09 maio 2026

Skoda - o carro musical

Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado.

Sem perceber como nem porquê, este meu carro resolve aumentar o volume do rádio ou do Spotify quando lhe apetece, até gritar estupidamente. Se desligar o infotainment, ele liga-se sozinho.

Mas também o faz estando desligado e estacionado.

Outro dia parei o carro em frente à farmácia. Depois de comprar o que necessitava dirigi-me ao dito para regressar. Enquanto me aproximava comecei a ouvir barulho que vinha de dentro do carro, como se houvesse alguém a discutir lá dentro. Abri a porta e fui recebida pelo rádio em altos berros.

Nem sempre acontece. E não encontro nada que possa explicar tal comportamento. Já esteve no concessionário várias vezes e volta sempre na mesma.

Enfim, enquanto não resolver imitar o carro assassino, estou descansada!

08 maio 2026

O PRR e a Transição Digital na Saúde

Um dos grandes motivos de burnout dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é a luta diária com os sistemas informáticos, plataformas, softwares, impressoras, etc.

Com o advento das desmaterializações e da transformação de processos e procedimentos manuais e em papel para modelos digitais, o que é importantíssimo e saúdo vivamente, poderíamos pensar que tudo seria mais fácil, rápido e sereno. Pois não é o caso.

O problema é que não há verdadeira integração e comunicação entre as várias plataformas, a velocidade da internet não é a desejável e o hardware envolvido também não. Por outro lado, há cada vez mais tarefas assumidas por médicos que nada têm a ver com atividade médica, desperdiçando tempo, capacidades, paciência aos médicos e dinheiro dos contribuintes.

O PRR destinou 300 milhões de euros à Transição Digital na Saúde (TDS). Segundo o relatório de acompanhamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de 2026, publicado no site da Comissão Nacional de Acompanhamento (CNA) do PRR, a TDS (C01-i06) está…. concluída!

No entanto, no portal de informação Mais Transparência, a conclusão deste projeto deverá ser a 31/12/2026, tendo sido o valor já pago de 155,02 milhões de euros, ou seja, de 51,6% do total...


Por outro lado, no site da SPMS, no que diz respeito a informações e notícias sobre este tema, a data da última publicação é 04/06/2024!

Confesso a minha perplexidade e estranheza. A TDS já está completa, foram pagos cerca de 50% dos montantes totais e as últimas notícias datam de 2024.

A realidade diária também está perplexa - será uma realidade paralela?

Médicos tarefeiros - a necessidade de inverter a situação

 

ChatGpt

O mestrado integrado de Medicina tem a duração de 6 anos. Segue-se mais um ano, o Comum. Depois a Formação Específica que, dependendo da especialidade, estende-se por um período de 4 a 6 anos.

Ou seja, fazendo as contas, um médico especialista demora 11 a 13 anos a formar-se.

A Formação Específica obedece a critérios dispostos na Lei. Não é qualquer serviço em qualquer hospital que pode oferecer essa formação. Para tal, todos os anos é avaliada a capacidade formativa dos serviços, nomeadamente daqueles que se candidatam a ter internos.

O número de vagas de formação de especialistas é determinada pelo Ministério da Saúde / ACSS, não sem antes ter o parecer da Ordem dos Médicos.

Para fazer face à escassez de profissionais nos serviços de urgência, primeiro, e nos serviços de internamento hospitalares e em consultas externas, depois, principalmente a partir de 2010 – 2015, os contratos de prestação de serviços com médicos sem especialidade foi-se tornando prevalente nas organizações hospitalares. Escassez essa que se iniciou na contração de alunos de medicina e na contração de entrada em especialidade, iniciada nos anos de Leonor Beleza.

Até hoje, médicos que terminem o Ano Comum e não tenham entrado numa vaga de especialidade (lembro que nos últimos anos há sempre vagas de especialidade sem serem preenchidas) podem ser (e são) contratados como prestadores de serviço predominantemente em serviços de urgência.

Por outro lado, médicos que terminem com aproveitamento a sua especialidade, caso não queiram ocupar uma vaga nos concursos anuais para recém especialistas, podem ser (e são) contratados em prestação de serviços, inclusivamente nos serviços onde fizeram as suas especialidades.

Acrescento que a remuneração horária paga em prestação de serviços, nomeadamente em urgência, é muito superior ao preço/hora de um especialista do quadro, mesmo no último grau da carreira. Para além disso, estes prestadores não precisam de garantir assiduidade, podem mostrar disponibilidade ou indisponibilidade permanentemente, não garantindo, por isso, previsibilidade no planeamento de escalas.

Também não têm que garantir períodos festivos, férias de outros colegas, feriados, fins-de-semana, etc. Não são responsáveis pelos doentes após as horas de prestação de serviços, ou seja, são depois os especialistas do quadro que asseguram a continuidade da atividade assistencial. Podem ou não fazer formação contínua; não são avaliados.

Qual é, portanto, o incentivo que se dá aos médicos que terminam a especialidade para fazerem parte de um serviço, quando podem ter uma remuneração muitíssimo superior, com muito menos horas de trabalho e sem as responsabilidades inerentes a um elemento do quadro hospitalar?

Qual é, portanto, o incentivo que se dá aos médicos que não entram no internato de especialidade, quando podem ter uma remuneração muitíssimo superior, com muito menos horas de trabalho, sem as responsabilidades inerentes a um elemento do quadro hospitalar?

Qual o sinal que se dá a quem, diariamente, assegura a assistência hospitalar, assegura as urgências com horas e horas extraordinárias, não pode fazer natais, páscoas, fins de ano, fins de semana alargados, etc., que investe na sua formação, que faz investigação, que assegura a formação dos internos de especialidade?

Não conheço o teor da legislação que se pretende aprovar em relação aos “tarefeiros”. Mas tenho a certeza que esta situação não pode continuar, que é preciso incentivar e premiar quem decide ter uma carreira, estudar, evoluir, formar, em vez de o fazer ao contrário: incentivar os jovens médicos indiferenciados a não investirem na sua formação contínua, e aos especialistas, mais ou menos jovens, a fazerem horas por vários hospitais, sem responsabilidades mas com ganhos muito superiores aos outros.

Por isso, espero que a legislação possa reverter esta injustíssima situação e que, quem quer trabalhar no SNS seja dignamente remunerado, sendo-lhe reconhecido o esforço e a competência. Espero que, finalmente, haja coragem política, pois é uma mudança muito difícil e que movimenta muitos interesses.

Quem defende o SNS não pode concordar com este estado de coisas. Isto é destruir o SNS, a formação médica, a melhoria contínua, a investigação, etc. É destruir a qualidade assistencial que, mesmo em tão duras condições, continua a ser a marca do SNS.

03 maio 2026

Pontos cardeais


Sim, este é dia das mães, de todas as mães, em todos os cantos do mundo.

Mas, para mim, é o dia da minha mãe.

 

Pelos seus dedos passam pontos

de linhas de lã pontos cardeais

com que sutura feridas e enternece

o nosso mundo.

Pequenos os pontos pequenos os nós

tão grande este mundo

onde já não cabemos.

26 abril 2026

A libertação pela ignorância


Cravo verde ao peito

a todos está bem

Cravo verde ao peito

a todos está bem

Mas a certo menino, olaré

melhor que a ninguém.

Mas a certo menino, olaré

melhor que a ninguém

A Miss Marple que há em mim

Acordei hoje com a notícia de mais um atentado a Trump de que ele, miraculosamente, mais uma vez, escapou.

Não é à toa que sou devoradora de policiais. E, confesso, que tantos atentados a Trump, tanta falha nos serviços de segurança que têm por missão defender o Presidente dos EUA, tantas coincidências relativamente ao timing dos atentados – a embrulhada da guerra do Irão, as trapalhadas relativas à construção do salão de baile na Casa Branca, o caso Epstein, a presença de Trump num jantar a que nunca, antes, tinha ido, estão a cutucar o meu natural e científico cepticismo.

Ou seja, esboça-se na minha tortuosa e malvada mente, uma teoria da conspiração...

Aguardemos o desenrolar da trama. 

Importante declaração: Acho o Trump uma desgraça para o mundo mas condeno qualquer tipo de violência, seja ela política ou qualquer outra.


Canta el reloj

Federico García Lorca

Cuento

maquinalmente las horas.

Es lo mismo

las siete que las doce

Yo - no estoy aquí.

Es la señal de carne

que yo dejé, al irme

para saber mi sitio

al regresar...

 

Poema de FedericoGarcía Lorca, manuscrito encontrado no verso da folha onde escreveu Gacela dela raíz amarga]

25 abril 2026

Há dias que se abrem assim

TSF

Então vou vestir de encarnado

Calçada regada de abril

Em marcha de passo embalado

O cravo como arma civil


É livre o corpo que canta

Vermelha a alma que ama

Na dor em que o medo agiganta

Acende-se o grito e a chama

 

Há dias que se abrem assim

Em brilho de puro cristal

Há vozes que são um jardim

E flores que são como um punhal

18 abril 2026

A alarve má educação

A ascensão de Trump ao poder levou a sociedade a aceitar como normal as maiores idiotices, violências, más educações e loucuras dos líderes de extrema direita.

O desbragar da linguagem, a transformação de todos os palcos mediáticos em espaços mal cheirosos, sujos e apenas frequentados por gente ignorante e mal educada, parece agora a norma.

Não se debate, insulta-se, grita-se e interrompe-se para não se deixar falar mais ninguém. A desvergonha, a triste figura que fazem e o exemplo dado só pode conduzir a uma sociedade intolerante, obscena, retrógrada, que elogia e se compraz com a ignorância.

Está o mundo de cabeça para baixo.

O que eu não entendo é a conivência dos órgãos de comunicação com este género de políticos, comentadores, especialistas de coisa nenhuma.

Não compreendo como é que, por exemplo, após a má educação de Rodrigo Taxa, deputado do Chega, não foi de imediato suspenso o programa. E ainda, para cúmulo, continua a ser convidado pela RTP!

Lembro-me de um (pseudo)debate com a Inês de Medeiros onde, quando esta fala de Flaubert e de uma frase a ele atribuída – Madame Bovary c’est moificou abespinhado e acusou Inês de Medeiros de tiques de intelectual de esquerda, exclamando – vem com a madame de Bauvoir, ou que é.

Enfim, para Rodrigo Taxa, Gustave Flaubert, Madame Bovary e Simone de Bauvoir são figuras totalmente desconhecidas. A satisfação alarve da ignorância.

A cidadania é da responsabilidade de todos. Se os órgãos de comunicação social, nomeadamente a RTP, pactuam com estes desmandos, é porque se demitiram do seu papel.

Pela estrada com podcasts


As longas viagens para o trabalho ensinaram-me a ouvir podcasts.

Há muitos, de temas e qualidades diversas. Tenho procurado os do Expresso, os do Público e outros de que vou ouvindo falar.

Um dos que mais gosto é o podcast 45º, de José Maria Pimentel. Os convidados são muito interessantes, das mais diversas áreas do conhecimento, e as entrevistas têm tempo para se desenvolver, sem atropelos nem interrupções constantes. O entrevistador - José Maria Pimentel - está sempre bem documentado, de forma a conduzir uma conversa fluida e inspiradora.

O último episódio que ouvi é de outubro do ano passado, com Cátia Batista, professora catedrática de Economia na Nova SBE e diretora científica do centro de investigação NOVAFRICA, sobre imigração e emigração. Fiquei a saber que os países de origem e de acolhimento têm ganhos muito positivos com este fenómeno, ao contrário do que podemos pensar. Desmonta mitos e desinformações de uma forma serena e com dados e estudos científicos.

Ouvi ainda um podcast com Ana Domingos, neurocientista e professora na Universidade de Oxford, sobre biologia, fisiologia e fisiopatologia da obesidade, interessantíssimo, com Maria João Afonso, professora aposentada de Psicologia na Universidade de Lisboa, sobre inteligência, e muitos outros.

A informação científica de qualidade existe e é tão fácil de encontrar. Não é preciso ouvirmos inanidades nem programas de e para indigentes.

16 abril 2026

Da casa sobra o teto

Turning the World Upside Down

Anish Kapoor


Começar a vida pela pintura

Terceira segunda demão

Primeira o branco do luto

As janelas são dispensáveis

Pois o sol procurou outras almas

Ao olhar o abismo

Algo de redentor aparece

14 abril 2026

A democracia precisa de ser defendida

 


Durante muito tempo achei que não se deveria dar palco a André Ventura e aos seus apaniguados. O que dizem é de tal forma idiota, mentiroso, manipulador, desonesto, etc, que qualquer pessoa com o mínimo de decência conspurcar-se-ia se se misturasse com essa gente.

O problema é que não resulta. Não é o desprezo e a consciência de que não é possível falar em níveis minimamente aceitáveis com esses fascistas que os faz desaparecer. Muito pelo contrário, essa minha crença, comungada por tantos outros, não se deu conta de que os deixámos a falar sozinhos, pois retirámo-nos da equação.

Ao assistir ontem ao frente a frente absolutamente inacreditável entre Pacheco Pereira e André Ventura, com vómitos, felizmente metafóricos, permanentes, que percebi que não poderíamos manter este distanciamento higiénico.

Ao contrário de tantos comentadores, que apelidaram Pacheco Pereira de ingénuo, espantando-se com o que o terá levado a fazer o repto que fez a André Ventura, só posso agradecer-lhe pela coragem de rolar na lama, na pocilga em que André Ventura transforma qualquer hipótese de conversa.

Temos de ir à luta, sim, custe o que custar, e não nos calarmos de nojo perante aqueles que avançam sem medo, que mentem sem vergonha, que distorcem, que caluniam, que insultam, que misturam e comparam o que não é miscível nem comparável.

Temos de estar sempre presentes, provocar-lhes a ira, provocar-lhes a fácil e rápida falta de educação, a ignorância contente, a empáfia dos alarves que se comprazem com o ódio e a crueldade.

Não é possível mantermos esta atitude de democratas tolerantes e condescendentes. Democratas e tolerantes perante opiniões sim, mas sempre irredutíveis no que diz respeito à negação daqueles que utilizam mentiras para desculpabilizar uma ditadura férrea, irascíveis na não aceitação de insultos a quem lutou toda a vida pela democracia e pela liberdade. Não é mais possível ignorar o desrespeito, a grosseria, o bulling deste grupo.

Hão de falar tanto, gritar tanto, espalhar lama por tanto lado e por tanta gente, que ela acabará por lhes cair em cima. Nunca devemos desistir de o mostrar, de os apelidar de mentirosos, ignorantes, racistas, xenófobos, mal educados, grosseiros, misóginos, corruptos, tudo o que, de facto, são.

Estes aprendizes de Trump não nos podem calar por falarem mais alto. A coragem é mesmo enfrentá-los. Não é mais possível suster a respiração e tentar olhar para o lado.

Pacheco Pereira fez o que todos devemos fazer – mostrar que não admite os epítetos que aquele beato mentiroso usou.

Não nos enganemos. A democracia precisa de ser defendida.

04 abril 2026

Páscoa

Salvador Dalí

Não estou tanto nem tão pouco

Do aqui do que fugi

Culpados os sonhos

Que não vivi

 

Não estou tanto de mim mas de ti

Se me quiseres em paralelo

Neste modelo

De mim

 

Não estou para qualquer morte

Nem para qualquer vida

Tão real e definida

Como a dor

Os 50 anos da Constituição da República Portuguesa


Ouço a gravação em arquivo da RTP, da Aprovação da Constituição da República Portuguesa e da Sessão Solene de Encerramento da Assembleia Constituinte, a 2 de abril de 1976.

É inevitável a comparação cm a cerimónia dos 50 anos deste dia, no Parlamento.

A degradação da palavra, da retórica, dos comportamentos, da tolerância, da democracia, são evidentes.

Bem sei que tudo muda e tudo mudou, mas nem sempre para melhor.

A democracia está sob ataque, como diz Pacheco Pereira, por dentro. Cabe-nos a nós não o permitirmos. Cabe-nos a nós defendê-la. Cabe-nos a nós não querer voltar atrás.

A liberdade tem de continuar a passar por aqui.

27 março 2026

Espaços

Rosário

Os espaços rearrumam-se misteriosamente

como se as peças de um puzzle mudo e desconexo

se movimentassem em aves noturnas e enternecidas.

Um casulo de janelas entreabertas

móveis onde o corpo se aconchega e encosta.

Se os espaços se moldam ao nosso mundo

faremos dos espaços o nosso mundo.

Talvez se aclare e esclareça.

Ser radical

Asa esquerda de um rolieiro azul

Albrecht Dürer

Há um enorme afã da nossa comunicação social em encontrar fissuras e desencontros no seio do PS. Não quer dizer que não os haja, mas, após as eleições presidenciais, em que todos louvaram a estabilidade prometida, muitos se apressam a tentar atiçar razões para que a instabilidade se instale.

Por outro lado, a sociedade deslocou-se tanto para a direita e para a extrema direita, que qualquer discurso que envolva a defesa de minorias, de direitos, liberdades e garantias, da dignidade no trabalho, da igualdade de géneros e, o que é ainda mais assustador, da ciência e da evidência sustentada em investigação científica comprovada e certificada, passou a ser apanágio dos radicais de esquerda.

É extraordinária a qualidade das propostas que são discutidas e aprovadas no Parlamento - desde a reversão da Lei n.º 38/2018 de 7 de agosto - "Direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa" -, à alteração das leis da nacionalidade - Lei do retorno - que agrava de 60 dias (2 meses) para 360 (1 ano) e mais 180 dias (6 meses), a possibilidade de detenção até ao efetivo retorno.

Multiplicam-se nas redes sociais os Reels de programas de entretenimento, em que os animadores/ entrevistadores perguntam a crianças muito pequenas e fofinhas o papel dos progenitores em casa - quem manda, quem faz a comida, quem ganha o dinheiro e quem o gasta, etc. Sub-repticiamente, e desde muito cedo, os papéis do pai e da mãe são impressos na cabeça das crianças - as mães dão de comer, gastam o dinheiro e mandam em casa, enquanto os pais trabalham para ganhar dinheiro, fazem em casa o que a mães lhes manda e queixam-se da comida.

Ou seja, ser radical de esquerda é defender as mais básicas noções de decência, de partilha, de respeito e igualdade de direitos, nomeadamente das mulheres, migrantes e comunidades em que as suas natureza nada influenciam os demais, mas que a fúria retrógrada e anticientífica dos reacionários de direita e extrema direita que nos governam assumem que são perigosos.

Se é a este posicionamento ideológico que a nossa comunicação social se refere, ao prever grandes fraturas no congresso do PS, pois espero que as haja, a bem da nossa higiene mental e saúde pública.

21 março 2026

Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste

 


Álvaro Feijó

por Maria Barroso

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro

do que tu - não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

 

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo.

 

Eu, Marco Pólo,

 

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

 

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

 

II

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

 

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.

Viver a vida


Há uns dias recebi um e-mail do Blogger, essa entidade que se rege por algoritmos e regras que ninguém sabe muito bem como foram e são feitas, essa entidade que decide se as mesmas são ou não seguidas, avisando-me que tinha removido o meu blogue porque "(...) O seu conteúdo violou a nossa política de Spam. Para saber mais, visite a página das regras da comunidade, cujo link se encontra neste e-mail. (...)"

O meu espanto foi total, tal como a minha indignação. Em primeiro lugar, quem e o quê tinha decidido tal coisa; em segundo lugar, que regras de spam eram essas.

Confesso que nem me dei ao trabalho de ir ver. Tudo isto me revolta e me assusta. Deixámos de ser censurados por homens para passarmos a ser censurados por máquinas. Estou demasiado ultrapassada para aceitar que isto é uma evolução benigna.

Depois de me ter passado a fúria, cliquei no link que me deixaram para pedir um "recurso". Tão espantosamente como o anterior, recebi o veredito por e-mail: "(...) Após a revisão, o blogue foi reposto. (...).

E aqui estou de novo, até à próxima apreciação, tão estúpida quanto esta, ou até eu própria remover o blogue.

Vem isto a propósito da necessidade que temos de controlar, "cancelar" (uma palavra muito em voga nestes tempos sombrios), criticar e uniformizar regras que, muitas das vezes, são absurdas e escapam ao entendimento, mas que seguimos acríticos. Deixámos de ter confiança na legislação, essa sim produzida por representantes da sociedade. Deixámos de ter tempo para, sequer, pensar.

Não ponho em dúvida a necessidade de regulação das redes sociais. Mas parece-me que isto não tem nada a ver com regulação.

Também em todos os aspetos da vida em sociedade a fúria normalizadora impõe-se, se não pela legislação, por meios de pressão a que agora se chama "bullying". Tudo o que se ache que não é aceitável é usado de forma a perseguir quem o faz ou defende, de tal forma que é mais seguro para a sua sanidade mental calar a revolta que persistir na sua opinião ou atuação.

Deixámos de ser autónomos em decidir como amar, como aceitar ou não o que a vida nos traz. Tudo nos é ensinado, desde como dividir tarefas em casa, se é que as devemos dividir, à forma como devemos partilhar as nossas emoções, anseios, dúvidas, fantasias, desejos.

O ser humano deixou de saber amar, deixou de saber quais as suas responsabilidades, o que lhe é ou não permitido sentir, o que lhe é ou não permitido contar, viver. Passámos dos livros de autoajuda para o ChatGPT (que é óptimo para me explicar como devo guardar o pão para que ele aguente dias quebradiço e macio).

Tudo isto é muito cansativo e redutor. Confesso que preferia mais erros e mais persistência, mais autocrítica e menos desresponsabilização, mais comunicação e solidariedade e menos pseudo-felicidade autoimposta. Menos egoísmo e mais respeito pelo que o outro é, pelo que possa sentir, e como a nossa pertença verdade absoluta o pode aniquilar.

Enfim, enquanto o blogger me deixar, vou mantendo este espaço onde rezingo. Não sou barbuda, mas vou-me assemelhando cada vez mais ao José Pacheco Pereira.

Também isso me assusta!

15 março 2026

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience

O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs.

Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo alguns maduros, e velhotes (como eu), insistem em escrever.

Bem sei que escrevo cada vez menos. Mas vou escrevendo. Porque insisto? Por que me faz bem.

Vou partilhando, agora, de novo, no Blogger.

Vamos caminhando.

01 março 2026

Apelo

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Sly as a Fox

Richard Clifton

 

Falta-me uma raposa de dentes finos e agudos

Olhos rasgados e cauda de fogo

Falta-me esse apelo agreste e selvagem

Para que me liberte

E procure o alimento nas estrelas sem saber

Do amanhã

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...