo o qual António Carrapatoso se tinha livrado de pagar ao fisco setecentos e tal mil euros porque as finanças tinham deixado caducar o prazo de exigência do pagamento.

Li cautelosamente as duas notícias, a primeira em que se conta que houve uma auditoria à declaração do IRS de 2000 apresentada por António Carrapatoso, que concluiu, QUATRO ANOS depois, que este devia um monte de dinheiro ao fisco. Entretanto, embora constasse informaticamente que a notificação para a liquidação da dívida tinha seguido em 30 DE DEZEMBRO (a um dia do final do prazo), a verdade é que só foi enviada APÓS o fim do prazo, ou seja, caducou a pretensão do estado.

A segunda notícia é a justificação de António Carrapatoso, por interposta pessoa, de que não devia nada ao fisco, dando a entender que a sua declaração estava correcta e que a interpretação das finanças estava errada.

Várias observações se me deparam:

1. Porque é que só agora sai esta notícia no jornal, quando as informações, processos, etc, datam do fim de 2004 e do meio de 2005?

2. Como é possível tanta negligência da parte das repartições de finanças? Parece que se instauraram processos que, provavelmente, não chegarão a lado nenhum.

3. Independentemente de António Carrapatoso ter agido dentro da lei, fica a desconfortável sensação de que foram usados truques para não pagar impostos, o que fica muito mal a quem defende acaloradamente a reforma da administração e a redução das regalias dos funcionários públicos, pois o estado não pode gastar tanto. Pois é, mas se talvez recebesse o que devia de quem devia…

21 março 2006

Todo o tempo é de poesia


Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

(poema de António Gedeão; pintura de Lees: coffeemaker)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...