10 março 2018

Da cintura ao olhar

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Mulher no jardim


Pablo Picasso (1929-1930)


 


 


Da cintura ao olhar


o espelho devolve sombras e sede


rios desabam das mãos


esquecidas em memórias


enrugadas


de abandono.

Este país não é para mulheres

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Charging Bull, Arturo Di Modica


Fearless Girl, Kristen Visbal


 


Confesso que estou cansada de dias internacionais, de mulheres, jovens, velhos ou quaisquer outros. Os problemas não se resolvem.


 


Servem para acordar consciências? Sim, mas elas voltam a adormecer de imediato. Doutra forma não se entende como é possível haver uma tal desigualdade no valor dos salários, maior ainda para empregos mais qualificados.


 


Em vez de rosas e juras de amor, era bem mais eficaz igualarem-se as remunerações, não as distinguindo por género mas por qualificação e mérito.

04 março 2018

Este país não é para jovens

Maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa


(…) o preço das casas antigas sofreu um novo aumento (9,2%), mais elevado que o preço das casas novas (3,5%) subindo em média 7,1% em 2016 e 7% apenas no primeiro trimestre de 2017”. (…)


(…) “A autonomia passa muitas vezes por uma vida independente que é ter habitação própria e os jovens com o dinheiro que auferem não têm acesso à habitação, as rendas são muito elevadas”, disse Eugénio Fonseca, sublinhando que, nos últimos anos, o valor das rendas em bairros antigos aumentou 20%. (…)


(…) “As oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008. Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem, muitos deles emigraram a as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”, sublinha. (…)


 


Jovens ganham menos do que há 10 anos


(…) E não se pense que a qualificação superior é garantia de incrementos salariais ou bons rendimentos futuros. Em Portugal, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido, do que há uma década. São, de resto, os trabalhadores mais castigados nestes dez anos que passam desde a crise financeira.


Em 2008, um licenciado auferia, em termos reais, um salário médio líquido de €1504 nas empresas nacionais. Hoje, não vai além dos €1237. Desde 2009, altura em que um licenciado leva, em termos reais, para casa uma média de €1518 mensais líquidos que os salários dos profissionais mais qualificados estão queda. Na verdade, nem em 1998 um profissional qualificado ganhava tão pouco como agora. Nessa altura, ser detentor de uma qualificação superior garantia, pelo menos, €1531 mensais líquidos. Feitas as contas, o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores com qualificação superior diminuiu, em termos reais, 19,2%. (…)


(…) a maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa. O desemprego — que apesar de estar a diminuir, se mantém elevado para os jovens, 22,2% (ver caixa) —, os empregos precários, os contratos irregulares e os baixos salários, argumenta o estudo, “fazem com que seja muito difícil para um jovem conseguir suportar os custos de habitação”. O estudo comprova que “as oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008” e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, reforça que “Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem e as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”. (…9


O argumento do presidente da Cáritas Portuguesa remete para a perda real de 17,7% de rendimento salarial médio mensal líquido entre os licenciados, face a 2008, apurada pelo Expresso com base nos dados do INE. (…)

Ausencia


Cesária Évora


Teofilo Chantre & Goran Bregović


 


 


Si asa um tivesse


pa voa na esse distancia


Si um gazela um fosse


pa corrê sem nem um cansera


 


Anton ja na bo seio


um tava ba manchê


e nunca mas ausencia


ta ser nôs lema


 


Ma sô na pensamento


um ta viajà sem medo


nha liberdade um tê'l


e sô na nha sonho


 


Na nha sonho miéforte


um tem bô proteção


um tem sô bô carinho


e bô sorriso


 


Ai solidäo tô'me


sima sol sozim na céu


sô ta brilhà ma ta cegà


Na sê clarão


sem sabe pa onde lumia


pa ondê bai


Ai solidão é um sina

Linha de Separação

Desde há muito tempo que não seguia séries na televisão. Há muitos anos mesmo. Mas nos últimos tempos, com as excelentes séries que têm passado na RTP2, esse hábito vem-se instalando.


 



 


Primeiro com Nobel, uma série norueguesa que conta uma falhada negociação política entre a Noruega e o Afeganistão, numa tentativa de fazer um acordo de paz que servisse os vários grupos de talibãs, depois com esta Linha de Separação, redescubro a vontade de me sentar em frente ao televisor, ansiosa por ver a continuação da história.


 


Esta série tem como centro uma aldeia que ficou dividida ao meio pela guerra fria, logo após o fim da II Guerra Mundial. Está muitíssimo bem feita, transportando-nos a um tempo que não é assim tão longínquo, mas que quase parece inventado. A transformação dos fanáticos nazistas em fanáticos comunistas, os oportunistas, os que vivem numa nuvem ideológica, apercebendo-se duramente da mistificação, a forma como se doutrinavam as pessoas desde a mais tenra idade, tudo nos devolve a inquietação pelo que pode ser a instalação de uma ditadura duríssima, mesmo após a queda de outra, não menos dura. E tudo em nome do povo.


 



 


E agora voltamos a outra série norueguesa, que promete - Ocupados.


 


Medicina - Ciência ou Fé

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A chamada medicina tradicional chinesa foi e é equiparada a uma paramedicina. Significa isto que os métodos usados para interpretar os processos fisiológicos e fisiopatológicos, diagnosticar doenças e receitar tratamentos não são baseados no método científico mas na observação, interpretação de humores e uso empírico de remédios de vários tipos, fruto da experiência milenar dos curandeiros.


 


Por muito respeito que tenha pelas culturas milenares e pelos curandeiros experientes, isso não transforma a medicina tradicional chinesa, portuguesa, finlandesa, escocesa ou indiana numa ciência. Não nos confundamos com o que é a crença de cada um e das populações, que têm todo o direito a tê-las, com ciência. O mundo ocidental tem conseguido uma notável melhoria na saúde, controlando epidemias, erradicando algumas, curando infecções e cancros, usando os métodos que podem reproduzir resultados, perante as mesmas circunstâncias.


 


Tudo o que a chamada sabedoria popular tem, e que é muito, deve ser investigado e incorporado na prática clínica, após devidamente comprovado e aprovado. É assim que princípios activos de plantas ditas medicinais acabam em medicamentos. Assim se promove e defende a saúde pública, se melhora a qualidade de vida e se aumenta a esperança de vida das populações. Não se pode confundir a liberdade individual que cada um de nós tem de procurar as alternativas que quiser com uma política de Estado que mistura práticas pseudocientíficas com as científcas.


 


Muitas conclusões se tiram à luz dos conhecimentos existentes numa determinada época que, posteriormente, são desmentidas e revertidas, pois descobrem-se outras evidências. A leucotomia pré-frontal que deu o prémio Nobel a Egas Moniz, hoje não é praticada. Há, infelizmente, muitos negócios escuros e muita propaganda que descredibilizam muitas soluções e põem em causa muitos dogmas. Mas a ciência é isso mesmo, desafiar as verdades estabelecidas para descobrir novas soluções.


 


As modas actuais do regresso à natureza com comidas e estilos de vida totalmente disparatados, apenas são isso mesmo – modas do mundo ocidental que procura formas de estimular consumos e vender produtos disfarçados de ideias. Não podem ser assumidas como políticas num Estado que tem obrigação de defender os cidadãos.


 


Acho muito bem que se regulamentem as medicinas paralelas, sejam elas quais forem. Mas equipará-las à medicina é misturar ciência com fé. É um péssimo serviço que se presta aos cidadãos e além disso perigoso. A moda da não vacinação já está a mostrar os seus resultados. Não me parece que os humores e as energias de cada um, por muito positivas que sejam, impeçam a infecção pelo vírus do sarampo e, neste momento, há pessoas a morrer e a infectar outras porque decidiram não vacinar os filhos. Podemos também deixar de usar tuberculostáticos e passar apenas a comer melhor e a respirar ar puro. Era assim que tanta gente voltava a morrer de tuberculose.


 


Este é um assunto sério e grave. O SNS vai colocar nos seus quadros os futuros licenciados em Medicina Tradicional Chinesa? E a Universidade do Minho vai abrir um pólo em Vilar de Perdizes?


 


Nota: Vale a pena ler o artigo Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...