10 maio 2007

A arrogância da quietude

Escritos de luz invadem a sombra, mais prodigiosos do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível avança sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, contemplo os ambiciosos e desejo entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, pronto a acometer.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um palpitar de guitarra, uns retratos e uma velha espada, a prece clara do salgueiral ao entardecer.
O tempo vive-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tumulto da sua exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Caminho com lentidão, como quem vem de tão longe que não tem esperança de chegar.


(poema de Jorge Luis Borges)

2 comentários:

  1. HarryHaller10:40

    Um poema que fala da verdade existencial, vista por quem era invisual.
    Uma pérola este poema que trouxeste aqui Sofia.

    Um bom dia e um bom fim de semana Sofia

    Fernando

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  2. Sofia Loureiro dos Santos11:17

    Fernando, subscrevo o que diz. Foi-me dado a conhecer por uma muito querida amiga. Bom fim de semana.

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