31 julho 2008

Alarme falso (1)

Podem descansar os espíritos mais inquietos. Afinal a exclusividade dos médicos para o SNS foi só uma ameaça que, pelos vistos, não será para cumprir. Podem respirar fundo o Bastonário, os representantes sindicais e o sector privado (como aqui se sugere). Como disse um comentador a um post meu anterior (o médico céptico): (…) o SNS beneficiou do trabalho de todos os médicos, os melhores e os piores, com base numa espécie de contrato não escrito - pagavam pouco, mas deixavam tempo suficiente para os médicos poderem complementar o ordenado na actividade privada. (…).


 


Ou seja: eu finjo que trabalho e tu finges que me pagas. Pelos vistos há muitos a quem este contrato não escrito é satisfatório. Para mim não e para os doentes e o estado também duvido que o seja.

30 julho 2008

Ler (4)

José luís Peixoto escreve por dentro das veias nodosas das mãos dos velhos, seguindo as rugas das faces dos velhos, colorindo de cores pardas as batas, os lenços, os fios brancos dos cabelos, alisando as enxadas, os machados, as águas revoltosas e frias, saboreando os pedaços de queijo e pão.


 


Pedaços da vida sem tempo, excelentes textos de um dos melhores escritores contemporâneos.


 




 (José Luís Peixoto - 2007)

Ler (3)

Na Barcelona da década de 80, um dentista envolve-se numa campanha eleitoral e conhece duas mulheres que lhe condicionarão a vida, a ideologia, a desilusão dos outros e dele próprio. É um romance desapiedado.


 


A vida social e política numa sociedade que se vai abrindo, o papel das mulheres ainda balançando entre a aparência de modernidade e a tradição machista, as associações de bairro, os padres operários e a SIDA, num texto despojado de emoção, com frases curtas, quase documentais, um pouco cru e cruel. Lê-se num ápice.


 



(Eduardo Mendoza - 2006)


 

Ler (2)

Mia Couto é um manipulador da palavra e da língua, que usa e reinventa à medida da sua enorme sensibilidade. Desde os nomes próprios das personagens às situações que vão fluindo, reais ou sonhadas, numa simbologia de afectos e poções, bruxarias e silogismos, burilando um conto dos que ouvimos lido à lareira, ou sussurrado junto à praia.


 


Não sei se é veneno de Deus ou remédio do Diabo, mas não conseguimos parar de o beber e ele entranha-se na pele.


 



(Mia Couto - 2008)

Ler (1)

Miguel Sousa Tavares escreve bem e Rio das Flores é um bom livro. Está bem escrito, lê-se de uma assentada, tem romance, história, aventura, guerra, liberdade e ditadura, espanholas, touradas, caça, discussões, Brasil e terra, a omnipresente terra, todos os condimentos para prender o leitor e contar uma história bem contada.


 


No entanto há alguns senãos neste livro: as personagens femininas estão pouco aprofundadas, particularmente a mãe de Diogo Ribera Flores (Maria da Glória), que parece ter sido esquecida e relembrada aos saltos, em excertos por vezes demasiado longos mas desgarrados do todo. Há um arrastar no desenvolvimento da história do amor de Diogo pelo Brasil, mas a decisão deste aí ficar, a compra da Fazenda e a seu enamoramento por Benedita é tirado a ferros, parecendo querer apressar o fim do livro.


 


Não sei avaliar as precisões históricas mas para quem é leigo tudo faz sentido e a narrativa de vários episódios da época são excelentes, talvez melhores que o enredo romanesco. De qualquer forma, é um bom livro para devorar em férias.


 



 (Miguel Sousa Tavares - 2007)

29 julho 2008

Aplauso

Tenho que aplaudir de pé a decisão do Ministério da Saúde impor a exclusividade aos médicos do SNS. Sempre pensei que a separação entre público e privado era essencial para melhorar a produtividade do sector público e rentabilizar as instalações e os meios técnicos.


 


Quanto ao papão da fuga de médicos do público para o privado, dos melhores como disse Carlos Santos, do SIM, pelo facto de se praticarem melhores salários no sector privado, gostaria que fossem esclarecidos alguns pontos:



  1. Qual a diferença entre a remuneração média praticada no sector público e no sector privado, para uma mesma categoria e um mesmo horário de trabalho, considerando o regime de trabalho com e sem exclusividade.

  2. Qual a forma de contratação de profissionais de saúde para o sector privado, de forma a assegurar que são os melhores a irem para o sector privado.

  3. Qual a informação de que os sindicatos dispõem sobre a opinião que os seus associados têm sobre exclusividade.


É importantíssimo que se faça uma remodelação das carreiras médicas, se bem que me parece que o sector privado não deve ficar de fora, à partida, das formações pré e pós graduadas. Penso que isso deve depender das condições que têm nos diversos serviços e na garantia de qualidade e de cumprimento dos programas aprovados pela OM.

27 julho 2008

Intermitências (2)

Afinal o bar não é de irlandeses mas sim de ingleses (perto de Cambridge). É claro que se impunha mudar para gin tónico.


 


A água está gelada, o sol queima e a areia teima em pegar-se ao corpo besuntado de protector solar, factor 50+, por causa da pele de lula e das alergias. Enfim, o santo sacrifício da praia.


 


Hoje estou numa esplanada de um hotel na qual tenho acesso livre à internet. A acompanhar um cantor com uma parafernália de sons e batuques, perigosamente parecido com o Tony Silva. Há pares que dançam.


 


Extraordinárias são as coisas idiotas que se inventam para gastar estupidamente dinheiro, como uma espécie de triciclos automáticos, onde se colocam as crianças, artilhadas com capacetes, cotoveleiras e joelheiras, ou uma espécie de veículo movido a 4 pedais, para pedalarem os papás com as criancinhas refasteladas à frente e atrás.


 


Penso que o sol amolece o cérebro.


 


A todos os que têm comentado agradeço e peço desculpa por não ter respondido. Espero ansiosamente pelo "apita o comboio".


 


Boas férias e bom trabalho.


 



(pintura de Harold Greenhill: Summer holiday 1950)

24 julho 2008

Intermitências (1)

Por estes dias estou pouco contactável, nas profundezas do mar e da areia sem rede disponível, tendo que beber vários vodkas laranja no bar dos irlandeses, para conseguir ver mails e blogues.


 


Uma boa cura de tecnologia. Pelo menos tenho lido que me farto.


 


Vou passando, sempre que puder.

21 julho 2008

Silêncio

 



(pintura de Joe Lima: Stillness in the Afternoon)


 


Respiro o silêncio

neste lugar sem fundo

sem fim.

Aguardo o vento

neste silêncio imenso

dentro de mim.

O deboche, segundo João César da Neves

(...) A profecia realizou-se. Em nome da modernidade caiu-se na pornografia em massa, na promoção do aborto, divórcio, deboche e perversão, no descalabro da educação, solidariedade e castidade, no horror da traição, solidão, depressão, suicídio.


 


A sociedade ocidental, no meio da prosperidade, debate-se com terríveis problemas, da sida ao insucesso escolar e à decadência populacional, que advêm desta suposta revolução sexual. (...)


 


 


Não consigo perceber o que é que tem a ver o uso da pílula com o insucesso escolar...

Estala o verniz

Podemos ser todos a favor dos pobres e dos oprimidos, da igualdade e da solidariedade, da partilha, do amor, da paz e de todos os sentimentos nobres de que nos lembrarmos, que constituem o verniz da civilização ocidental, estando ainda geneticamente incorporado em raros e excepcionais exemplares.


 


Mas o que temos presenciado, em exigências, vitimizações, manifestações e ultimatos de grupos, pertencentes a minorias étnicas, raças, religiões, corporações profissionais ou outras formas de associação de pessoas com traços comuns, físicos, culturais, laborais ou ideológicos, faz estalar o verniz a uma velocidade assustadora, deixando transparecer o fundo animal e troglodita da maioria da espécie.


 


Não é mais possível em nome dos valores universais de convívio e respeito sociais aguentar a arrogância de quem se pensa merecedor de direitos sem perceber que tem que cumprir deveres e aceitar responsabilidades.


 


Não é mais possível assistir impavidamente ao atropelo dos direitos de todos os outros cidadãos, da Quinta da Fonte e de todas as quintas, fontes, estradas, pousios, praias, ermos, casarios, condomínios privados, abrigos sociais ou hotéis de muitos dias e noites existentes por esse país fora, assistir à chantagem de algumas famílias de ciganos da Quinta da Fonte que, para além de ocuparem espaço público como se fosse sua propriedade, fazem ultimatos ao governo para que lhes dêem casas onde entenderem, ameaçando com concentrações nacionais.

19 julho 2008

A metamorfose das plantas dos pés


poema de Catarina Nunes de Almeida


A metamorfose das plantas dos pés


 


Um pedaço de pão na boca e mastigo os campos.

Reconheço a linha do meu ventre

céu folhas e lagos subterrâneos

sem nunca ter medido a sombra dos frutos.


Neste canteiro branco no meio de cobertores

o corpo tem o peso da tua semente.

18 julho 2008

Notável

Não se pode justificar tudo pela necessidade de pragmatismo. O nosso primeiro-ministro ofendeu as democracias com tão rasgados elogios a José Eduardo dos Santos e ao notável trabalho que tem feito.


 


Há limites para tudo.


 



 

Nelson Mandela


 


São raras as pessoas desta têmpera, que fazem de facto a diferença.


 


Parabéns, Nelson Mandela. É um privilégio ter assistido à sua libertação e ao fim do apartheid.

O contraditório

A somar aos pedidos de contraditório aos comentários políticos de Marcelo Rebelo de Sousa, agora juntam-se os pedidos de contraditório no que diz respeito à indignação pelos presos políticos.



De uma forma que me deixa indisposta, quem lê os posts de Vítor Dias só pode considerar-se limpo de consciência se, por cada refém das FARC que denunciar e pedir para ser libertado, associar a denúncia e o pedido de libertação de um sindicalista preso pelo regime encabeçado pelo Presidente Uribe.



Nesta contabilidade não sei quantos sindicalistas valem a liberdade de Ingrid Betancourt, ou quantos posts de indignação e solidariedade pelos comunistas presos na Colômbia se devem somar para justificar os posts que pediram a libertação de Ingrid Betancourt.



A condenação das FARC não implica a defesa das políticas praticadas pelo regime colombiano, nomeadamente a perseguição de sindicalistas, comunistas, jornalistas e outros, pela exposição e defesas das suas ideias, da corrupção e do narcotráfico.



Sei pouco do que se passa na Colômbia. Mas através do Human Rights Watch encontrei vários artigos, incluindo o relatório mundial de 2008, onde se fala de atentados aos direitos humanos por parte dos grupos paramilitares e terroristas, onde se inclui as FARC, e do próprio regime. Ninguém está inocente.



A indignação por quem sofre em regimes totalitários é universal, para os de direita e para os de esquerda, em todos os países em que tal sucede, sejam eles em que continente for. Mas o PCP e os seus porta-vozes, preferencialmente não se referem ou encontram sempre justificação para os atropelos à liberdade, quando praticados por quem o PCP aceita como seus companheiros, defendendo os trabalhadores e os democratas, como as FARC, nem que a justificação seja apenas a oposição a regimes que também atropelam os direitos humanos.



Ao contrário de Vítor Dias não contabilizo a minha solidariedade nem a minha revolta.

17 julho 2008

Explicações


 


Há algo que me escapa na estratégia da nova direcção do PSD. Não consigo compreender como é que um partido que pretende ser governo consegue defender que: O papel do PSD na oposição não é apresentar alternativas às propostas do Governo, mas sim fiscalizá-lo.


 


Como é que é possível levar alguém a sério (a tão famosa credibilidade) quando Manuela Ferreira Leite, sem se rir e a propósito do relatório do Banco de Portugal, questiona: “Não há medidas até lá? Não há nada susceptível de ser feito para melhorar esta situação? Já lançaram os braços abaixo, já acham que 2009 é pior que 2008?


 


Mas o mais espantoso é esta afirmação: Parece-me um Governo que lançou os braços abaixo, que está esgotado, que não tem ideias e sabe muito bem governar em situação de grande prosperidade e fica absolutamente desorientado quando se entra numa situação de crise."


 


Será que Manuela Ferreira Leite considera que o estado em que o partido dela deixou o país, em 2005, foi de grande prosperidade?


 


Onde estão Pacheco Pereira, Paulo Rangel, Aguiar Branco e todos os outros? Preciso urgentemente que me expliquem o que Manuela Ferreira Leite quer dizer, porque eu não devo ter percebido.

16 julho 2008

A Criança em Ruínas


poema de José Luís Peixoto:


A Criança em Ruínas


pintura de Amy Ross: Cow Birch with Barred Owls


 


tenho aquela que me olha e que olho


e misturamo-nos como brisas e


silêncios e digo tenho aquela que


me vê e ela olha-me e tudo o


que somos é uma partilha uma


mistura e digo diz e aquela que


tenho beija-me num olhar e num


silêncio que não posso dizer

"Sound Bites"

Não sei se Vítor Constâncio falou na alternativa nuclear propositadamente para desviar as atenções dos media de tudo o resto que demorou 4 horas a explicar aos nossos Deputados, na Assembleia da República. Mas se não foi uma manobra dele, ou de quem quer distrair as pessoas dos problemas da governação e da oposição à governação, parece.


 


A TSF, no seu estilo muito próprio, abriu hoje as hostilidades com notícias sobre quem está contra e a favor da opção nuclear, com o Forum TSF sobre esse assunto.


 


Assim se faz a opinião pública.

15 julho 2008

Revisões em baixa

Vítor Constâncio foi à Assembleia da República dizer o que se esperava, foi mesmo pior do que já se esperava. Que a economia vai crescer menos, que a inflação e o desemprego vão crescer mais. Também disse que se devem continuar as reformas estruturais e o controlo do défice, que não se devem baixar os impostos, que há dinheiro para os investimentos anunciados pelo governo, que se deve ponderar todas as hipóteses alternativas ao petróleo, nomeadamente a energia nuclear.


 


Ao contrário de algumas leituras, o Governador do Banco de Portugal deu força ao que foi feito pelo governo e disse mesmo que deveria ter feito mais e deve continuar a fazer. Disse ainda que se não fosse a crise internacional que a consolidação da economia seria mais convergente com a média europeia.


 


O governo não vai cumprir todas as suas promessas. As reformas ainda estão a meio, o desemprego aumenta, por muitos postos de trabalho novos que tenham sido criados, há um desencanto e uma desmotivação naqueles que têm mais dificuldades económicas, pois não vêm uma luz ao fundo do túnel. Mas a verdade é que, na sondagem mais recente efectuada pela Universidade Católica, demonstra-se que não há percepção de uma alternativa credível a este governo, e que as pessoas têm a noção de que Sócrates e os seus ministros fizeram mais e melhor que os governos de Guterres, Durão Barroso e Santana Lopes.


 


Não sei qual é a solução para este estado de coisas. Mas que as reformas no SNS, na educação, na administração pública e na justiça são cruciais para o desenvolvimento do país parece-me uma evidência. Que a existência de serviços públicos de qualidade são a melhor forma de igualar as oportunidades de todos os cidadãos a uma vida melhor, parece-me inquestionável. Que a aposta nos serviços públicos tem que ser feita com o combate ao desperdício e a reorganização dos serviços, para que se sirva a população e não as corporações profissionais, parece-me indiscutível.


 


É uma questão de atitude, de mudança de atitude de todos nós.


 


Nota: Não percebo porque é que a SIC convida Bagão Félix para comentar este relatório e o governo; qual a credibilidade dele? Mas há uma coisa em que tem razão: o debate da nação deveria ter sido feito após a saída do relatório do Banco de Portugal. Foi uma atitude pouco séria de Sócrates e de desprezo pelo Parlamento.


 



 

14 julho 2008

Na selva

Ingrid Betancourt está em liberdade há 12 dias. Desde a sua libertação e a dos outros reféns, tem sido filmada, entrevistada, condecorada, numa corrida desenfreada de aproveitamentos vários da sua figura como política que era e política que é, pelo Presidente da França, pelo Presidente da Colômbia, pelo Presidente dos EU, por Hugo Chavez, por Zapatero, por todos e por ela própria.


 


Há já quem critique este frenesim, mas a verdade é que é um excelente momento para promover a libertação dos que ainda estão sequestrados, não deixando morrer o assunto, até porque os políticos que deram visibilidade à causa estão também a recolher os dividendos dessa libertação.


 


Em todas as entrevistas lhe perguntam se foi torturada, abusada, tentando exposições e confissões que alimentarão o horror de uns, o escândalo de outros.


 


Ingrid Betancourt disse, numa das suas entrevistas, ou em várias, que aprendeu que todos nos podemos transformar em animais, portar como animais, se formos tratados como animais. Uma lição que o ser humano não aprende nunca e que apenas experimenta quando passa por situações em que se deixa submergir pelo melhor, mas sobretudo pelo pior que tem dentro de si.


 


Os conflitos, as maldades, as raivas, as cumplicidades, os ódios, os actos de heroísmo e cobardia, a crueldade ou a total entrega, tudo deve ter acontecido naquela selva, entre companheiros de infortúnio e rebeldes, como em todas as selvas em que se luta pela sobrevivência.


 


O afastamento entre Ingrid Betancourt e Clara Rojas poderá ser o resultado de circunstâncias terríveis que terão envolvido o nascimento do filho da segunda em pleno cativeiro. Seria seguramente melhor para ambas que o resolvessem entre elas, se é que é possível resolver alguma coisa, do que trocarem acusações públicas.


 


A exaustão não é boa conselheira. Falta o tempo, a calma e a recuperação daquilo que pode ser a decência e a dignidade que existe no facto de estar livre, processar o que se passou e tentar recomeçar a viver.

ops!

É preciso discutir a esquerda de hoje, os seus objectivos, os seus destinos, as suas práticas.


 


Esta é uma excelente contribuição e uma oportunidade para expor e confrontar ideias. O desemprego, o trabalho e o sindicalismo, neste 1º número de ops!, uma iniciativa da Corrente de Opinião Socialista.


 


(…) Todos somos responsáveis pelo nosso mundo e pelo nosso país. Chegou a hora de resistir ao condicionalismo e à colonização ideológica. A hora de sermos nós próprios e de propormos soluções que se baseiem nos valores e não nos interesses que confiscaram o Estado e minam a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas. Hora de resistir, de debater e de assumir e divulgar a nossa opinião socialista. – Manuel Alegre (Editorial)


 


13 julho 2008

Ondas


(pintura de Kelsey Bates: up the mast)


 


Dos dias que hão-de vir

lisos suaves meridionais

seremos moradores

das ondas

incondicionais

apreciadores

do prazer.

12 julho 2008

Wonderful Tonight


(Eric Clapton: wonderful tonight


 


It's late in the evening; she's wondering what clothes to wear.

She puts on her make-up and brushes her long blonde hair.

And then she asks me, "Do I look all right?"

And I say, "Yes, you look wonderful tonight."


 


We go to a party and everyone turns to see

This beautiful lady that's walking around with me.

And then she asks me, "Do you feel all right?"

And I say, "Yes, I feel wonderful tonight."


 


I feel wonderful because I see

The love light in your eyes.

And the wonder of it all

Is that you just don't realize how much I love you.


 


It's time to go home now and I've got an aching head,

So I give her the car keys and she helps me to bed.

And then I tell her, as I turn out the light,

I say, "My darling, you were wonderful tonight.

Oh my darling, you were wonderful tonight."

09 julho 2008

Acuarela


(poema de Amalia Bautista; Roto Madrid)


 


Me asomo a la ventana en la noche sin ti

y enfrente de mis ojos está el mar,

aunque yo no lo vea.

El mar que hace unas horas era verde esmeralda,

y azul cobalto, y gris como la plata,

y hasta violeta era.

Y ya no está porque yo no lo veo.

Ya no es más que una inmensa mancha negra

enfrente de mis ojos

en la noche sin ti.

07 julho 2008

Público - o pasquim*

*Pasquim - do It. Pasquino - sátira afixada em lugar público ou posta em circulação clandestinamente; jornal ou folheto que difama (Priberam – dicionário online)


 



 


 


É difícil ser-se mais sectário, mentiroso e manipulador do que o Público. O rigor e a seriedade são só para exigir ao governo e aos ministros.


 


Na sua cruzada contra a Ministra da Educação, o Público pubicou, no sábado, na primeira página, os resultados dos exames nacionais do 12º ano de Matemática A, com os valores comparativos entre os anos de 2004 e 2008, realçando a enorme subida das médias, acabando com uns retumbantes 140 pontos, ou 14 valores, contrastando com os piores resultados deste ano da disciplina de Português A, que teve uma média de 97 pontos (9,7 valores), enquanto tinha havido uma média de 108 pontos (10,8 valores) em 2007.


 


Para quem se dá ao trabalho de ir ver as tabelas publicadas no site do ministério depara-se com o seguinte:



  1. Os valores usados pelo Público quando se refere a Matemática A, são os valores atingidos pelos alunos internos, enquanto que os valores que o mesmo jornal usa na mesma notícia a propósito da disciplina de Português A já são os correspondntes à média do total dos alunos, internos e externos.

  2. Se usarmos os valores de médias da totalidade dos alunos que foram a exame, descobrimos que: (...) Apesar do decréscimo na média da Matemática Aplicada às Ciências Sociais (passa de 11,3 valores para 9,6 valores), regista-se uma melhoria global de resultados, em particular na Matemática A (cuja média passa de 9,4 valores para 12,5 valores) e na Matemática B (cuja média passa de 7,5 valores para 11,4 valores), tendo diminuído a percentagem de reprovações. (...)

  3. E descobrimos ainda que, em relação especificamente ao Português: (...) Regista-se um decréscimo nos resultados do exame de Português (cuja média passa de 10,8 para 9,7), aumentando ligeiramente o número de reprovações na disciplina, que passa de 5 por cento para 8 por cento, não obstante o acréscimo de tempo para a realização da prova. (...)

  4. Por outro lado, nada é dito nem analisado sobre a eventual relação entre um mais elevado número de alunos que vai a exame e um menor valor médio alcançado. Se houver menos alunos a serem admitidos, porque entretanto foram retidos, os resultados tendem a ser melhores, ou não?


Vale a pena ver as tabelas e os resultados e analisarmos tudo pela nossa cabeça. Isto não é jornalismo, é manipulação política descarada e desavergonhada.

06 julho 2008

Manobras oposicionistas

À falta de uma estratégia política que se perceba ganhadora, sem opções claras nem alternativas, com a percepção dos vários intérpretes de Manuela Ferreira Leite de que a mensagem de credibilidade está em perigo, pela falta evidente de outra coisa que não a ideia-ordem do país não ter dinheiro para nada e que é preciso acabar com as obras públicas, os opositores de direita ao governo, leia-se o Público e o PSD, estão a delinear outra manobra.


 


É assim que hoje o Público arranca com a notícia do azedume entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro motivado, vejam bem, pelo facto de Cavaco Silva estar contra as obras faraónicas prometidas pelo governo. Há inúmeras interpretações sobre frases ditas pelo Presidente, recados dados a Sócrates ao longo da semana, quanto ao endividamento público e à falta de apresentação dos custos das tais obras.


 


Acredito cada vez menos no que dizem os jornais, muito menos no Público. Mas se isto é verdade é uma triste notícia para todos: para Cavaco Silva pela intolerável ingerência na acção governativa e pela sombra protectora a Manuela Ferreira Leite, para o governo que vai ter o maior partido da oposição liderado por Belém, para Manuela Ferreira Leite porque nunca mais ninguém a olhará como uma líder política autónoma, dependendo das asas presidenciais.


 


Entretanto, não sei porquê, Marcelo Rebelo de Sousa insiste na ideia do Bloco Central.


 


Alguém pediu coerência no PSD?

Revoltante


 


O fascínio que me causam as pessoas que são capazes de lutar e de arriscar tudo por uma causa, por aquilo em que acreditam, sem olhar ao sacrifício que se impõem e sem olhar ao sacrifício que, indirectamente, impõem aos que as amam, é enorme.


 


Ingrid Betancourt é uma dessas pessoas. Assisti emocionada à alegria da sua libertação, à sua chegada, às suas lágrimas, às suas manifestações de ternura para com todos, aos abraços e beijos, à sua total entrega à renovação da liberdade.


 


Não faço ideia daquilo por que terá passado, a falta de condições higiénicas e de salubridade mínimas, de sono descansado, de medicamentos, de intimidade, de privacidade, de comida e, sobretudo e acima de tudo, de liberdade, de toque humano, da mãe, dos filhos, do marido, dos companheiros, a constante luta pela sobrevivência, as depressões, os guardas, os companheiros de infortúnio em quem se terá apoiado.


 


Apenas posso imaginar os insectos, as pedras, o sol abrasador, o frio da noite, a humidade, a porcaria, os cheiros, o corpo que tropeça, as correntes, as algemas e as cordas, os risos, os olhares que a viam despida, doente, incoerente, necessitada, desesperada, a rezar, a gritar ou a chorar. Provavelmente a realidade ultrapassou, em muito, a minha ficção.


 


Ela e todos os que antes, ao mesmo tempo e depois dela, na Colômbia ou noutro lugar qualquer, são vítimas de ladrões, terroristas, traficantes de droga, ou de armas, ou de mulheres, ou de crianças, ou seja lá do que for, sob capas de movimentos políticos defendendo direitos humanos e democracias, que usam e submetem populações a regimes de terror e intimidação para colaborarem, apresentando-se como seus libertadores.


 


É inaceitável que o facto de Álvaro Uribe ter ligações ao narcotráfico e dirigir um regime pouco recomendável sirva como justificação à existência e à actuação das FARC. As posições conhecidas e as explicações do PCP como partido político e de alguns comentadores, em defesa implícita ou explícita das FARC, que até se espantam por Ingrid Betancourt não estar a morrer, são incompreensíveis e demonstram uma cegueira e um preconceito que os isola cada vez mais do mundo real.


 


A ligação entre as FARC, o narcotráfico e políticos como Hugo Chavez, provada por descobertas feitas aquando da apreensão de um computador de um dos líderes das FARC, não os comove. No entanto, as teorias da conspiração à volta da operação que libertou Ingrid Betancourt e outros reféns pululam.


 


Se foram israelitas, americanos, colombianos ou franceses, se subornaram combatentes revolucionários ou se infiltraram a organização, o que interessa é que o fizeram sem disparar uma única bala. Ou de que é que desconfiam? Que Ingrid Betancourt e os seus companheiros estiveram em cativeiro a representar uma farsa, para darem trunfos a Álvaro Uribe?


 


Qual a credibilidade do PCP, neste momento, em que enche a boca com a defesa das conquistas de Abril e das classes trabalhadoras? Qual o crime de Ingrid Betancourt e dos seus companheiros de sequestro?


 


É revoltante.

05 julho 2008

Na casa crua


(pintura de Barbara Wagner: Tracks and Traces #6)

 


 


Na casa crua

arrumo as lembranças

penteio momentos

escondo o corpo

caminho lentamente entre vozes

ecos de um passado

que sonhei.


 


Na casa crua

espero pelos dedos vagarosos

que ambos tocaremos na penumbra

por entre os longos braços

da saudade

saberemos o amor

que nos procura.

Ain't no Mountain High Enough


(Marvin Gaye, Tammi Terrel: Ain't no Mountain High Enough


 


Listen, baby

Ain't no mountain high

Ain't no vally low

Ain't no river wide enough, baby


 


If you need me, call me

No matter where you are

No matter how far

Just call my name

I'll be there in a hurry

You don't have to worry


 


'Cause baby,


There ain't no mountain high enough

Ain't no valley low enough

Ain't no river wide enough

To keep me from getting to you


 


Remember the day

I set you free

I told you

You could always count on me

From that day on I made a vow

I'll be there when you want me

Some way,some how


 


'Cause baby,

There ain't no mountain high enough

Ain't no valley low enough

Ain't no river wide enough

To keep me from getting to you


 


No wind, no rain


My love is alive

Way down in my heart

Although we are miles apart

If you ever need a helping hand

I'll be there on the double

As fast as I can


 


Don't you know that

There ain't no mountain high enough

Ain't no valley low enough

Ain't no river wide enough

To keep me from getting to you


 


Don't you know that

There ain't no mountain high enough

Ain't no valley low enough

Ain't no river wide enough

Receitas para alienar

Há pessoas inspiradoras em várias áreas e nos inspiram um respeito e um carinho que nem sabemos descrever, pela força e pela alegria que têm.


 


Para quem puder, não perca as Tertúlias animadas por esta Gata. Estejam atentos!


 



 

Fase de negação


 


Não sei se sou eu, se o tempo, se as circunstâncias, ou se tudo ao mesmo tempo.


 


O PSD diz-nos que estamos falidos e não temos solução; o primeiro-ministro diz que estamos com dificuldades mas que tem ânimo e determinação e que o ânimo e a determinação vencem as crises de dentro e de fora.


 


A fé move montanhas, sempre se ouve dizer quando não há nenhuma outra alternativa credível para as mover. Temos que ter fé no primeiro-ministro, porque ele tem ânimo e é determinado, na ministra da educação porque em dois anos conseguiu transformar a disciplina de Matemática num êxito retumbante; na ministra da saúde porque é agora que a esquerda vai salvar o SNS das garras do pérfido Correia de Campos, que ainda vamos descobrir era um agente infiltrado das forças mais reaccionárias e conservadoras da nossa sociedade civil, no ministro da economia que se dá ao trabalho de inspeccionar hipermercados, enfim, fé nos nossos governantes.


 


Mas também temos que ter fé no Pacheco Pereira e no Aguiar Branco, quando tão amavelmente nos explicam o pensamento e as omissões da Dra. Manuela Ferreira Leite, as certezas da Sociedade Portuguesa de Matemática e de todos os que acham que quanto mais chumbos, ou seja mais rigor e exigência, mais sabem os alunos, nos elementos do Bloco de Esquerda que são, eles próprios, ministros de fé, em Jerónimo de Sousa que acha que as FARC são um exército de libertação dos oprimidos e que Ingrid Betancourt esteve retida, quem sabe até secretamente satisfeita por tão honroso acampamento de férias de quase 7 anos, e que propõe subida de ordenados, congelamento de preços, redução de impostos, e que só falta distribuir gratuitamente alguma pílula de sorriso perpétuo para nos relaxar.


 


Mas eu sempre fui mulher de pouca fé. Não acredito nas parangonas dos jornais, desconfio dos relatórios dos observatórios, dos relatórios do governo e dos relatórios dos partidos, em ralação à saúde, à educação, à economia, a tudo, não aguento mais ouvir Medina Carreira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Maria Filomena Mónica, Francisco Louçã, Pacheco Pereira, e outros cavaleiros do apocalipse.


 


Estou portanto em fase de pairar e de tentar mudar de canal sempre que começo a ouvir algo que me desgosta, de mudar as páginas dos jornais ou mesmo de nem os comprar.


 


Estou em franca fase de negação. O problema é que nem sei bem do quê.

02 julho 2008

Libertada


 


Finalmente libertaram Ingrid Betancourt!


 


(tomei conhecimento aqui)

Entrevista a José Sócrates

José Sócrates safou-se bastante bem. Está em campanha eleitoral, explicou os problemas da crise internacional, soube introduzir as alterações e as benesses que vai distribuir agora. Foi contido, incisivo, pragmático e pragmático.


 


Respondeu bem às obras públicas, nomeadamente ao TGV, ao aeroporto (que foi um enorme imbróglio), às barragens e às auto-estradas, respondeu bem ao discurso derrotista e populista da crise e do drama. Respondeu menos bem à crise dos camionistas e à forma como tem reagido às contestações sociais.


 


O estudo de uma sobretaxa às mais valias das petrolíferas, o aumento das deduções das taxas de juro à habitação e a alteração do IMI, foram um enorme golpe para calar o BE e o PCP. A leitura das propostas do PCP foi mortal para este. Mas Sócrates não precisa de matar o PCP, ele próprio o faz continuamente.


 


Cinquenta vezes Sócrates em vez de uma só Manuela Ferreira Leite.

01 julho 2008

Entrevista a Manuela Ferreira Leite

Ou seja, a Dra. Manuela Ferreira Leite considera que não faz ideia nenhuma dos encargos dos vários investimentos públicos que o governo vai fazer, mesmo tendo estado em governos que decidiram esses mesmos investimentos públicos, alguns em compromisso com outros países e com co-financiamento da UE, coisa a que não respondeu, o que vai fazer ao tal dinheiro de Bruxelas.


 


Também acha que o país, que atingiu o valor mais baixo de défice dos últimos anos, ao contrário do que aconteceu quando foi Ministra das Finanças, que o país está mais endividado do que nunca. Estaria a referir-se às famílias, ao Estado?


 


Quanto à redução do défice, afinal as contas públicas já não são prioritárias. Só no tempo dela é que eram, embora não o tenha conseguido fazer.


 


Enfim, os pobres podem ficar descansados, os velhos pobres e os novos pobres, porque a Dra. Manuela Ferreira Leite, que dá o dito por não dito em tudo, vai agora em socorro da emergência social, que ela sabe, e todos nós sabemos que existe, embora não haja estudos, o que é uma pena, e embora os relatórios sobre a pobreza não digam exactamente isso.


 


Todos devem ter acesso ao SNS mas quem pode deve pagar mais do que quem não pode. Como é que isso se faz? Divide-se a classe média, não sei para quê, porque não explicou. Afirma peremptória que Correia de Campos tinha razão nos seus objectivos (lembremo-nos que Correia de Campos sempre defendeu a redução do desperdício, a racionalização dos custos mas, e acima de tudo, a universalidade do SNS), mas não tinha razão na forma, porque fechou serviços onde não havia alternativas.


 


A Dra. Manuela Ferreira Leite quer ganhar as eleições com maioria absoluta. É contra o bloco central – concordamos numa coisa!


 


Quem não gostava do populismo a Santana Lopes e de Luís Filipe Menezes é capaz de gostar um pouco mais deste. Enfim, sempre é uma mulher na política, que fica tão bem nesta nossa sociedade tão machista!

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