11 abril 2021

Traições

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Só agora começou


 


Atraiçoada é exactamente o sentimento que define o que, durante algum tempo, senti em relação a José Sócrates.


Fui eleitora de Sócrates para Primeiro-ministro nas duas eleições em que ganhou, primeiro em maioria absoluta e depois em relativa. Defendi as políticas de saúde e de educação dos seus governos, as opções estratégicas pelas energias renováveis, a aposta na literacia digital e nas tecnologias de informação. Ainda hoje defendo tudo isto.


Indignei-me com as manipulações políticas, as falsas acusações, as fugas de informação, a inacreditável forma como foi preso em directo. Tudo o que escrevi sobre o assunto, mantenho.


No entanto foram as suas palavras, as suas justificações, as suas alegações e as suas mentiras que me deixaram boquiaberta, que me deixaram indignada de novo, mas com a minha própria ingenuidade. Como me foi possível, a mim e a tantos outros, sermos tão redondamente enganados pela sua personalidade? É claro que fiz e faço um julgamento moral da sua pessoa, do seu carácter, e da sua falta de vergonha para afirmar que foi afirmando.


E por isso, se calhar como tantos outros, me senti atraiçoada naquilo que, para mim, era uma questão de honra, de probidade de quem nos governa. Não é preciso santidade nem virtudes robóticas e enganosas. Nunca confiaria em alguém sem mácula nem vício, porque as pessoas são uma mescla de tudo e tudo é necessário para se ser inteiro. Mas afirmar que se sente atraiçoado pelo partido parece-me uma tal forma de alheamento da realidade, de desconhecimento da sua própria pessoa, para não dizer de desfaçatez e falta de vergonha, que me custa a entender.


Não é fácil admitir perante nós próprios as nossas fraquezas e defeitos, as nossas ingenuidades e faltas de sagacidade. Mas não é possível fingir que as somas em dinheiro vivo trocadas entre Sócrates e o motorista, as justificações sempre diferentes da proveniência do dinheiro, primeiro da mãe, depois do amigo, o facto de guardar obras de arte em casa dos empregados, enfim, tantos e tão profusos disparates debitados ao longo destes anos que a ninguém convencem.


A Justiça tem o seu papel e ninguém deve ser condenado em praça pública. O que se passou e passa no caso do ex-Primeiro-ministro é um susto para qualquer cidadão. Mas não podemos fechar os olhos e os ouvidos ao que o próprio nos ofereceu e oferece. E não é bonito. Não são estas as características que desejo para alguém que nos represente e governe.

10 abril 2021

Justiça

Ao fim de 7 anos de prisão em directo, fugas de informação, escutas e julgamento na praça pública, o Juiz Ivo Rosa destroçou as acusações do Ministério Público, muitas delas já prescritas aquando da acusação. Culpado ou inocente, ninguém merece que isto lhe possa acontecer.


É tudo muito mau, seja qual for o ângulo pelo qual se tente olhar.


Nem José Sócrates e os outros acusados saem ilibados dos crimes de corrupção, nem o Ministério Público sai ilibado de incompetência. Os populismos têm uma época cheia, destilando o ódio aos políticos, aos magistrados, aos juízes, a tudo e a todos.


Ninguém se pode sentir seguro com uma justiça que funciona desta forma. A democracia está mais frágil.

02 abril 2021

Trava-línguas pascal

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Um dois três


quatro cinco seis


vamos ter festa


e não é de Reis.


Sete oito nove


dez onze doze


amêndoas não tenho


que ninguém as trouxe.


Treze catorze quinze


dezasseis dezassete dezoito


mas em vez delas


comprei um biscoito.


 


Dezanove vinte vinte e um


foge cabritinho


que já estás gordinho.


Vinte e dois vinte e três vinte e quatro


vamos embora


que está na hora.


 


Já se faz tarde


nesta vidinha


o que vai dar


não se adivinha.


Besunta a forma


espreme o limão


à nossa retoma


de escravidão.


Sopra no forno


limpa a colher


que não há retorno


vamo-nos benzer.


Cristo confina


confino também


a alma definha


e fica refém


do corpo dobrado


que não se sustém.


 


Recolhe a esmola


que sem vintém


ninguém se consola


e esta revolta


já não se detém.


 

21 março 2021

Margarida

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Egon Schiele


 


Margarida consolada


Pelo sol da Primavera


Foi da nuvem deserdada


Tanto verde desespera


 


Margarida veste branco


Rasga a pele devagar


Que a memória é solavanco


Da fogueira a esfriar


 


Margarida gasta as mãos


Em tantos corpos de vento


Decepadas por irmãos


Sem espadas com talento


 


Margarida cava o mundo


Com arados de esperança


Arrepende-se num segundo


Que uma flor também se cansa


 


Margarida já não chora


Pela vida que enlutou


Fecha o sol e vai embora


Que esta terra já secou


 


Margarida não se sente


Tem a alma ressequida


Dispersou-se em semente


Pode ser que volte à vida


 

20 março 2021

Dos modernos e virais enigmas

O aumento de novos casos de COVID-19 na Alemanha, França e Itália será devido a algum Natal tardio, à antecipação da Páscoa ou ao Carnaval?alemanha.jpg


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E Portugal, passou de ser uma vergonha europeia (mundial) para um modelo de comportamento cívico?


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Da obesidade dos confortos

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Depois de tanta pesquisa e procura detectivescas, incessantes visões de almofadas, mantas e travesseiros, em todas as lojas de decoração online, tenho, neste momento, uma cama muitíssimo confortável, com inúmeros almofadões, um rolo e cobertas fantásticas.


Muitíssimo fashion e confortável, a minha cama está fantástica, digna de qualquer MasterChef decorativo.


Não sobra é muito espaço para me deitar. Tenho que espalhar as confortáveis e lindas almofadas por todo o lado.


Não há fome que não dê em fartura.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...