04 abril 2026

Páscoa

Salvador Dalí

Não estou tanto nem tão pouco

Do aqui do que fugi

Culpados os sonhos

Que não vivi

 

Não estou tanto de mim mas de ti

Se me quiseres em paralelo

Neste modelo

De mim

 

Não estou para qualquer morte

Nem para qualquer vida

Tão real e definida

Como a dor

Os 50 anos da Constituição da República Portuguesa


Ouço a gravação em arquivo da RTP, da Aprovação da Constituição da República Portuguesa e da Sessão Solene de Encerramento da Assembleia Constituinte, a 2 de abril de 1976.

É inevitável a comparação cm a cerimónia dos 50 anos deste dia, no Parlamento.

A degradação da palavra, da retórica, dos comportamentos, da tolerância, da democracia, são evidentes.

Bem sei que tudo muda e tudo mudou, mas nem sempre para melhor.

A democracia está sob ataque, como diz Pacheco Pereira, por dentro. Cabe-nos a nós não o permitirmos. Cabe-nos a nós defendê-la. Cabe-nos a nós não querer voltar atrás.

A liberdade tem de continuar a passar por aqui.

27 março 2026

Espaços

Rosário

Os espaços rearrumam-se misteriosamente

como se as peças de um puzzle mudo e desconexo

se movimentassem em aves noturnas e enternecidas.

Um casulo de janelas entreabertas

móveis onde o corpo se aconchega e encosta.

Se os espaços se moldam ao nosso mundo

faremos dos espaços o nosso mundo.

Talvez se aclare e esclareça.

Ser radical

Asa esquerda de um rolieiro azul

Albrecht Dürer

Há um enorme afã da nossa comunicação social em encontrar fissuras e desencontros no seio do PS. Não quer dizer que não os haja, mas, após as eleições presidenciais, em que todos louvaram a estabilidade prometida, muitos se apressam a tentar atiçar razões para que a instabilidade se instale.

Por outro lado, a sociedade deslocou-se tanto para a direita e para a extrema direita, que qualquer discurso que envolva a defesa de minorias, de direitos, liberdades e garantias, da dignidade no trabalho, da igualdade de géneros e, o que é ainda mais assustador, da ciência e da evidência sustentada em investigação científica comprovada e certificada, passou a ser apanágio dos radicais de esquerda.

É extraordinária a qualidade das propostas que são discutidas e aprovadas no Parlamento - desde a reversão da Lei n.º 38/2018 de 7 de agosto - "Direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa" -, à alteração das leis da nacionalidade - Lei do retorno - que agrava de 60 dias (2 meses) para 360 (1 ano) e mais 180 dias (6 meses), a possibilidade de detenção até ao efetivo retorno.

Multiplicam-se nas redes sociais os Reels de programas de entretenimento, em que os animadores/ entrevistadores perguntam a crianças muito pequenas e fofinhas o papel dos progenitores em casa - quem manda, quem faz a comida, quem ganha o dinheiro e quem o gasta, etc. Sub-repticiamente, e desde muito cedo, os papéis do pai e da mãe são impressos na cabeça das crianças - as mães dão de comer, gastam o dinheiro e mandam em casa, enquanto os pais trabalham para ganhar dinheiro, fazem em casa o que a mães lhes manda e queixam-se da comida.

Ou seja, ser radical de esquerda é defender as mais básicas noções de decência, de partilha, de respeito e igualdade de direitos, nomeadamente das mulheres, migrantes e comunidades em que as suas natureza nada influenciam os demais, mas que a fúria retrógrada e anticientífica dos reacionários de direita e extrema direita que nos governam assumem que são perigosos.

Se é a este posicionamento ideológico que a nossa comunicação social se refere, ao prever grandes fraturas no congresso do PS, pois espero que as haja, a bem da nossa higiene mental e saúde pública.

21 março 2026

Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste

 


Álvaro Feijó

por Maria Barroso

I

Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro

do que tu - não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

 

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo.

 

Eu, Marco Pólo,

 

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

 

nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

 

II

Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

 

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul do céu, cansado de lá estar.

Viver a vida


Há uns dias recebi um e-mail do Blogger, essa entidade que se rege por algoritmos e regras que ninguém sabe muito bem como foram e são feitas, essa entidade que decide se as mesmas são ou não seguidas, avisando-me que tinha removido o meu blogue porque "(...) O seu conteúdo violou a nossa política de Spam. Para saber mais, visite a página das regras da comunidade, cujo link se encontra neste e-mail. (...)"

O meu espanto foi total, tal como a minha indignação. Em primeiro lugar, quem e o quê tinha decidido tal coisa; em segundo lugar, que regras de spam eram essas.

Confesso que nem me dei ao trabalho de ir ver. Tudo isto me revolta e me assusta. Deixámos de ser censurados por homens para passarmos a ser censurados por máquinas. Estou demasiado ultrapassada para aceitar que isto é uma evolução benigna.

Depois de me ter passado a fúria, cliquei no link que me deixaram para pedir um "recurso". Tão espantosamente como o anterior, recebi o veredito por e-mail: "(...) Após a revisão, o blogue foi reposto. (...).

E aqui estou de novo, até à próxima apreciação, tão estúpida quanto esta, ou até eu própria remover o blogue.

Vem isto a propósito da necessidade que temos de controlar, "cancelar" (uma palavra muito em voga nestes tempos sombrios), criticar e uniformizar regras que, muitas das vezes, são absurdas e escapam ao entendimento, mas que seguimos acríticos. Deixámos de ter confiança na legislação, essa sim produzida por representantes da sociedade. Deixámos de ter tempo para, sequer, pensar.

Não ponho em dúvida a necessidade de regulação das redes sociais. Mas parece-me que isto não tem nada a ver com regulação.

Também em todos os aspetos da vida em sociedade a fúria normalizadora impõe-se, se não pela legislação, por meios de pressão a que agora se chama "bullying". Tudo o que se ache que não é aceitável é usado de forma a perseguir quem o faz ou defende, de tal forma que é mais seguro para a sua sanidade mental calar a revolta que persistir na sua opinião ou atuação.

Deixámos de ser autónomos em decidir como amar, como aceitar ou não o que a vida nos traz. Tudo nos é ensinado, desde como dividir tarefas em casa, se é que as devemos dividir, à forma como devemos partilhar as nossas emoções, anseios, dúvidas, fantasias, desejos.

O ser humano deixou de saber amar, deixou de saber quais as suas responsabilidades, o que lhe é ou não permitido sentir, o que lhe é ou não permitido contar, viver. Passámos dos livros de autoajuda para o ChatGPT (que é óptimo para me explicar como devo guardar o pão para que ele aguente dias quebradiço e macio).

Tudo isto é muito cansativo e redutor. Confesso que preferia mais erros e mais persistência, mais autocrítica e menos desresponsabilização, mais comunicação e solidariedade e menos pseudo-felicidade autoimposta. Menos egoísmo e mais respeito pelo que o outro é, pelo que possa sentir, e como a nossa pertença verdade absoluta o pode aniquilar.

Enfim, enquanto o blogger me deixar, vou mantendo este espaço onde rezingo. Não sou barbuda, mas vou-me assemelhando cada vez mais ao José Pacheco Pereira.

Também isso me assusta!

15 março 2026

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience

O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs.

Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo alguns maduros, e velhotes (como eu), insistem em escrever.

Bem sei que escrevo cada vez menos. Mas vou escrevendo. Porque insisto? Por que me faz bem.

Vou partilhando, agora, de novo, no Blogger.

Vamos caminhando.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...