Agosto ferve em lume brando o céu eléctrico em frenesim ameaça alarde de trovão. Arrasta-se a plebe pela casa pela cama pela rua pelo chumbo sob as cabeças cinzento sujo que nem a água chega para clarear.
A contabilidade toma conta da vida quanto custa andar que as solas dos sapatos também se gastam quanto custa telefonar que a conversa já estafa quanto custa a refeição que de fartura estamos parcos.
Contam-se moedas e cabeças carapaus e bocas medem-se alturas e pesos calculam-se passos quilómetros e horas ao minuto ou ao segundo pois o futuro não se conhece nem serve de norte.
Agosto marina a paciência de quem já não espera. Calam-se as vozes de dentro que nem vale a pena pensar. Sobrevivemos ao desgosto apenas sobra o mole descoser dos dias.
Reparei que foi escolhido para tema: “MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA”
ResponderEliminarEm 2003 o meu amigo Paulo Pedroso é preso e eu enviei-lhe para o E. P. L. - Estabelecimento Prisional de Lisboa – Penitenciária - uma longa carta.
Na minha carta eu aludia a várias pequenas “regras” ÍNTIMAS, PRIVADAS E PESSOAIS, para manter o TÓNUS NA PRISÃO.
Não as vou repetir, mas tudo girava em torno de uma ESTRATÉGIA: “IMPOR A SI PRÓPRIO REGRAS OUTRAS, QUE NÃO AS QUE O CARCEREIRO IMPÕE”.
E no detalhe exemplificava “SE O CARCEREIRO DITA QUE A ALVORADA É ÀS SETE HORAS DA MANHÃ, SERÁ IMPERATIVO SAIR DA CAMA ÀS 6 HORAS E MEIA, A NOSSA REGRA, E NÃO A REGRA DO CARCEREIRO”.
Em três entrevistas concedidas por Paulo Pedroso, quando saiu da prisão, aludiu à minha carta, dizendo ter recebido várias cartas e até um “MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA PRISÃO”.
Sempre na elegância, Paulo Pedroso identificava o autor da carta como “UM ENGENHEIRO MECÂNICO, VIVENDO NO PORTO, EX-PRESO POLÍTICO, CERCA DE TRINTA ANOS MAIS VELHO QUE ELE”.
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA
ACÁCIO LIMA
(enviado por email)
desculpe repetir comentário no mesmo post, mas só para dizer que vou adoptar o «manual de sobrevivência» de acácio lima no meu dia-a-dia... :) obrigada!
Eliminarsabe, espanta-me a quantidade de pessoas, que daqui desta pequena cidade do norte onde moro, passam neste momento férias em Punta Cana, Jamaica, República dominicana, cruzeiros pela Grécia em «barcos» com 7 andares... a crise não é para todos, pois não?
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