29 maio 2007

Pandemia

Seguramente, embora ainda não identificado, há um vírus extremamente perigoso, com latência variável, que infecta todos os que ocupam lugares de poder.

Os sintomas são variados mas conduzem sempre ao mesmo desfecho: autoritarismo crónico intenso, tentativa de controlo dos subordinados, desconfiança, suspeição e autismo.

Não se conhece vacina nem cura e a terapêutica sintomática é, habitualmente, rejeitada pelos doentes que não reconhecem a própria enfermidade.

Sugere-se a formação de equipas multidisciplinares de forma a desenvolver estudos científicos que possibilitem a descoberta de uma vacina minimamente eficaz.

A única arma é a prevenção: nunca assumir a direcção ou a condução de quaiquer processos, por muito inócuos que pareçam, nem que seja a escolha do local de encontro de amigos, para o habitual almoço psicanalítico!

27 maio 2007

Blogues com tomates


Bom, de facto, embora ligeiramente espantada com esta distinção, como dizer, tão vegetal, não posso deixar de agradecer ao J.F. por tão gentil (?) nomeação!

E, tal como ele, aqui publicito as minhas cinco nomeações:

A duas mãos

Inventar um sorriso
à distância de um segredo
desenhar o amor
à sombra de um degredo
abrir as cortinas
derrubar o muro
apagar o medo.

(poema de Ana)



Sal e sangue
nos dias do paraíso
são nossos os braços em cruz
com que erguemos o muro.

Sal e sangue
nos dias em que é preciso
moldarmos pedras e ventos
com que enfrentamos o mundo.


(pintura de Nereida García Ferraz: De Semillas)

26 maio 2007

Supor

Supor felicidade
à distância de um sorriso
supor amor
à distância das palavras
supor dias seguros
à distância dos dedos.

Abrem-se neblinas
sinais de gozo
gotas de sol transparente.
Mas persistem cortinas
e medos
muros desenhados
e secretos.


(pintura de
Arnaud Juncker: terres lointaines)

Maiorias absolutas

Talvez por conflito intrínseco com tudo o que me pareça autoritarismo, sempre desconfiei das maiorias absolutas, principalmente desde as do PSD, conseguidas por Cavaco Silva.

Por um lado as maiorias absolutas facilitam a implementação das medidas preconizadas pelo partido ou coligações no poder, com a responsabilização directa, pelos cidadãos, da sua actividade governativa, e o respectivo julgamento eleitoral.

Por outro lado, e não sei se por fado português ou se por fado dos seres humanos, mas acredito que mais por este último, as maiorias absolutas tendem a transformar-se em absolutismo, autoritarismo, bajulação dos chefes e abuso do poder, principalmente pelas chefias intermédias que usam a confiança política que têm ou pensam ter para calarem quaisquer vozes discordantes ou incómodas.

Instala-se em todo o lado um clima subliminar de intimidação e as pessoas passam a pensar várias vezes antes de exprimirem as suas opiniões, não só sobre o dia a dia, a sociedade, a política, mas inclusivamente sobre opções técnicas e profissionais que, quando não são do agrado do chefe, podem servir como pretexto para manobras de intimidação e represálias.

Como as estruturas hierárquicas se apoiam cada vez mais em compadrios e conhecimentos, as nomeações sobrepõe-se aos concursos e os amigos são sempre para as ocasiões, os trabalhadores ficam sem qualquer capacidade de se defenderem das eventuais arbitrariedades dos seus superiores hierárquicos.

É claro que têm sempre a hipótese de recorrer às associações sindicais e aos tribunais, no nosso hipotético estado de direito. No entanto, e sem que qualquer um de nós se espante, preferem não arrastar a sua situação e o seu nome durante anos nos tribunais, para nada se provar, concretizar, indemnizar, repor ou punir, preferindo calarem-se ou mudarem de emprego, caso seja possível.

A função pública é o paradigma de tudo isto. Em vez de um conjunto de profissionais que pugnem pelo serviço público, pela competência profissional, pelo mérito, está transformada num labirinto de posso, quero e mando pequenos e mesquinhos, que usam e abusam dos seus pretensos subordinados, usam e abusam do erário público, distribuindo prémios e facilidades a quem lhes confere o estatuto de inatacáveis, a quem lhes demonstra fidelidade.

A verdade é que, no geral, este governo tem governado bem, com determinação e coragem. Mas estes sinais são todos preocupantes da parte de que detém o poder, embora me pergunte, ao ver as sondagens que vão saindo, se não estamos nós os que se procupam, totalmente desfasados da realidade, tal como acusamos os políticos de o estarem.

A oposição é lamentável, e o caso da OTA é exemplificativo da falta de opções dos partidos que deveriam questionar e vigiar o exercício governamental. Não tenho conhecimentos técnicos sobre engenharia, ambiente ou aviação, para ter uma opinião sobre a melhor localização do novo aeroporto, como não tinha sobre a melhor localização da segunda ponte sobre o Tejo. Mas ao fim de décadas de estudos pagos a peso de ouro, aceites por governos de várias cores partidárias, o aeroporto deveria já estar construído, em vez de continuarmos a pedir mais estudos, também pagos a peso de ouro, sobre os prós e contras de outras eventuais localizações para o novo aeroporto. Qual a credibilidade de um PSD que teve dois governos anteriores a concordar com esta solução, vindo agora exigir transparência no caso da OTA? E qual o objectivo do Presidente da República em alimentar este lamentável e artificial facto político?

Em vez de dizerem graçolas e se comportarem como comentadores de café, talvez fosse uma boa ideia os ministros desencadearem quando tal é necessário, discussões abertas sobre os verdadeiros problemas a resolver.

Nomeadamente sobre a sustentabilidade financeira do SNS. Correia de Campos não abandona o estilo provocador, ora dizendo que sim ora dizendo que não, ora negando impostos, ora sugerindo alteração das isenções das taxas moderadoras.

É este estilo prepotente, errático numas coisas, teimoso noutras, que inaugura uma nova época de descrença e suspeição, pouco democrática e eticamente doente.

22 maio 2007

Investir em ti - lado A


(…)
4.
Amanhã, se me voltares a tocar quando estivermos no elevador, vou pegar a tua mão e conduzi-la pelo meu corpo. Vou perder o medo: e investir em ti.
(…)

(Paulo Kellerman: Os mundos separados que partilhamos)

Proibir

É natural, nós gostamos muito das proibições, principalmente porque temos um especial gosto em não as cumprir.

Zelosos

Lá que temos candidatos, lá isso temos. E mandatários, muitos mandatários. Pelos vistos estão na moda os mandatários financeiros, Helena Roseta também já tem um.

Agitam-se os partidos, os aparelhos e os outros, muito bem vistos quando são independentes por um determinado partido, muito mal vistos quando são independentes, ponto.

Tudo se agita, tentando arranjar notícias, agora à volta da eventual candidatura de Carmona Rodrigues.

Sócrates vai aumentando a altura da sua torre de marfim, armando os guardas, que serão todos iguais a Pedro Silva Pereira, com excelentíssimos, digníssimos e zelosos servidores, que patrulham os campos em volta punindo qualquer esgar, anedota ou assobio que possa ameaçar o respeito com que se deve tratar o chefe.

No fundo, é destes zelosos servidores que é feita a história, porque eles almofadam e condenam os que se pensam protagonistas. E é nos protagonistas que o povo se vinga dos pequenos algozes que castigam os bobos do reino.

Mudanças

Depois da bonança, vem a tempestade.

Há alturas em que tudo acontece em turbilhão, as janelas abrem-se com estrondo e o pó é varrido por ventos e assobios. E nós levados como folhas bailarinas, sem querer ou destino, enrodilhados na voragem dos acontecimentos.

Assim estou eu.


(pintura de Bill Dixon: changes)

18 maio 2007

Passear


Desde a senhora gordíssima que conduzia o táxi que me trouxe do aeroporto ao hotel, passando pela empregada do café junto ao convento, onde me inclino perante os cientistas e a ciência, as pessoas com quem me cruzo na rua e a quem pergunto direcções e opiniões, até ao generoso empregado do restaurante que, desta vez, me recomendou uma especialidade da casa e da região, trazendo-me, inchado e orgulhoso, metade de um frango panado mal frito, sem qualquer acompanhamento, só encontrei uma senhora antipática, magra, tipo espinafre, azeda que nem vinagre, repetindo exactamente as mesmas palavras incompreensíveis depois de eu lhe ter dito, o mais delicadamente possível, que não falava a sua língua. Parecia um computador com voz grasnante.

Ainda por cima eu estava totalmente descomposta, cheia de sacos, o casaco pendurado na pasta pesadíssima (com papéis, resumos de comunicações e mapas), totalmente alagada depois de duas horas a pé, à torreira do sol.

Sim: ontem chovia e hoje, na televisão do quarto, consegui descortinar que estavam nove graus (às 8:00h). Portanto, apesar de transpirar por todos os poros devido à temperatura climatizada, armei-me de casaco, chapéu e guarda-chuva dentro da pasta, para além de um lenço à volta do pescoço. Depois do pequeno-almoço, e perante um céu imaculadamente azul, decidi que era melhor desistir do peso do guarda-chuva e do lenço do pescoço.

É claro que a meio do caminho (meia hora até ao dito convento) já eu resmungava pelo casaco, pela carteira, pela pasta, enfim, pelo calor que já estava àquela hora da manhã.

No convento estava uma temperatura agradável e, apesar das cadeiras desconfortáveis (deve ser para os ouvintes não adormecerem) e do esforço para entender o inglês dos palestrantes, foi uma manhã e uma tarde interessantes e proveitosas.

No fim do programa cumprido, cheia de novidades e projectos futuros, decidi conhecer mais um pouco da cidade andando pelas ruas, hoje bastante animadas (ontem era feriado), entrando nas lojas, olhando, ouvindo, cheirando as flores nas ruas. Perdi-me por diversas vezes o que só aumentou a canseira e o calor com que me arrastava. Mas valeu a pena. É uma cidade muito simpática. Fico com vontade de voltar.

17 maio 2007

Candidatar vs. Mandatar

Há algumas coisas que ferem o equilíbrio, seja ele de que tipo for.

Falo do facto de Fernando Negrão, candidato à Câmara de Lisboa pelo PSD, ter como mandatária (nunca percebi para que servem os mandatários)
Manuela Ferreira Leite!

Não seria melhor e mais lógico ser Manuela Ferreira Leite a candidatar-se em vez de mandatar a campanha do cordeiro sacrificial? Claro que Manuela Ferreira Leite (ou Paula Teixeira da Cruz) não devem achar graça a este tipo de sacrifícios, mas mesmo assim…

Os partidos estavam em verdadeira agonia para encontrar candidatos, mas já os encontraram, com excepção do CDS/PP. Paulo Portas (que tem estado a ser levado ao colo pela comunicação social pois não há jornal ou televisão que não perca tempo a mostrar as suas opiniões sobre tudo e sobre nada, relevantes ou irrelevantes, dando-lhe oportunidade para treinar a voz, o sorriso, o brilho dental e as frases bombásticas) ainda não conseguiu tirar da cartola um candidato, da enorme quantidade que espera, ansiosa, o chamamento do chefe.

Ele não, claro (cruz credo), porque ir a votos pode voltar a ser um fiasco, e isso Portas deixa para os seus fiéis servos...

Adenda: José Miguel Júdice a mandatar António Costa?? De facto, não devo mesmo perceber para que servem os mandatários.

Intervalo

Gosto das bicicletas, dos cafés com mesas redondas e toalhas de tecido, dos jornais esticados por pauzinhos de madeira à disposição de quem os quer ler, do pequeno tabuleiro com o café, o açúcar, o leite e o copo de água, da tranquilidade, dos eléctricos.

Mas não é fácil quando se desconhece a língua nativa. Os panfletos que me deram na recepção do hotel, sem sequer os pedir, estão em alemão, tal como os mapas e as ementas.

Hoje, depois de grandes esforços de parte a parte (de mim e do empregado), em que dei a entender com o meu inglês macarrónico que queria qualquer coisa leve, por exemplo vegetais (estava a pensar em sopa de legumes, salada, guisado), ele presenteou-me com um prato de beringelas panadas, acompanhada de um molho com maionese e pickles. Não estava mau, mas depreendi que o inglês dele era tão macarrónico como o meu.

Tem chovido, mas nem isso impede as caminhadas pela margem do rio, para desenjoar de palestras ditas num inglês inclassificável (igual ao meu!), sobre milhares de coisas tecnológicas e de ficção científica que, felizmente, já estão ao alcance da maioria dos nossos países europeus. Tem havido um desenvolvimento exponencial na ciência e nem sempre conseguimos aplicá-la às nossas necessidades. Se calhar alguma não tem aplicabilidade (ainda…).

Também gosto daquelas carteiras enormes e cheias de moedas que os empregados dos cafés e restaurantes transportam à cintura. São desmedidas!

16 maio 2007

De perto

Nesta distância de te amar
olhos na memória dos teus
mãos que procuram as tuas
em gestos banalizados
o vinho no copo de tão natural
a partilha do pão do riso do sal
de todo este tempo
a qualquer distância
de te amar.

(pintura de Marc Chagall: Wedding)

15 maio 2007

Outras paragens


Nos próximos dias estarei mergulhada noutras paragens, noutra língua, noutras ciências.

Pode ser que consiga vir aqui espreitar, de fugida.

Fitas



De facto já percebi as razões que levaram à colocação de parras em frente ao sexo das figuras nuas, fossem elas estátuas ou pinturas. O fundamentalismo e o politicamente correcto, a hipocrisia e a idiotice, que já levou a substituir o cigarro de Lucky Luke por uma palhinha, estão em alta e em perigoso avanço!

Intercalares na governação


José Sócrates resolveu o problema. Substituiu António Costa por Rui Pereira, uma pessoa com prestígio e uma imagem de competência e rigor, embora me pareça no mínimo estranho abandonar-se um cargo que se ocupou há apenas um mês...

Por outro lado, se for verdade que Luís Amado será o número dois do governo, também parece ser uma boa escolha.

Mas o peso político de António Costa e a existência de um ser pensante com valor intrínseco próprio ao lado de Sócrates pode ter-se perdido. E é um luxo a que o país e o próprio primeiro-ministro não se podem dar. O deserto e a aridez aumentam em torno dele. Vai ficando cada vez mais rodeado de aparelho e aparelhistas.

Para Lisboa é uma boa notícia. Helena Roseta teve, para já, esse mérito. A marcação das eleições para dia 1 de Julho inviabilizam, na prática, candidaturas independentes. É um gesto de uma democraticidade muito duvidosa. Mas será que Helena Roseta ainda tem espaço político para se defender em eleições? A hipótese de coligação à esquerda é impossível, até pela indisponibilidade dos próprios partido comunista e bloquistas.

Mas se Helena Roseta tiver uma boa lista, constituída por pessoas credíveis e com vontade de trabalhar, pode fazer alguma mossa ao PS.

Considero o aparecimento de candidaturas independentes um bálsamo. Mais uma vez o PS e, mais precisamente Sócrates, meteram os pés pelas mãos. A solução que arranjaram é de peso, mas de um enorme risco para o país.

Quanto ao PSD, até faz pena. Palavra que faz pena!

11 maio 2007

Mourão

Das casas
o branco

e o verde
dos jardins

Diz-me
o que darias

por um pássaro
assim

(poema de João Pedro Mésseder; pintura de F Lobo: Alentejo)

Sócrates na câmara (escura?)

Acordei hoje com o Rádio Clube Português e a bombástica notícia da iminente candidatura de António Costa à Câmara lisboeta. Luís Osório assegurou que tinha informações seguras de que António Costa já tinha aceite, analisando satisfeito que o PS queria mesmo ganhar as eleições.

À medida que o dia foi avançando a notícia diluiu-se, nos jornais on-line nada se diz, discute-se nalguns bogues a sageza da decisão de Sócrates, avançam-se nomes como Silva Pereira para a substituição de António Costa mas, na verdade, fica-se com a suspeita de que esta foi uma manobra de diversão lançada, talvez, por alguns sectores dentro do PS, e que nada está confirmado.

Ganhar a Câmara de Lisboa no meio da legislatura é muito importante para o PS, principalmente porque estas eleições têm sempre uma dimensão nacional.

Mas há o risco de as perder, mesmo com António Costa. O que significaria uma aposta muito forte, perdida, com custos elevadíssimos também no governo que, irremediavelmente, teria que ser remodelado.

Silva Pereira não tem a dimensão política de António Costa. Não me parece nada bem que seja esta a solução de Sócrates. A não ser que esteja desesperado, e o desespero nunca foi bom conselheiro.

Adenda: Não é verdade que a notícia não esteja nos jornais on-line, pelo menos agora. Tanto o Expresso, como o Jornal de Notícias, como o Público, como o Sol, referem a hipótese de António Costa.

10 maio 2007

A arrogância da quietude

Escritos de luz invadem a sombra, mais prodigiosos do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível avança sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, contemplo os ambiciosos e desejo entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, pronto a acometer.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um palpitar de guitarra, uns retratos e uma velha espada, a prece clara do salgueiral ao entardecer.
O tempo vive-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tumulto da sua exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Caminho com lentidão, como quem vem de tão longe que não tem esperança de chegar.


(poema de Jorge Luis Borges)

09 maio 2007

E agora, Lisboa!

Helena Roseta desistiu do PS. É natural, muitos de nós estamos a desistir do PS, mesmo os que não são militantes.

Tudo o que se tem passado na Câmara de Lisboa é uma vergonha para todos os partidos. Não se pode conceber que o calculismo político, os arranjinhos, as cobardias e o aparelhismo tolham desta forma a governação da capital do país.

É bom e meritório que ainda existam pessoas que estejam dispostas a lutar pelas suas ideias, que tenham ambição de participar porque acreditam nelas e nas suas propostas, à margem do emperramento partidário.

Seria muitíssimo bom que se gerassem grupos de cidadãos que se mobilizassem e apoiassem essas pessoas. A tal sociedade civil de que tanto se fala e que tão pouco se vê.

António Barreto, no seu último e excelente programa da série Portugal, Um Retrato Social, falou da administração pública, da falta de produtividade de toda a administração pública, da corrupção, do poder autárquico, dos interesses que se movem e se entrecruzam, dos que se sentem donos nos vários sectores da administração, da promoção do partidarismo e da falta de importância do mérito e da competência.

Mas não é obrigatório, não é preciso que assim seja. Há que perceber e que intuir que a administração pública é para servir o público, que os serviços existem para servir a população e não as classes profissionais que integram os vários sectores, que é possível fazer mais e melhor.

Os nossos governantes deveriam ser os primeiros a pensar no bem comum.

O PS e, especificamente, José Sócrates, têm uma enorme responsabilidade nesta trapalhada.
Quem é a figura que se prestará a concorrer como cabeça de lista? António José Seguro, João Soares, Manuel Maria Carrilho, Ana Gomes, Sérgio Sousa Pinto, António Vitorino (o eterno), Edite Estrela, Vitalino Canas, Maria de Belém? Quem será a misteriosa arma secreta?

E porque não Helena Roseta, enquanto ainda era militante do PS? Porque não tem currículo, peso político, porque é uma não alinhada?

Espero que haja outras pessoas a avançarem como independentes para as eleições intercalares em Lisboa, pessoas com vontade de trabalhar, que discutam as várias opções, as ideias que cada uma tem para a cidade, por exemplo Maria José Nogueira Pinto.

É tempo de abanar o status quo. E além disso, era muito mais interessante!

08 maio 2007

Em França

As eleições francesas foram uma demonstração de participação cívica e de vivência democrática, com 16,23% de abstenção. Houve uma campanha viva, digladiaram-se argumentos e ideias de esquerda e de direita. Foi uma campanha ideológica.

Os franceses decidiram votar em Sarkozy; ele ganhou as eleições, Ségolene perdeu-as. Os apoiantes de Ségolene deverão aceitar os resultados naturalmente, como esperariam que os apoiantes de Sarkozy os aceitassem, caso se tivesse passado o contrário.

Nada justifica as manifestações violentas, o terrorismo urbano, a delinquência mascarada de actividade política. Isto não é luta política.

Gostaria de ver e ouvir a esquerda condenar vivamente o recrudescimento da violência, após as eleições, gostaria que a esquerda se demarcasse totalmente destes atentados à segurança das populações, à própria essência do ideal democrático.

07 maio 2007

Volver

Yo adivino el parpadeo
de las luces que a lo lejos van
marcando mi retorno
son las mismas que alumbraron
con sus palidos reflejos
hondas horas de dolor
y aunque no quize el regreso
siempre se vuelve a su primer amor
la quieta calle, donde el eco dijo
tuya es mi vida, tuyo es mi querer
bajo el burlon, mirar de las estrellas
que con indiferencia, hoy me ven volver

Volver con la frente marchita
las nieves del tiempo, platearon mi sien
sentir que es un soplo la vida,
que 20 años no es nada
que febril la mirada
errante en la sombras te busca y te nombra
Vivir con el alma aferrada a un dulce recuerdo
que no ha de volver.

Tengo miedo el encuentro con el pasado
que vuelve a enfrentarse con mi vida
tengo miedo de las noches que pobladas
de recuerdos encadenan mi sufrir
pero el viajero que huye,
tarde o temprano detiene su andar
mas el olvido que todo destruye
haya matado mi vieja ilusion
Cual escondida la esperanza humilde
es toda la fortuna de mi corazon.

Volver con la frente marchita
las nieves del tiempo, platearon mi sien
sentir que es un soplo la vida,
que 20 años no es nada
que febril la mirada
errante en la sombras te busca y te nombra
Vivir con el alma aferrada a un dulce recuerdo
que no ha de volver.

(Estrella Morente)

Lisboa a votos?


Finalmente?
Será que é verdade?
E de todos os órgãos camarários?
Ou são só intenções?

Diversão

As eleições na Madeira foram apenas uma manobra de diversão manipulada por Alberto João Jardim, no mais puro exercício de populismo, queixando-se do governo, de Sócrates, de Cavaco Silva, numa tentativa de justificar a falta de alinhamento da Região Autónoma com os esforços de contenção do resto do território.

Por isso não é sério fazer um paralelo com a situação no continente, nem querer tirar conclusões nacionais dos resultados do plebiscito madeirense. Mais uma vez, Marques Mendes deu uma triste imagem do líder da oposição.

Infelizmente o governo anda de vento em popa sem qualquer oposição credível, sem qualquer alternativa ideológica ou prática. Assistimos a previsões pouco animadoras quanto ao cumprimento da meta de 2008 para a regularização do défice, assistimos à falta de discussão e de definição da sustentabilidade do SNS, assistimos à precariedade do emprego e à falta de alternativas para os jovens desempregados.

Mas a oposição está velha, à esquerda e à direita, os sindicatos estão obsoletos, a tão falada sociedade civil está marasmática. Não se discutem os verdadeiros problemas do país ou da Europa. Perdem-se minutos infindáveis a falar de casos tristes e mediáticos, que provavelmente seriam mais bem sucedidos se em prudente investigação silenciosa, ao contrário da feira internacional em volta do eventual rapto de Madeleine. Nesses casos sim, todos temos opinião sobre tudo, nomeadamente sobre a hipotética negligência dos pais, a falta de eficiência das polícias, a falta de segurança dos apartamentos.

Deveríamos transformar o país numa gigantesca agência de detectives, ou num mercado privilegiado de treinadores de futebol. Para isso somos argutos e estamos atentos!

POR VEZES CHEGA UM RUMOR

(…)
Muito mar, pouca viagem...viajemos com estas naus.
O perigo do mar é que nos engole, nos afunda na escuridão inconsciente, nos dissolve dissolvendo toda a luz da Razão ou da Inspiração que nos podia orientar.
A redenção, pois de redenção se trata, colectiva, social, e pessoal, individual - reside na viagem.
No gosto e na convicção de que é o caminhar que fará o caminho, é a palavra esquecida e de novo recuperada que nos permitirá dizer com Manuel Alegre:

Sou o que busca a palavra onde se esconde
uma pergunta sem resposta. Sou esse navegar.
Sou o que procura mesmo se ninguém responde
e sou o que pergunta pelo mar
(in MAR ABSOLUTO, Set.2002-Maio 2005)
(…)

Yvette Centeno, apresentação do livro “Doze Naus”, 02/05/2007


Manuel Alegre exaltou a minha sofreguidão de melodia, o meu desejo de lonjura e de melancolia, o meu amor pelas palavras, a indizível sensação de se querer participar, partilhar, de ser livre, da luta para consegui-lo.

Os poemas vivem na voz e na alma de quem os lê, de quem se apodera deles como da luz do sol ou do vento que nos interroga.

“Doze Naus” é um livro que rompe e embala, provoca marés vivas e calmarias, navega pelo tempo, pela esperança, pela renovação e pela contemplação do inexorável.

Mais uma vez, agora com a calma amorosa de quem sabe o que é indispensável, lerei os seus poemas, até que eles se me avolumem na voz.


POR VEZES CHEGA UM RUMOR

Por vezes chega um rumor
um surdo rumor do tempo.
As pontes se desmoronam
as pétalas as palavras
de repente sem sentido
as árvores onde o vento
deixava um frio assobio.
Por vezes chega um cinzento
um surdo absurdo vazio.

(poema de Manuel Alegre; pintura de Alberto Cutileiro: armada de Vasco da Gama)

A ignorância é muito atrevida

Hoje já ouvi várias vezes, na rádio, um anúncio da Avis em que se compara a equação E=mc² com um disparate qualquer ao cubo (elevado à potência de 3).

Tudo bem com a imaginação, mesmo que seja pouca, mas depois confundir-se o cubo com o triplo é que brada aos céus pela ignorância! Bem sei que uma manobra publicitária não pretende ser didáctica, mas ser objectivamente ignorante, induzindo o vasto auditório em erro, é tristíssimo e inaceitável.

Pois não sei se, por acaso, algum dos criativos do anúncio alguma vez lerá este post, mas aqui está uma explicação sobre a diferença entre o dobro, o triplo e o elevar a uma determinada potência:
  • dois ao quadrado (2²) significa 2x2, ou seja 4, assim como 3² significa 3x3=9 e 4² é o mesmo que 4x4=16
  • da mesma forma dois ao cubo (2³) significa 2x2x2=8, 3³ significa 3x3x3=27
  • o que é totalmente diferente de o dobro de dois (2x2), que é o mesmo que 2+2=4, assim como o triplo de três (3x3) é o mesmo que 3+3+3=9, ou o quádruplo de dois (4x2) que significa 2+2+2+2=8
  • portanto o triplo não é igual ao cubo, ou seja NxA=A+A+A+…+A (N vezes), mas Nª=NxNxNx…xN (a vezes)!!!

06 maio 2007

No fundo dos relógios

Demoro-me neste país indeciso
que ainda procura o amor
no fundo dos relógios,
que se abre
como se abrisse os poros solitários
para que neles caiam ossos, vidros, pão.
Demoro-me
no ventre desta cidade
que nenhum navio abandonou
porque lhe faltou a água para a partida,
como por vezes desaparece a estrada
que nos conduz aos lugares
e ali temos que ficar.


(poema de Filipa Leal; pintura de Frank Ettenberg: Cities of the Mind)

Vida eterna

O politicamente correcto ganhou mais uma batalha: a aprovação da lei antitabágica, por UNANIMIDADE, na Assembleia da República.

Ninguém contesta o direito dos não fumadores. Mas porque não se deixa ao critério dos donos dos restaurantes, bares, hotéis, etc, o facto dos seus estabelecimentos serem para fumadores ou para não fumadores?

Acho bem que comecem a pensar nas multas que farão pagar aos gordos. Quem comer mais que uma bifana, multa. Quem se recusar a comer sopa… multa! Quem preferir um gelado a uma saudável laranja… multa! Podem até encontrar-se formas de punição inovadoras: 3 voltas ao quarteirão em passo de corrida; 20 flexões; andar de bicicleta durante 1 hora; fazer três piscinas em 20 minutos.

Seremos todos mais saudáveis, mais belos, mais fortes, mais brancos, mais deuses, não sei se mais felizes, mas isso, como diria a outra, também não interessa nada.

Eleições

Sarkozy ganhou as eleições presidenciais, em França. Tenho pena, mas já se esperava.

De notar a extraordinária afluência às urnas, o que faz transparecer a preocupação dos franceses com o seu futuro, o que demonstra que a democracia ainda está viva e de boa saúde.

Vem aí o liberalismo e a força do mercado. Qual será a dimensão e a importância do estado francês nos próximos anos? Qual a política da imigração, com este filho de imigrantes?

Quanto ao futuro da União Europeia, vamos ver o que acontece. Sarkozy quer um mini tratado sem referendo. Ou seja cozinhar o que lhe interessa, com alguns dos grandes países, e fazer valer o seu peso político, económico e demográfico.

A França assim quis. Ainda não chegou a hora da esquerda, pelo menos desta esquerda francesa.

No nosso arquipélago da Madeira, Alberto João Jardim ganhou mais uns anos para insultar tudo e todos, principalmente os do contnente. Precipitou eleições por causa das finanças regionais. Será que pensa que assim vai ter mais dinheiro do contnente? Seguramente que ele não pensa isso, mas foi isso que ele levou os madeirenses a pensar. Temos mais uns anos de Carnaval assegurados.

05 maio 2007

Lisboa

A cidade está suspensa porque os vereadores, aqueles que se elegeram como seus representantes, se agarram a fios invisíveis, de teias já rasgadas, que se estendem a outras cidades.

A cidade está parada, pelos Carmonas, independentes ou dependentes, pelos Soares que foram e pelas Paulas que hão-de ser, pelas Marias Josés e pelos partidos, todos, de esquerda, de direita e sem partido.

Até quando?

Voltar

Estiquei todos os músculos, até ao limite do possível, após horas e horas de sono, encaracolado e profundo. Amanhã é dia de retomar viagens, caminhadas, físicas de quilómetros, mentais à velocidade da luz. Retemperar.

Para tanto não preciso de mais que dos braços que me esperavam, da cumplicidade de quem me quer. A vida é feita de partidas e gestos dolorosos, mas os reencontros reavivam a chama, movem mundos e abrem mares, que nos deixam voltar.

01 maio 2007

Granito

Gasto nos ombros
as forças tensas
do tempo a passar
por dentro de mim.

Com esforço inevitável
espreito hesito
na dor de continuar.
Estendo as mãos
em asas
pesadas como granito.
Ergo o corpo
ensaio o grito
preparo-me para voar.


(escultura de John Bernard Flannagan: The Early Bird)

O 1º de Maio

Comemorei o dia do trabalhador a trabalhar. Porque precisava, porque tinha que ser. Durante o caminho fui ouvindo várias frases desgarradas, várias considerações sobre o sindicalismo e os sindicalistas, sobre a relação entre os patrões e os empregados.

Desde que me lembro, o 1º de Maio enche-se de manifestações cuidadosamente programadas para lutar politicamente contra os governos, quaisquer que eles sejam. E desde que me lembro, os oradores são praticamente os mesmos, as frases praticamente as mesmas, as faixas, os cartazes, as palavras de ordem, os lamentos e as promessas de luta, tudo igual.

O mundo mudou e muda todos os dias. O problema do trabalho, ou mais precisamente da ausência dele, é dos maiores desafios que se colocam à sociedade que vamos construindo. O paradigma do trabalho para toda a vida acabou, há milhares de pessoas a quem é negado esse direito.

Para quem tem emprego, a insegurança dos postos de trabalho é cada vez maior e o uso que as entidades patronais fazem dessa insegurança é cada vez mais preocupante.

Tal como no início do movimento sindical, a mobilização dos trabalhadores em volta de associações que os protejam e os defendam é hoje uma necessidade avassaladora.

Mas não nestes sindicatos que avaliam a sociedade com os olhos de há 30 anos, não com estes sindicalistas que não conhecem o trabalho, as suas condições, a sua competitividade, a sua falta de ética, porque efectivamente são funcionários administrativos no seu próprio sindicato.

Rigor e a exigência devem ser a bandeira de quem diz defender os trabalhadores, a formação, a competitividade, os bons resultados, a exaltação do mérito. Só assim podem exigir exactamente o mesmo das direcções das empresas, dos directores dos serviços, dos patrões, dos ministros, dos governos.

Os sindicatos devem ser associações que dialoguem com seriedade e com verdade com os representantes do poder instituído, para que impeçam e denunciem as arbitrariedades que vão sendo cometidas, sem respeito nem preocupação pelo futuro das empresas e de quem lá trabalha.

É necessário um movimento sindical renovado, que defenda verdadeiramente o trabalho e lute por condições dignas numa sociedade em que as regras da solidariedade se vão esquecendo, e em que a lei parece estar sempre do lado do mais forte.

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