Forte de Schoenenbourg
A linha Maginot é uma estrutura defensiva que a França construiu após o fim da I Guerra Mundial, imaginada como uma espécie de upgrade da guerra de trincheiras, mas desta vez de betão, pensada e planeada para manter uma grande quantidade de tropas, desde os soldados aos seus comandantes, com todas as infra-estruturas necessárias. Era constituída por vários fortes ao longo da fronteira franco-alemã. Um deles foi o Forte de Schoenenbourg.
Não foi muito fácil lá chegar, pois as indicações eram escassas e pouco claras. Mas com GPS, mapas e atenção, lá chegámos. Na bilheteira uma jovem rapariga, cujo copain é português, avisou-nos de que deveríamos contar com 1,5 a 2 horas de visita. A descida pelo elevador, embora opcional (há escadas), levou-nos a cerca de 30 metros de profundidade.
É difícil descrever a sensação meio claustrofóbica, mesmo sendo os corredores amplos, que experimentei. No chão dois carris por onde passavam as carruagens eléctricas, para transporte de equipamentos, armas, munições, comestíveis e, provavelmente, pessoas. Nas paredes laterais, a todo o comprimento daqueles corredores um pouco labirínticos, cabos de electricidade, telefónicos, etc. Depois percorremos as instalações dos soldados, camaratas, cozinhas, despensaa, farmácias, enfermarias, alojamentos dos oficiais, postos de comando, prisão, capela e casa mortuária, nada tinha sido esquecido.
Após alguns quilómetros percorridos, no lado oposto, ficavam os blocos de bombardeamento, onde se encontravam os vários locais (6) com a maquinaria para bombardear e observar, abaixo de umas cúpulas semiesféricas que se vêm de fora.
É extraordinário o esforço de construção daquelas estruturas, não só o planeamento mas também a execução, a enorme quantidade de recursos que ali foram empregues, e que se revelaram totalmente inúteis. Aquilo que, quem imaginou e decidiu a sua construção, previa como uma especialização da guerra de trincheiras, errou totalmente pois na II Guerra Mundial as trincheiras estavam obsoletas. É quase inacreditável percorrer aquela cidade militar subterrânea, imaginando a azáfama, a preparação, a tensão, a vida sem ar nem luz, que nunca depois se concretizou, nunca chegando a defender a França contra o seu agressor que, pelo seu lado, fez uma coisa semelhante – a linha Siegfried.
Murais feitos pelos soldados
Quando ouvimos tantas previsões para o futuro, em relação a energias renováveis, carros eléctricos, etc., convém lembrarmo-nos de que há muitas previsões que nunca se concretizam. Na verdade é muito complicado saber e decidir para onde se devem concentrar os esforços de desenvolvimento de uma qualquer ideia de futuro. Há quem acerte, de facto, mas são raros os que o conseguem e muitos os que o não fazem. Além disso, quantos recursos se não desviaram de outros investimentos bem mais úteis, até mesmo militares?
Foi uma visita longa, um pouco cansativa, que me deixou com um mal-estar difuso e a certeza da inutilidade de tantas construções humanas. Lembrei-me ainda de um programa que ouvi há algumas semanas - Um certo olhar, na Antena 2, em que se falava de Turismo Negro. Discordei de muito do que foi dito nesse programa, pois penso que é muito importante que se visitem e estudem estes locais (assim como Oradour-sur-Glane, campos de concentração, etc.) para que nunca nos esqueçamos da pequenez, da crueldade, da loucura, mas também da grandeza de que somos capazes. Por outro lado concordo que se deve manter este tipo de visitas com grande rigor e sobriedade, não permitindo que se transformem em locais de brincadeiras de mau gosto.
Cruzámo-nos com um grande grupo de miúdos italianos, aí com os seus 14 anos que, ao aperceberem-se da nossa proveniência lusitana, nos cumprimentaram efusivamente ao som de Cristiano Ronaldo e Euro 2016 – o futebol como ícone nacional.
O dia acabou calmamente, a jantar muito bem no Hotel, em que a tarte de maçã e ruibarbo e a eau de vie Gewurztraminer foram uns verdadeiros pontos altos. E, ao contrário do que tinha acontecido na noite anterior, num quarto quentíssimo e abafado, a noite foi reconfortante, dormindo o sono dos justos.
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