09 março 2006

Presidente e presidências

Pois é. Cavaco Silva vai ser o nosso Presidente por 5 anos (pelo menos).

Por alguns fragmentos do seu 1º discurso que ouvi, parecia ser um discurso do chefe do governo!

Tenho ouvido múltiplos balanços à actuação de Jorge Sampaio, a grande maioria negativos, com excepção do de Pacheco Pereira que (surpreendentemente) o achou muito bom ou mesmo excelente!

Penso que Jorge Sampaio foi um presidente mediano, nem muito melhor nem muito pior que os outros. Também me parece que os presidentes não têm oportunidade de serem muito bons ou muito maus, a não ser em circunstâncias excepcionais.

Durante os governos de Guterres, mesmo que o presidente se apercebesse do aterro em que nos atolávamos, não tinha poderes para alterar a situação. Falar, falou ele, até à exaustão, de tal maneira que já ninguém lhe ligava importância.

Quanto a mim Jorge Sampaio cometeu 3 erros grandes, mas não por ser fraco ou indeciso ou por ter medo. Acho que a leitura política que fez da situação não foi a correcta.

1 – Nunca deveria ter aceitado a quebra do compromisso de Durão Barroso que, deixando o país em suspenso e com Santana Lopes no cargo partidário que tinha, rasgou o “cumprimento leal das funções que lhe foram confiadas”.
Já que aceitou a fuga do primeiro-ministro, deveria ter pressionado de todas as formas e feitios, para que o sucessor de Durão Barroso viesse do próprio governo, nomeadamente Manuela Ferreira Leite, para que houvesse continuidade no projecto que tinha sido sufragado.

2 – Não deveria ter empossado Santana Lopes, muito menos na sequência da peça teatral em vários actos e 15 dias – A Reflexão Presidencial (ai meu deus que fazer, nossa senhora?)

3 – Deveria ter demitido, já por várias vezes, o Procurador-Geral da República, Souto Moura, um dos grandes responsáveis pelo descrédito da Justiça.

Também me parece que algumas Individualidades, enfim, podiam ter ficado por nomear (Guilherme de Oliveira Martins independente para presidente do Tribunal da Contas?!?!?!)

Mas com Cavaco Silva, Portugal até vai entrar em órbita, tal a velocidade com que vai crescer (espero é que não rebente de vez!)

Originalidade e arrogância

Não assisti a toda a cerimónia de tomada de posse do novo Presidente da República.

Mas assisti à interrupção, por parte da SIC notícias, do discurso do Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, para que se ouvissem os comentários de Ricardo Costa, sobre vários aspectos políticos do próximo mandato presidencial.

Por pouco ritualista que se seja, por menos reverencial ainda que se seja, no que diz respeito às instituições do estado, parece-me de uma arrogância atroz que se pense que os comentários analíticos, por muito espantoso que seja o comentador, neste caso (e se calhar não por acaso) um jornalista, é mais importante que o discurso da 2ª figura da nação, na cerimónia de tomada de posse da 1ª figura da nação!

Acredito que houvesse outros momentos durante o dia de hoje em que se poderia comentar tudo e mais alguma coisa, sem apagar as palavras de Jaime Gama.

Felizmente, pelo que me apercebi, pelo menos nesse momento, foi a única televisão original.

08 março 2006

Quotas

O PS quer discutir e aprovar um projecto de lei que introduz a obrigatoriedade de quotas nas listas eleitorais, ou seja, é necessário que haja um mínimo de 33% de candidatos de um sexo nas listas eleitorais, para que estas sejam aceites. Pretende-se uma discriminação positiva para o género feminino.

Devo confessar que, por princípio, sou contra qualquer sistema de discriminação positiva ou negativa. Sou a favor da igualdade de oportunidades, que não deve depender do sexo, da idade, da raça, da religião, etc.

Bem sei que é idealismo a mais, mas a verdade é que não gosto que me impeçam de aceder a determinados postos de trabalho ou que me reduzam o salário, apenas porque sou mulher, como não gosto de ser promovida ou de ganhar mais… apenas porque sou mulher.

O equilíbrio entre os sexos é um objectivo importante em todas as actividades, na política, no trabalho e na família. As mentalidades, como toda a gente sabe e já o disse, mudam-se devagar.

Para que mais mulheres respondam ao apelo da política, cheguem a directoras de empresas, etc, são necessárias mudanças estruturais nas cabeças de homens e mulheres, no que diz respeito à disponibilidade dos homens em acompanhar os filhos em casa, na escola e quando estão doentes, de ajudarem os seus pais, de saírem do trabalho a tempo de irem buscar as crianças ao infantário, de partilharem com as suas companheiras o tempo de licença de parto (porque é que há-se ser apenas a mulher a ter esses meses com a criança?).

É também necessário que a sociedade deixe de considerar os homens que verdadeiramente partilhem as actividades familiares, uns coitados, porque devem ter mulheres dragões, ou então, se decidem fazer de donos de casa, uns preguiçosos, que gostam é de fazer coisa nenhuma e de viverem à custa das desgraçadas mulheres.

Por outro lado, a nível de facilidades e de apoios à família, convinha ir mais além, aumentando as ofertas de pessoas que possam tomar conta de crianças e de idosos, por algumas horas e aos fins-de-semana, diminuir aquelas reuniões muito importantes em lautos jantares de negócios, e implementar o tele-trabalho.

Não sou, no entanto, fundamentalista e estou aberta à demonstração de que as quotas têm mais vantagens que inconvenientes.

Mas, por princípio, sou mesmo contra.

(vale a pena visitar o site:
www.quotaproject.org)

Alma gémea


Tenho uma tia que faz biscoitos, meias de malha e chapéus altos de cartolina, que cita montes de provérbios, viveu em aldeias que já ninguém conhece e ensinou crianças descalças em aulas com todas as classes.

Tenho uma tia que sabe palavras que já não vêm em dicionários e falar em castelhano, que colhe amoras silvestres e faz tortas de ovos, que cuida de 3 (agora 4) netos e já visitou meio mundo.

A minha rica tia, que não é rica mas é minha e tem um nome como ela, branco e celestial, que eu adoro e admiro.

Um dia, num daqueles testes estúpidos que nos mandam por e-mail, descobri uma realidade: que ela é a minha alma gémea.

(pintura de Edward Longo: easter)

07 março 2006

Taxas moderadoras


Acabei de ouvir o ministro da saúde, Correia de Campos, a propósito do aumento das taxas moderadoras (SIC notícias).

Independentemente de se concordar com a existência de taxas moderadoras, é evidente que esta actualização de preços é necessária e não me repugna que seja muito maior para os serviços de urgência, pela necessidade de tentar reduzir o recurso, sem razão, a estes serviços.

Como o ministro afirmou, há cerca de 40% de falsas urgências, que consomem recursos humanos (e não só) absurdos, desviando-os de outros serviços e das consultas.

No entanto não me parece que seja com taxas moderadoras que haja um menor número de urgências, mas sim com uma remodelação dos centros de saúde, melhorando o acesso aos cuidados primários de saúde. O ministro diz que é o que estão a fazer. Vamos ver. Espero bem que sim.

Mas o que descredibiliza os agentes do poder político é a autêntica esquizofrenia de atitudes e opiniões, que muda 180 graus consoante se está no governo ou na oposição.

Em Setembro de 2004 o então ministro da saúde, Luís Felipe Pereira, lança a ideia das taxas moderadoras diferenciadas, tendo actualizado o preço das mesmas. Em uníssono toda a oposição (onde se incluía o PS) condenou, por razões não muito compreensíveis.

Pois agora é o governo do PS que aumenta as taxas, e só não as transforma em diferenciadas porque não tem instrumentos fáceis e fiáveis para o fazer, como já assumiu, e a oposição em coro é contra (PSD e CDS incluídos) por razões não muito compreensíveis.

Bem sei que temos a memória curta, mas TÃO CURTA, não!

Sugiro que contratem uns assessores que lhes LEMBREM o que disseram acerca de determinados assuntos, para que, pelo menos, as justificações para as mudanças de opinião sejam mais, digamos, criativas!

(pintura de Sebastien: true lies)

06 março 2006

Untitled

O DN de hoje traz um artigo de Fernanda Câncio sobre a mulher do Presidente da República.

Na verdade, o trabalho da mulher ainda continua a ser pouco valorizado. A sua realização como profissional é secundária ao seu papel de mãe e, mesmo nos nossos dias, ao de esposa. É muito mais frequnte a mulher abdicar da sua dedicação ao emprego, de um congresso, de uma promoção, se isso implicar mudanças no emprego do marido, diminuição do número de horas dedicadas à família, etc.

Até hoje, as mulheres dos presidentes eleitos após o 25 de Abril assumiram o papel de esposas, passando o seu trabalho a ser o de acompanhantes do marido e, tenham ou não formação para tal, de representantes da “caridade” estatal, desdobrando-se em encontros, angariação de fundos, etc, do IAP, da CVP, dos inválidos e desvalidos da nação.

Ou seja, o tradicional papel secundário da esposa e mãe.

A presidência da república é um cargo unipessoal. Não há, portanto, lugar a primeiras damas ou a primeiros cavalheiros. É um trabalho, um emprego, pago pelo estado (nós).

Imaginemos que é uma mulher eleita presidente da república, e que o seu esposo é engenheiro numa qualquer empresa, ou médico, ou professor universitário. Alguém sonha em que o esposo largue o seu emprego para acompanhar a presidente nas visitas de estado, vá angariar fundos para a Liga, visitar os lares de 3ª idade?

Perguntem ao Martim!


Graças a seja lá quem for, pela tecnologia, pelos computadores e pela Internet. A imobilidade forçada fica um pouco mais leve, pela possibilidade de “passearmos” pelo mundo.

Martim Avillez Figueiredo consegue sempre (ou muito frequentemente) surpreender-me. Os seus raciocínios e analogias são brilhantes, luminosos!

Hoje brinda-nos com um artigo de opinião, no “Diário Económico” online, absolutamente fantástico e que, caso o Ministro das Finanças esteja atento, é a resolução de todos os nossos problemas orçamentais.

Então é assim (se bem entendi): Nos EUA (aquele paraíso económico-político-sócio-cultural) o governo quer VENDER bocados de FLORESTA (árvores, passarinhos, insectos e outros animais, terra, ar puro, etc), transformando esses bocados em áreas de construção, para financiar o seu orçamento. O que Martim Avillez Figueiredo aplaude (o título do seu artigo é “decidir bem”) e compara com a decisão do nosso modesto Ministro da Saúde, Correia de Campos, de vender os terrenos, em Lisboa, onde estão construídos hospitais velhos e degradados, como o IPO, Desterro, Capuchos e S. José, para construção e, com esse dinheiro, construir hospitais novos noutros sítios, porventura mais adequados, e cujo solo seja menos rentável.

É exactamente o mesmo, não é? Não sei se os terrenos no centro de Lisboa servem para outra coisa que não construção imobiliária (talvez com um raquítico jardim) mas, obviamente, para que servem as florestas se não para serem vendidas e substituídas por prédios, estradas, parques, McDonald’s, cinemas, casinos, etc?

Sugiro ao Primeiro-Ministro que atente bem neste exemplo. Temos por cá lagos, rios, algumas montanhas e ainda uns grupos de árvores que podem valer algum dinheiro! E então adeus défice!

(pintura de Dima Nencheva: ice forest)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...