04 maio 2020

Negra papoila

BlackPoppies_Composite-scaled.jpgBlack Poppy


Cai Guo-Qiang


 


Adeus oh minha mãe que já me vou
Com perfumes de cravo e hortelã
Entre a luz que do céu se evaporou
O líquido gotejo da manhã


 


Adeus oh minha mãe que já me falta
O mel que nos adoça a tempestade
No ardor da inquietude que me assalta
A força que se faz serenidade


 


Adeus oh minha mãe que hei-de voltar
Com a chuva que inunda a Primavera
No tempo que queremos sossegar
Do Maio que passou e já não espera


 


Adeus oh minha mãe que já não sei
Se a vida que iremos retomar
É o lume do passado que queimei
Na água de um futuro a remendar


 

28 abril 2020

Quarentena

SARS-CoV-2.jpg


 


Pelas curvas deste quarto


Esquadro e régua a somar


Restam rugas que reparto


Pelos gestos de esperar


 


Rondo à volta desta roda


Numa triste geometria


Faço a média desta moda


Contas que desconhecia


 


Alterno sol com janela


Divido voz e olhar


Meço a dedos a cautela


Reaprendo a respirar


 

25 abril 2020

25 Abril 2020


Zeca Afonso & Manuel de Oliveira


 


Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já


Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá


Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar


De espada à cinta, já crê que é rei d'aquém e além-mar


 


Não me obriguem a vir para a rua gritar


Que é já tempo d'embalar a trouxa e zarpar


 


Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie ...


 


A gente ajuda, havemos de ser mais eu bem sei


Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei


A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustem


Só nesta rusga, não há lugar prós filhos da mãe


 


Não me obriguem a vir para a rua gritar


Que é já tempo d' embalar a trouxa e zarpar


 


Bem me diziam, bem me avisavam como era a lei


Na minha terra, quem trepa no coqueiro é o rei


A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustem


Só nesta rusga, não há lugar prós filhos da mãe


 


Não me obriguem a vir para a rua gritar


Que é já tempo d'embalar a trouxa e zarpar


 

25 Abril 2020

25 abril 2020.JPG


André Carrilho

25 Abril (1974 - 2020)

25042020.jpg

23 abril 2020

Flor

cravos vermelhos.jpg


 


Tenho na mão uma flor


Que se desfolha sem mim


Solta da vida que é dor


Uma alegria sem fim


 


Uma alegria sem fim


Que abraço sem saber


Quando semeias em mim


A vontade de viver


 


A vontade de viver


Nestes dias de castigo


Cantar ou enlouquecer


Desde que seja contigo


 

19 abril 2020

Compota de laranja (orange marmalade)

orange marmalade.jpg


 


Há já algum tempo que ando com vontade de experimentar a confecção da tão conhecida orange marmalade, aquela compota de laranja dos ingleses, de que eles dizem tão bem. Embora não tenha a gastronomia inglesa em grande conta, tento lutar contra o preconceito em todas as áreas.


Se bem o pensei, melhor o fiz. Depois de uma aturada busca na internet, fiquei a saber inúmeros e úteis pormenores sobre laranjas e suas variedades.


Claro que só podiam ser os ingleses a fazer um doce de laranja amarga – Seville Orange. E por isso a quantidade de açúcar que a receita tem é uma vez e meia a da fruta, o que é imenso.


Mas não nos apressemos, que este doce não é para quem tem pressa.


Esta marmalade (nome especificamente usado para compota de laranja amarga) utiliza a totalidade da fruta, o que é uma coisa que me agrada, pois detesto desperdícios. Mas enfim, não se aproveita tudo, tudo, mas tudo serve para a confecção da compota.


Vamos à receita: para cada quilo de laranja (amarga), o dobro da água, uma vez e meia de açúcar e 1 limão. Esta é a receita que vi na net. Mas como não encontrei laranja amarga, usei laranja do Algarve e, por isso, a mesma quantidade em açúcar. Para além destes ingredientes, são precisos uma grande panela ou um grande tacho, um paninho de algodão e fio de culinária. E muita, muita paciência e resiliência.


Segui religiosamente o prescrito:


- Coloquei 3 litros de água num grande tacho; pesei 1,5 quilos de laranjas, sem alterações nem “nódoas” nas cascas. Dividi as laranjas e 2 limões ao meio e espremi todas as laranjas e 1 limão e meio, no espremedor de citrinos. Fui aproveitando os caroços e as partes que não passavam o crivo do espremedor, colocando-as num prato para depois. Juntei o sumo à água.


- A seguir raspei com uma colher o interior de todas as cascas, para retirar o mais possível a parte branca, sem estragar as ditas. Devo dizer que foi uma tarefa muito custosa e demorada, o que me levou a amaldiçoar esta minha vontade de experimentar coisas para as quais não fui feita. Mas lá consegui chegar ao fim (as partes brancas juntaram-se aos caroços).


- Com uma faca afiada cortei as cascas às tiras, não muito fininhas para não se desfazerem, mas também não muito grossas para poderem cozer bem (à volta de 5 mm de largura). Juntei as tiras das cascas à água e ao sumo.


- Todos os caroços, peles e afins foram colocados num lenço de algodão, fininho, tendo atado as pontas com o tal fio culinário, deixando-as compridas – o saquinho resultante era para mergulhar na água com o sumo e as cascas, mas prendi-o na asa do tacho - destina-se a deixa passar pectina, penso eu.


- A seguir liguei o fogão e deixei ferver até cozerem as cascas – até ficarem moles – à volta de 30 a 40 minutos. Depois do arrefecimento da mistela resultante espremi o saquinho o mais que pude, para se aproveitarem os sucos lá de dentro.


- Finalmente juntei 1,5 quilos de açúcar branco e deixei ferver, mexendo, até fazer ponto. Esta última parte não foi assim tão fácil porque esteve imenso tempo a ferver e ficou muito líquido. Hoje de manhã foi outra vez ao lume e ficou com ponto a mais. Portanto só à terceira vez é que ficou bem (foi outra vez ao lume com um pouquinho de água, para que o ponto ficasse certo).


Já enfrasquei e já provei. Está uma delííííícia......!

Os pacotes

Sábado Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais...