11 junho 2020

Um bouquet de flores (2)

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A casa onde pernoitaríamos, reservada pelo booking.com, localizada mesmo no centro da cidade, tinha uma porta pesada e principalmente cerrada... Tocámos mas ninguém respondeu. Telefonámos e, após alguns poucos minutos, apareceu o (presumível) proprietário, deslocando-se com bastante dificuldade mesmo com a ajuda de uma bengala, penitenciando-se pela ausência e tartamudeando a justificação, que se relacionava com arranjos de tapetes de Arraiolos.


Fomos conduzidos ao quarto, ou seja, fomos informados de como encontraríamos o quarto, que ficava no alto de umas íngremes, rústicas (muito bonitas) e estreitas escadarias de pedra, que trepámos (nós e a mala), pois elevador não rima com casa apalaçada do início do séc. XX, nem o senhor que nos guiou podia ajudar, caso fosse necessário. Mas tudo bem. Os maravilhosos e intensivos treinos dos últimos tempos asseguraram-me uma chegada lá ao cimo triunfante e sem arfar.


O quarto, na verdade uma pequena suite, era muito agradável, espaçoso, fresco e silencioso. Os candeeiros é que se tinham arrependido de alumiar; tinham umas lâmpadas tão fraquinhas que era quase impossível ler, e ver também era complicado. A internet só funcionava no pequeno átrio, e o número de tomadas eléctricas mal dava para carregarmos os telemóveis.


Nada de mais. Descansámos dos cansaços inexistentes e, ao fim do dia, rumámos à República do Petisco para comer qualquer coisa. E que boa República esta - uma tábua de queijos, um prato de queijo assado com orégãos e ovos mexidos com espargos, tudo bem regado por um bom tinto, o da casa (Comenda Grande), gente nova muito amável, enfim, uma maravilha.


De volta ao quarto ligámos a TV (uma relíquia do século passado) para ver as novidades, mas esta não colaborou e eu revivi os longínquos anos em que havia "chuva" no écran, não se ouvia nada e era impossível assistir fosse ao que fosse. Tentámos a TV grande e moderna da sala ao lado para o convívio dos hóspedes, mas ela não se comoveu e o resultado foi o mesmo.


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Um bouquet de flores (1)

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Se precisamos de restaurar tapetes e carpetes de Arraiolos, é a Arraiolos que vamos.


Com esta lógica inabalável e aproveitando uma semana cheia de feriados com umas férias desconfinantes pelo Alentejo, pusemos rodas ao caminho.


Qualquer escapadela deve sempre incluir um bom roteiro gastronómico, pr isso iniciámos o nosso almoçando na Casa das Enguias, onde o ensopado delas não nos desiludiu. No fim houve um pequeno desaguisado por causa de umas meias-tulipas (que eu nem sabia que existiam) que substituíram as tulipas (que não havia) que, por sua vez, estavam a substituir a caneca (que também não existia). Mas as ditas meias-tulipas custavam quase o dobro das imperiais, embora tivessem exactamente a mesma capacidade (20cl). Depois de uma abundante mas pouco perceptível explicação, decerto devido à máscara que atrapalhava a eloquência do empregado do restaurante, lá se repuseram os preços e partimos em direcção ao sul.


Deambulámos pela estrada nacional, sem pressas, observando a paisagem alentejana. Passámos Vendas-Novas, depois Montemor-o-Novo e lá chegámos a Arraiolos. Paz e serenidade, é o que se deseja.


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10 junho 2020

No fim de um lugar que desconhecemos

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Barcos - Júlio Pomar


 


No fim de um lugar que desconhecemos


uma porta que se abre devagar


nuvens de pó branco como veneno


glórias desfeitas passados que repisamos


um fluido esquecimento de tudo o que doemos.


 


Roufenha a voz que repete o fado


guitarras de pobreza aves sem destino


numa praia de arvoredos crivados de gaivotas.


Tiros de versos e azedume nas manhãs de brilho e nevoeiro


a porta que se fecha sem que vislumbremos


o futuro a que julgámos pertencer.


 


Outros serão os ventos outros os lugares de encanto


sempre nos gestos esta mansa loucura este canto


de flores e de mar de tempestades de navios e terra.


Esta soma de gente multiplicada por melancolia


este cheiro esta luz e o morno passarinhar da poesia.


 

Ao desconcerto do Mundo

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Camões por Fernão Gomes


 


Os bons vi sempre passar


No Mundo graves tormentos;


E pera mais me espantar,


Os maus vi sempre nadar


Em mar de contentamentos.


Cuidando alcançar assim


O bem tão mal ordenado,


Fui mau, mas fui castigado.


Assim que, só pera mim,


Anda o Mundo concertado.


 


Luís de Camões

Flor de la Mar

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Trago dentro de mim a nau simbólica


Flor de la Mar: navegação do espírito


Nau Nação. Aquela que se fez para fora


e se perdeu para dentro. Sou essa Nau


Memória. Talvez perdida. Talvez esquecida.


Sou essa viagem de circum-navegação


à volta do Mundo e de mim mesmo.


Nau Ideia. Sem ela nós não somos nada


não mais que um bairro perdido a Ocidente


com ela se navega mesmo se parada


só com ela se pode chegar ainda


ao que dentro de nós é sempre ausente.


Nação que foi Europa antes de Europa o ser


Flor de la Mar: quatro sílabas com que se diz


o nome do poema


e do país.


 


Manuel Alegre

Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.

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Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.


a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.


b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.


Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.


s.d.


Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.  - 94.

09 junho 2020

Mário Centeno

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Expresso


 


Na sua estreia parlamentar, em 2015, Mário Centeno foi gozado pela direita. O País ainda estava perplexo com a reviravolta pós-eleitoral, uns esperançosos outros raivosos. O ministro das Finanças era uma pedra chave da Geringonça e, depois de Vítor Gaspar, ter um Ministro peculiar que se estreava na política levantava muitas dúvidas e muitos receios. Sei que foi o que aconteceu comigo.


E no entanto, ano após ano, Mário Centeno foi acertando as contas e cumprindo promessas e previsões, muitas vezes incompreendido mas com os melhores resultados de sempre. Foram cerca de 6 anos memoráveis.


Esperemos que a sua saída não faça regressar o descrédito dos cidadãos no governo. A tarefa do seu sucessor é hercúlea e não há ninguém insubstituível. Mas Mário Centeno merece os nossos agradecimentos e aplausos.


Aguaremos os próximos tempos.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...