01 julho 2026

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz

É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente.

O mundo mudou com uma velocidade vertiginosa, ou fui eu que mudei. Tudo aquilo que me habituei a pensar e a sentir como certo, na forma de conviver, de cidadania, aquilo que sempre considerei como dever de humanidade, como a vivência do que de mais básico há no respeito, no carinho, na tolerância, na empatia, no compromisso com os outros, na defesa dos mais frágeis, na partilha, no amor ao próximo e à liberdade, aqueles preceitos das nossas sociedades ditas evoluídas de raiz judaico-cristã, está a desaparecer e a deixar de ser a matriz que nos enforma e conduz.

Neste momento, a política europeia, já não falando dos EUA, considera que os emigrantes e a emigração são um mal em si mesmos, ressuscitou os campos de detenção, o racismo e a xenofobia passaram a ser a norma.

Nunca houve tanta riqueza, mas também nunca esteve tão concentrada em tão poucas mãos. As evoluções tecnológicas, em vez de ajudarem precisamente à melhoria da qualidade de vida de todos, afunilam as nossas sociedades para guetos e bolsas de pobreza e exclusão.

A humanidade, na prática, deixou de ter direito à busca da felicidade, de melhores condições de vida. A humanidade, ou uma grande parte dela, está cada vez mais condenada à sua condição, dependendo de onde se nasce, da cor de pele, do credo de cada um.

Inventam-se fantasmas que alimentam o medo. E o medo é o melhor combustível para a desgraça e para a ignomínia. O ódio lançou-se e prolifera a céu aberto. A mentira é o argumento primário e definitivo.

Por isso, quando penso em escrever, desanimo. Tudo me cala e cada vez me sinto mais excluída e encolhida nas minhas certezas ultrapassadas.

Deve ser esta mais uma das ferramentas das ditaduras: a mudez perante o indizível.

20 junho 2026

Os pacotes


Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais ou menos popularuchos, para irem ao encontro da amálgama de cidadãos mais ou menos indiferenciados.

Os políticos têm de fazer de conta. De que são iguais aos outros, de que se interessam pelos temas dos outros, de que pensam e querem o mesmo que os outros, sendo os outros o povo, que (des)consideram se disso necessitarem, fazendo de conta que o amam.

O pacote laboral foi apresentado como essencial para a modernização do país, para a flexibilidade na contratualização do trabalho, para o aumento da produtividade e para a melhoria salarial, principalmente dos jovens.

Todo este pacote de justificações é repetido à exaustão pelos seus defensores, clamando pelo imobilismo e pelo atavismo de partidos como o PS, o PCP, o BE, etc., que não aceitam nada que possa alterar os direitos dos trabalhadores, que consideram ser inamovíveis e sagrados. Ouvir a rádio Observador, o que tenho feito ultimamente, é ouvir esta ladainha, dita por vozes histéricas e indignadas.

Curiosamente, ou não, nunca, mas mesmo nunca, ouvi explicar como é que este pacote laboral vai contribuir para tudo isso.

Se procurar opiniões, textos, declarações variadas de agentes políticos e económicos, este pacote conseguiria algum aumento de produtividade à custa da redução dos custos do trabalho - como é que isso melhora os mesmos, não se vislumbra. Ou seja, a receita é piorar a vida aos trabalhadores, aumentando a precariedade, aumentando as horas de trabalho sem remuneração, facilitando os despedimentos, abalhadores que, nomeadamente para Anselmo Crespo, são um anacronismo a descartar sempre que for possível.

A discussão parlamentar de quinta-feira, em que o discurso da ministra do Trabalho (Solidariedade e Segurança Social) Rosário Palma Ramalho foi ácido e triunfante, tal como o de Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, e da gritaria apocalíptica, mal educada e grosseira de André Ventura, foi um total fazer de conta. Sinceramente, não percebi ainda se o foi apenas de André Ventura, se também do PSD e do governo.


O desfecho da votação, qual passo doble ou magia negra, deixou o governo e sua ministra em péssimo estado, mesmo que o objetivo fosse a esperada vitimização, o PSD e o seu líder parlamentar com o gosto amargo da traição política, e o CHEGA escancaradamente a mostrar a sua natureza.

Será que André Ventura ainda consegue enganar alguém?

10 junho 2026

Mudanças

 


Las manos

Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear, simplificar, tornar funcionais os gestos e os móveis, arrumar livros e papéis.

As estantes já estão à minha volta, o que me dá uma sensação de paz e segurança estranhas. Na verdade estou rodeada de pessoas. Autores, personagens, lembranças, citações, críticas. Como se mantivesse as conversas que tínhamos, como se a casa permanecesse nossa.

Esvaziei a estante, arrastei-a para a sala, limpei-a do inevitável pó acumulado, escovei lombadas e folhas, bati nas capas para que se libertassem da sujidade. À medida que fui escolhendo, percebi que a minha vida tinha estado em suspenso por demasiado tempo.

Primeiro, porque as funções profissionais que desempenhei por mais de 4 anos eram tão exigentes e absorventes que tudo o mais desapareceu. E depois do indizível é como se o mundo fosse outro, como se a tristeza sugasse a inteligência, a emoção, a capacidade de pensar e memorizar.

Talvez por isso me saiba tão bem este pequeno tempo de apaziguamento, de reencontro com o que era antes, uma pessoa que estou a redescobrir. Os temas que me ocupavam a cabeça e a alma não mudaram muito. Fui revendo as minhas múltiplas obsessões, como o cristianismo e as suas variante e heresias, a definição e a descoberta da vida, a ciência, o bem e o mal, o compromisso social, os policiais, os clássicos, a poesia, a revolução, a política. E há tantos livros de que não me lembro ou que nem cheguei a ler. Outros que julguei perdidos nas inúmeras barafundas do quotidiano.

Recomecei a conduzir, já não fecho as portas todas atrás de mim, já consigo cumprir as agendas que invento, idas a concertos e a teatros, férias a sós, já faço refeições, já tenho prazer na companhia de amigos e familiares.

A névoa vai-se dissipando. Começa o calor e a brisa que me acaricia. É perfumada.

30 maio 2026

 


Aguardo.

A música varre o tempo

amena a brisa que consola.

Aguardo a voz

de quem se esconde

a terra aprisionada

a vida insatisfeita

condicionada

que tudo oferece às estacas

às feras aos casulos aos opacos.

Aguardo a voz

de quem se curva

de quem se anula

de quem se prende.

Aquele grito silencioso

de dignidade.

17 maio 2026

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com várias barraquinhas iluminadas. Estava linda a praça.

Tinha lá ido de manhã, com sol e frio. Fruta, muita, mas também flores, muitas. Cores e cheiros, artesãos vários, principalmente de cestos. Havia compotas, mel, cavacas, de tudo um pouco. Deambulei por lá, enchendo os olhos de feira e de luz. De cada vez que me aproximava de alguém, queria convencer-me a levar tudo. Nomeadamente uma árvore em vaso, de Kumquat (laranja anã)


Mas à noitinha a praça parecia cheia de pirilampos e o ar cheirava bem. Tinha o coração apertado, mas cheio. Ao aproximar-me vi uma bancada com uns objetos que pareciam pequenas árvores coloridas. Fui ver de perto e percebi que eram galos, feitos de paus e pinhas, berrantes, desconjuntados e espalhafatosos.


Falei com o artesão (João Rêgo), simpaticíssimo. Não resisti. Trouxe um galo para casa. Está junto dos livros, para cantar em verso.

O ar ocupado pela música



Beethoven Symphony No. 2in D major

Coa-se a luz nas cortinas

embrulhadas de saudade.

O teu rosto à janela

poema tão longo o nosso

como foi curto

o adeus.


Mozart Mass no. 15 in C major, K. 317 (Coronation Mass) 

A poesia nos puros sons de uma orquestra, o crepúsculo lentamente a serenar as almas. O ar ocupado pela música, no silêncio desta secreta e contínua mágoa.

16 maio 2026

Maria dos cacos


Maria dos Cacos era, na verdade, Maria Póstuma, o nome da primeira grande ceramista de Caldas da Rainha. Filha e neta de oleiros, nascida no séc. XVIII, vendeu as suas peças em várias feiras do país, não se limitando a Caldas da Rainha. Mulher numa profissão masculina, uma empresária sem medo.

Nada mais lógico que ficar no Hotel 19 Tile Ceramic Concept, mesmo em frente à Loja do Sapo, mesmo ao lado do restaurante Maria dos Cacos, que tem parceria com o hotel, servindo os pequenos almoços e outras refeições. Jantei lá ontem, muito bem, num ambiente sofisticado e muito agradável. O Hotel está bem localizado, no centro da cidade, a poucos passos da praça das frutas. O quarto é muito espaçoso, luminoso e modernaço.


Tão modernaço que foi um problema perceber como funcionava o chuveiro. O walking shower está separado da sanita que, por sua vez, está separada de tudo o resto. ou seja, há 3 compartimentos que, juntos, formam a casa de banho. As paredes negras dão-lhes um ar um pouco lúgubre.

Mas voltemos ao chuveiro. Depois de um gélido momento de água fria, de subir e descer (em vez de rodar, conforme as parcas e crípticas instruções à entrada do chuveiro) os manípulos (2) que se me ofereciam para orientar os duches de cima e móvel tal como a temperatura da água, resolvi ir primeiro tomar o pequeno almoço, para me revigorar, antes do banho que se queria.... revigorante.

Após esse momento de prazer matinal, não há ninguém na recepção para me esclarecer. Telefono para o telemóvel do hotel e afirmaram-me a pés juntos que era preciso esperar uns minutos e que tinham 3 caldeiras de água quente prontíssimas a funcionar.

Depois de largos minutos de água gelada a correr, resolvi rodar a torneira para a direita, embora me tenham afiançado que era para a esquerda. Milagre! A água aqueceu!

Rumei, então, bem banhada e perfumada, para a praça das frutas (e das flores).

Noturno

Fireflies on the water

Yayoi Kusama

Chama-se ao poema noturno

como se a noite tivesse rima

como se o poema fosse de estrelas

e geada. Na margem deste caminho

versos luminosos mas sem lume

projetam nessa noturna dor

pequenos pirilampos de esperança.

09 maio 2026

Skoda - o carro musical

Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado.

Sem perceber como nem porquê, este meu carro resolve aumentar o volume do rádio ou do Spotify quando lhe apetece, até gritar estupidamente. Se desligar o infotainment, ele liga-se sozinho.

Mas também o faz estando desligado e estacionado.

Outro dia parei o carro em frente à farmácia. Depois de comprar o que necessitava dirigi-me ao dito para regressar. Enquanto me aproximava comecei a ouvir barulho que vinha de dentro do carro, como se houvesse alguém a discutir lá dentro. Abri a porta e fui recebida pelo rádio em altos berros.

Nem sempre acontece. E não encontro nada que possa explicar tal comportamento. Já esteve no concessionário várias vezes e volta sempre na mesma.

Enfim, enquanto não resolver imitar o carro assassino, estou descansada!

08 maio 2026

O PRR e a Transição Digital na Saúde

Um dos grandes motivos de burnout dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é a luta diária com os sistemas informáticos, plataformas, softwares, impressoras, etc.

Com o advento das desmaterializações e da transformação de processos e procedimentos manuais e em papel para modelos digitais, o que é importantíssimo e saúdo vivamente, poderíamos pensar que tudo seria mais fácil, rápido e sereno. Pois não é o caso.

O problema é que não há verdadeira integração e comunicação entre as várias plataformas, a velocidade da internet não é a desejável e o hardware envolvido também não. Por outro lado, há cada vez mais tarefas assumidas por médicos que nada têm a ver com atividade médica, desperdiçando tempo, capacidades, paciência aos médicos e dinheiro dos contribuintes.

O PRR destinou 300 milhões de euros à Transição Digital na Saúde (TDS). Segundo o relatório de acompanhamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de 2026, publicado no site da Comissão Nacional de Acompanhamento (CNA) do PRR, a TDS (C01-i06) está…. concluída!

No entanto, no portal de informação Mais Transparência, a conclusão deste projeto deverá ser a 31/12/2026, tendo sido o valor já pago de 155,02 milhões de euros, ou seja, de 51,6% do total...


Por outro lado, no site da SPMS, no que diz respeito a informações e notícias sobre este tema, a data da última publicação é 04/06/2024!

Confesso a minha perplexidade e estranheza. A TDS já está completa, foram pagos cerca de 50% dos montantes totais e as últimas notícias datam de 2024.

A realidade diária também está perplexa - será uma realidade paralela?

Médicos tarefeiros - a necessidade de inverter a situação

 

ChatGpt

O mestrado integrado de Medicina tem a duração de 6 anos. Segue-se mais um ano, o Comum. Depois a Formação Específica que, dependendo da especialidade, estende-se por um período de 4 a 6 anos.

Ou seja, fazendo as contas, um médico especialista demora 11 a 13 anos a formar-se.

A Formação Específica obedece a critérios dispostos na Lei. Não é qualquer serviço em qualquer hospital que pode oferecer essa formação. Para tal, todos os anos é avaliada a capacidade formativa dos serviços, nomeadamente daqueles que se candidatam a ter internos.

O número de vagas de formação de especialistas é determinada pelo Ministério da Saúde / ACSS, não sem antes ter o parecer da Ordem dos Médicos.

Para fazer face à escassez de profissionais nos serviços de urgência, primeiro, e nos serviços de internamento hospitalares e em consultas externas, depois, principalmente a partir de 2010 – 2015, os contratos de prestação de serviços com médicos sem especialidade foi-se tornando prevalente nas organizações hospitalares. Escassez essa que se iniciou na contração de alunos de medicina e na contração de entrada em especialidade, iniciada nos anos de Leonor Beleza.

Até hoje, médicos que terminem o Ano Comum e não tenham entrado numa vaga de especialidade (lembro que nos últimos anos há sempre vagas de especialidade sem serem preenchidas) podem ser (e são) contratados como prestadores de serviço predominantemente em serviços de urgência.

Por outro lado, médicos que terminem com aproveitamento a sua especialidade, caso não queiram ocupar uma vaga nos concursos anuais para recém especialistas, podem ser (e são) contratados em prestação de serviços, inclusivamente nos serviços onde fizeram as suas especialidades.

Acrescento que a remuneração horária paga em prestação de serviços, nomeadamente em urgência, é muito superior ao preço/hora de um especialista do quadro, mesmo no último grau da carreira. Para além disso, estes prestadores não precisam de garantir assiduidade, podem mostrar disponibilidade ou indisponibilidade permanentemente, não garantindo, por isso, previsibilidade no planeamento de escalas.

Também não têm que garantir períodos festivos, férias de outros colegas, feriados, fins-de-semana, etc. Não são responsáveis pelos doentes após as horas de prestação de serviços, ou seja, são depois os especialistas do quadro que asseguram a continuidade da atividade assistencial. Podem ou não fazer formação contínua; não são avaliados.

Qual é, portanto, o incentivo que se dá aos médicos que terminam a especialidade para fazerem parte de um serviço, quando podem ter uma remuneração muitíssimo superior, com muito menos horas de trabalho e sem as responsabilidades inerentes a um elemento do quadro hospitalar?

Qual é, portanto, o incentivo que se dá aos médicos que não entram no internato de especialidade, quando podem ter uma remuneração muitíssimo superior, com muito menos horas de trabalho, sem as responsabilidades inerentes a um elemento do quadro hospitalar?

Qual o sinal que se dá a quem, diariamente, assegura a assistência hospitalar, assegura as urgências com horas e horas extraordinárias, não pode fazer natais, páscoas, fins de ano, fins de semana alargados, etc., que investe na sua formação, que faz investigação, que assegura a formação dos internos de especialidade?

Não conheço o teor da legislação que se pretende aprovar em relação aos “tarefeiros”. Mas tenho a certeza que esta situação não pode continuar, que é preciso incentivar e premiar quem decide ter uma carreira, estudar, evoluir, formar, em vez de o fazer ao contrário: incentivar os jovens médicos indiferenciados a não investirem na sua formação contínua, e aos especialistas, mais ou menos jovens, a fazerem horas por vários hospitais, sem responsabilidades mas com ganhos muito superiores aos outros.

Por isso, espero que a legislação possa reverter esta injustíssima situação e que, quem quer trabalhar no SNS seja dignamente remunerado, sendo-lhe reconhecido o esforço e a competência. Espero que, finalmente, haja coragem política, pois é uma mudança muito difícil e que movimenta muitos interesses.

Quem defende o SNS não pode concordar com este estado de coisas. Isto é destruir o SNS, a formação médica, a melhoria contínua, a investigação, etc. É destruir a qualidade assistencial que, mesmo em tão duras condições, continua a ser a marca do SNS.

03 maio 2026

Pontos cardeais


Sim, este é dia das mães, de todas as mães, em todos os cantos do mundo.

Mas, para mim, é o dia da minha mãe.

 

Pelos seus dedos passam pontos

de linhas de lã pontos cardeais

com que sutura feridas e enternece

o nosso mundo.

Pequenos os pontos pequenos os nós

tão grande este mundo

onde já não cabemos.

26 abril 2026

A libertação pela ignorância


Cravo verde ao peito

a todos está bem

Cravo verde ao peito

a todos está bem

Mas a certo menino, olaré

melhor que a ninguém.

Mas a certo menino, olaré

melhor que a ninguém

A Miss Marple que há em mim

Acordei hoje com a notícia de mais um atentado a Trump de que ele, miraculosamente, mais uma vez, escapou.

Não é à toa que sou devoradora de policiais. E, confesso, que tantos atentados a Trump, tanta falha nos serviços de segurança que têm por missão defender o Presidente dos EUA, tantas coincidências relativamente ao timing dos atentados – a embrulhada da guerra do Irão, as trapalhadas relativas à construção do salão de baile na Casa Branca, o caso Epstein, a presença de Trump num jantar a que nunca, antes, tinha ido, estão a cutucar o meu natural e científico cepticismo.

Ou seja, esboça-se na minha tortuosa e malvada mente, uma teoria da conspiração...

Aguardemos o desenrolar da trama. 

Importante declaração: Acho o Trump uma desgraça para o mundo mas condeno qualquer tipo de violência, seja ela política ou qualquer outra.


Canta el reloj

Federico García Lorca

Cuento

maquinalmente las horas.

Es lo mismo

las siete que las doce

Yo - no estoy aquí.

Es la señal de carne

que yo dejé, al irme

para saber mi sitio

al regresar...

 

Poema de FedericoGarcía Lorca, manuscrito encontrado no verso da folha onde escreveu Gacela dela raíz amarga]

25 abril 2026

Há dias que se abrem assim

TSF

Então vou vestir de encarnado

Calçada regada de abril

Em marcha de passo embalado

O cravo como arma civil


É livre o corpo que canta

Vermelha a alma que ama

Na dor em que o medo agiganta

Acende-se o grito e a chama

 

Há dias que se abrem assim

Em brilho de puro cristal

Há vozes que são um jardim

E flores que são como um punhal

18 abril 2026

A alarve má educação

A ascensão de Trump ao poder levou a sociedade a aceitar como normal as maiores idiotices, violências, más educações e loucuras dos líderes de extrema direita.

O desbragar da linguagem, a transformação de todos os palcos mediáticos em espaços mal cheirosos, sujos e apenas frequentados por gente ignorante e mal educada, parece agora a norma.

Não se debate, insulta-se, grita-se e interrompe-se para não se deixar falar mais ninguém. A desvergonha, a triste figura que fazem e o exemplo dado só pode conduzir a uma sociedade intolerante, obscena, retrógrada, que elogia e se compraz com a ignorância.

Está o mundo de cabeça para baixo.

O que eu não entendo é a conivência dos órgãos de comunicação com este género de políticos, comentadores, especialistas de coisa nenhuma.

Não compreendo como é que, por exemplo, após a má educação de Rodrigo Taxa, deputado do Chega, não foi de imediato suspenso o programa. E ainda, para cúmulo, continua a ser convidado pela RTP!

Lembro-me de um (pseudo)debate com a Inês de Medeiros onde, quando esta fala de Flaubert e de uma frase a ele atribuída – Madame Bovary c’est moificou abespinhado e acusou Inês de Medeiros de tiques de intelectual de esquerda, exclamando – vem com a madame de Bauvoir, ou que é.

Enfim, para Rodrigo Taxa, Gustave Flaubert, Madame Bovary e Simone de Bauvoir são figuras totalmente desconhecidas. A satisfação alarve da ignorância.

A cidadania é da responsabilidade de todos. Se os órgãos de comunicação social, nomeadamente a RTP, pactuam com estes desmandos, é porque se demitiram do seu papel.

Pela estrada com podcasts


As longas viagens para o trabalho ensinaram-me a ouvir podcasts.

Há muitos, de temas e qualidades diversas. Tenho procurado os do Expresso, os do Público e outros de que vou ouvindo falar.

Um dos que mais gosto é o podcast 45º, de José Maria Pimentel. Os convidados são muito interessantes, das mais diversas áreas do conhecimento, e as entrevistas têm tempo para se desenvolver, sem atropelos nem interrupções constantes. O entrevistador - José Maria Pimentel - está sempre bem documentado, de forma a conduzir uma conversa fluida e inspiradora.

O último episódio que ouvi é de outubro do ano passado, com Cátia Batista, professora catedrática de Economia na Nova SBE e diretora científica do centro de investigação NOVAFRICA, sobre imigração e emigração. Fiquei a saber que os países de origem e de acolhimento têm ganhos muito positivos com este fenómeno, ao contrário do que podemos pensar. Desmonta mitos e desinformações de uma forma serena e com dados e estudos científicos.

Ouvi ainda um podcast com Ana Domingos, neurocientista e professora na Universidade de Oxford, sobre biologia, fisiologia e fisiopatologia da obesidade, interessantíssimo, com Maria João Afonso, professora aposentada de Psicologia na Universidade de Lisboa, sobre inteligência, e muitos outros.

A informação científica de qualidade existe e é tão fácil de encontrar. Não é preciso ouvirmos inanidades nem programas de e para indigentes.

16 abril 2026

Da casa sobra o teto

Turning the World Upside Down

Anish Kapoor


Começar a vida pela pintura

Terceira segunda demão

Primeira o branco do luto

As janelas são dispensáveis

Pois o sol procurou outras almas

Ao olhar o abismo

Algo de redentor aparece

14 abril 2026

A democracia precisa de ser defendida

 


Durante muito tempo achei que não se deveria dar palco a André Ventura e aos seus apaniguados. O que dizem é de tal forma idiota, mentiroso, manipulador, desonesto, etc, que qualquer pessoa com o mínimo de decência conspurcar-se-ia se se misturasse com essa gente.

O problema é que não resulta. Não é o desprezo e a consciência de que não é possível falar em níveis minimamente aceitáveis com esses fascistas que os faz desaparecer. Muito pelo contrário, essa minha crença, comungada por tantos outros, não se deu conta de que os deixámos a falar sozinhos, pois retirámo-nos da equação.

Ao assistir ontem ao frente a frente absolutamente inacreditável entre Pacheco Pereira e André Ventura, com vómitos, felizmente metafóricos, permanentes, que percebi que não poderíamos manter este distanciamento higiénico.

Ao contrário de tantos comentadores, que apelidaram Pacheco Pereira de ingénuo, espantando-se com o que o terá levado a fazer o repto que fez a André Ventura, só posso agradecer-lhe pela coragem de rolar na lama, na pocilga em que André Ventura transforma qualquer hipótese de conversa.

Temos de ir à luta, sim, custe o que custar, e não nos calarmos de nojo perante aqueles que avançam sem medo, que mentem sem vergonha, que distorcem, que caluniam, que insultam, que misturam e comparam o que não é miscível nem comparável.

Temos de estar sempre presentes, provocar-lhes a ira, provocar-lhes a fácil e rápida falta de educação, a ignorância contente, a empáfia dos alarves que se comprazem com o ódio e a crueldade.

Não é possível mantermos esta atitude de democratas tolerantes e condescendentes. Democratas e tolerantes perante opiniões sim, mas sempre irredutíveis no que diz respeito à negação daqueles que utilizam mentiras para desculpabilizar uma ditadura férrea, irascíveis na não aceitação de insultos a quem lutou toda a vida pela democracia e pela liberdade. Não é mais possível ignorar o desrespeito, a grosseria, o bulling deste grupo.

Hão de falar tanto, gritar tanto, espalhar lama por tanto lado e por tanta gente, que ela acabará por lhes cair em cima. Nunca devemos desistir de o mostrar, de os apelidar de mentirosos, ignorantes, racistas, xenófobos, mal educados, grosseiros, misóginos, corruptos, tudo o que, de facto, são.

Estes aprendizes de Trump não nos podem calar por falarem mais alto. A coragem é mesmo enfrentá-los. Não é mais possível suster a respiração e tentar olhar para o lado.

Pacheco Pereira fez o que todos devemos fazer – mostrar que não admite os epítetos que aquele beato mentiroso usou.

Não nos enganemos. A democracia precisa de ser defendida.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...