À entrada do campo
No meio de um paraíso florestal, do ar e do canto dos pássaros, esconde-se um dos espaços das ruínas do espírito humano.
O campo de concentração de Natzweiler-Sturdhof, construído junto a afloramentos de granito rosa, foi construído pelos alemães precisamente para a sua exploração. Nada melhor que juntar o agradável - a estância turística onde se praticava sky - ao útil – campo de internamento e trabalhos forçados para presos de delito comum, presos políticos, prisoneiros de guerra, resistentes e, por fim, judeus.
Campo de concentração
Campo de detenção, de morte, de fome, de tortura, de experiências pseudocientíficas com agentes químicos e para recolha de cadáveres com o objectivo de fornecer esqueletos de judeus para a uma colecção para o Instituto de Anatomia da Reichsuniversität Straßburg. Escolherem-se pois 115 judeus, homens e mulheres, 86 dos quais morreram na câmara de gás existente no campo.
À entrada do museu
O museu tem uma mostra dos vários campos de concentração e extermínio, com alguns dados sobre cada um, inclusivamente a estimativa de mortos por campo. Observam-se ainda as reproduções de desenhos efectuados por Henri Gayot, um pintor e professor de pintura deportado para este campo após ser capturado pelas suas actividades na Resistência francesa. Depois há o campo, como os socalcos onde se localizavam as barracas dos deportados, o crematório, a prisão – sim, também havia uma prisão – o arame farpado, as torres de vigia, a porta de entrada sinistra, e a câmara de gás, afastada cerca de 1 Km do campo.
Henri Gayot
Há um silêncio que nos incomoda, pesado, aflito e de culpa, mesmo que já tenham passado gerações após estas atrocidades. Não sei se é compreensível como foi possível a seres humanos submeterem outros seres humanos a este tipo de crueldade, até porque a achavam natural e não a consideravam crime. O que pensavam? Como dormiam, comiam, amavam os seus filhos, os seus amantes, os seus semelhantes? Como poderiam aceitar tais horrores?
E mais assustador e incompreensível ainda é o facto de continuar a existir, tal como nessa época e nos muitos séculos anteriores, um doentio racismo larvar, uma xenofobia persistente que, mal se fazem sentir os rigores das crises financeiras e sociais, renascem das névoas invisíveis mas permanentes que assolam os corações dos povos.
Combater a penúria, a fome, a crise, o egoísmo, o racismo, a xenofobia, contribuir para uma efectiva cultura de solidariedade e tolerância, de respeito pelas diferenças sem abafar nenhuma minoria ou maioria, sem perder as características identitárias, e mostrar o que se passou, com rigor, sobriedade e verdade, mas sem ceder à preguiça de nos escondermos dos horrores pelos quais, com mais ou menos consciência, fomos de certa forma cúmplices, mesmo que em tempos e de maneiras distintas. A divulgação do que se passou no regime nazi, como em todos os totalitarismos, é obrigatório e deve ser uma preocupação permanente. Porque é de tal forma inacreditável que podemos mesmo enterrar esse conhecimento no mais fundo das nossas consciências. É muito mais fácil.