13 setembro 2020

Lampiões

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Não sei o que se passa com os candeeiros. Não alumiam. Não percebo porquê. São os mesmos há trinta e tal anos e deve ser por isso. Foram perdendo vigor.


O que é um enorme aborrecimento porque ler está a transformar-se num exercício de grande exigência. Inclino-me para o candeeiro para iluminar a página, afasto o livro e levanto o queixo, tentado usar a progressividade dos óculos. O livro fica de novo na sombra. Tiro os óculos e tento usar a miopia não corrigida.


Viro e reviro o candeeiro mas ele de mortiço não passa.


Acho que vou ter que comprar uns lampiões para colar ao lado da cama, que se transformará num óptimo banco de jardim.


Ou então ler ao microscópio.


 

12 setembro 2020

Manto

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Cloak of Conscience


Anna Chromy


 


Não dei por ele. Este manto de tristeza


que me vai afogando. Como água lamacenta


que alastra. Uma nódoa de sono. Uma infinita


cama de grades. Não dei por ela. Esta lassidão


da desistência. Sopro.


E não desaparece.


 

01 setembro 2020

Casulo

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Graça Morais


 


Acordei com as dores dos pássaros


asas sem voo pesadas de azul.


A casa como casulo de insectos


nas metamorfoses do silêncio


enrolados e secos de humanidade.


 

31 agosto 2020

Desemprego jovem

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Público - 31/08/2020


 


E se fosse reduzido o horário de trabalho semanal?


E se as reformas fossem incentivadas um pouco mais cedo?


Não seria uma forma de melhorar o demprego e reanimar a economia?


 

Populismo e trapalhadas

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Marcelo Rebelo de Sousa, fala, fala e fala demais, dizendo o que não devia, metendo-se onde não deve meter-se. A DGS não tem que ser politizada e Marcelo sabe muito bem disso, ou deveria saber.


Por outro lado, se a DGS não tinha que divulgar as orientações em relação à festa do Avante (e, de facto, quem deveria divulgá-las seria o próprio PCP), o governo não tinha que a desautorizar, correndo atrás de Marcelo e de Rui Rio. O populismo a ser o norte e o sul da política portuguesa.


Tanta trapalhada!


Começo a pensar que é mesmo importante que Ana Gomes avance para a Presidência.


 

27 agosto 2020

Cansaço imenso

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Medicine Woman


Denisa Kolorova


 


Cansaço imenso de me sentir a afogar perante tanta histeria, tanto espectáculo de má qualidade.


Má qualidade das informações e dos informadores, repetição sistemática e ruidosa de lugares comuns, meias falsidades ou mesmo falsidades completas, numa gritaria demente que aterroriza as pessoas, adormece-lhes o sentido crítico e paralisa o raciocínio.


Má qualidade dos protagonistas que, a coberto de cargos institucionais, dão largas às suas agendas e ambições pessoais, cobertura a posturas pesporrentes e arrogantes de quem não entende que nada nem ninguém é indispensável, e que a utilização oportunista de desgraças colectivas é tristemente demonstrativa da falta dos valores que, hipocritamente, se apregoam.


Cansaço imenso de mim própria porque não aceito que mudei, que já não tenho o vigor e a audácia, quem sabe a coragem, da afirmação do que me indigna e revolta. Cansaço imenso da minha própria acomodação ao crescente incómodo. Cansaço imenso da minha cobardia.


Como médica que sou, não me revejo na omnipresença do Bastonário, nos avisos do Bastonário, nas palavras, ditas ou escritas do Bastonário, nas ameaças, veladas ou explícitas do Bastonário. Sindicalizado só está quem quer, mas à Ordem dos Médicos todos pertencemos. Não somos uma irmandade selecta nem um grupo de gente com dons divinos. Somos pessoas de carne e osso, com qualidades e defeitos, que escolhemos a profissão que temos. Fantástica e maravilhosa com os riscos e as responsabilidades inerentes, que conhecemos e aceitamos. Capaz de nos elevar à euforia ou à mais funda depressão, de nos tirar noites de sono, de nos dar dias de enlevo.


Como médica que sou agradeço a possibilidade de continuar a sê-lo, apesar de tudo. E principalmente apesar daqueles que têm como função representar a serenidade, a pedagogia, a empatia, o rigor científico, a tolerância, a exigência, a humildade.


É isso - cansaço imenso.


 

26 agosto 2020

Luz coada


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Glass Petal


Emily Williams



 


1.


Viajamos dentro de nuvens


sem ver o brilho do mundo.


A luz coada veste-nos as emoções


de uma seda enganosa.


A nudez da alma é indispensável


ao espectáculo da vida


que o medo encolhe e banaliza.


 


2.


Deste Outono que me cobre


a gentileza da chuva


no olhar que não desiste.


Arrumo de noite os punhais


que o flagelo da realidade


torna redundantes.


A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...