... VOTE
Não vá em cantigas de adormecer, não se dobre ao desânimo nem à descrença. O seu voto conta, tanto quanto o de cada um de nós, e todos juntos mudaremos o que quisermos.
Ainda vai a tempo. Não se divorcie do seu País.
VOTE
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
... VOTE
Não vá em cantigas de adormecer, não se dobre ao desânimo nem à descrença. O seu voto conta, tanto quanto o de cada um de nós, e todos juntos mudaremos o que quisermos.
Ainda vai a tempo. Não se divorcie do seu País.
VOTE
É mesmo muito importante. Como sempre.
Hoje é a nossa vez. A nossa voz.
Hoje, sem demora, após o cafezinho da manhã.
Numa mesa de voto. Somos nós a democracia.
1.
Crescemos em poemas trilhados de plenitude
os nossos olhos virados para dentro
nas mãos traçadas de infinito
escolhos do quotidiano embaraços de existir
secretas armas de arremesso
geminadas de contrários tórridos e celestes.
Crescemos plenos de incertezas e agruras
na terra as sementes do fortuito desempenho
no amor que espalhamos no amor que trituramos
debulhadas as arestas na suavidade das manhãs
protegidos pela dolência dos poemas
alimento e mortalha da vida que lavramos.
2.
Já me atirei contra o tempo
desfeita de névoa e espuma.
Agora encolho e definho
para que o tempo se resuma
e me consuma
no caminho.
Reduzo o espaço que ocupo
num tempo que se dilata
concentro o corpo e a alma
num mundo que desidrata
recolho membros e voz
afundo em forma de esfera
marco infinitas distâncias
grão de pó numa cratera.
Masao Yamamoto
1.
Entre beijos e palavras o dia começa morno.
Nem o gelo do mundo nem a vergonha do dia
que ainda se demora suspende estes instantes
nem surpreendem
a nossa vida.
2.
Entreabrimos a porta ao perfume
dos pequenos gestos com que construímos
uma segurança dúbia e débil uma conhecida
e certificada geografia de afectos
de vez em quando riscada
por um grito de susto
ou de êxtase.
3.
Naquela esquina em que a estrada
se acinzenta já não há banco de jardim
nem sombra de incertezas inaugurais.
Apenas o que seremos
no destino mortal que diariamente
enfrentamos adiamos
e desconhecemos.
Pablo Picasso, 1915
Violin
Misturo três dedos sete olhos
Adubo a terra dos lamentos
Arrebanho santos e escolhos
Vomito sonhos lamacentos
Ai de mim que me enxovalho
E viro o mundo do avesso
Ai de mim que me atrapalho
Pelas pontes que atravesso
Lambo a nudez das avenidas
Escancaradas as vergonhas
Sobram carnes intumescidas
Lavrando rios de peçonhas
Ai de mim que me emporcalho
Na vertigem descoberta
Ai de mim que assim me espalho
E me encontro em parte incerta
Pillowman Trilogy
Paula Rego
Tenho alguma relutância em falar de certos assuntos. Cada vez me custa mais ver determinado tipo de filmes, violentos e deprimentes, com o que considero ser violência gratuita. Penso que necessitamos de beleza, de esperança e de acreditar que nem tudo é mau, perecível, mesquinho, cruel, inevitável.
Ao mesmo tempo sinto que estamos a ser invadidos por uma cultura que transforma tudo em acontecimentos amorosos, melosos e ternurentos, mascarando a verdadeira natureza das coisas, lançando véus de açúcar e nuvens de algodão que nos impedem de perceber a vida tal como ela é e nos mantêm numa espécie de bolha etérea que mais tarde ou mais cedo rebentará, deixando-nos órfãos e sem armas para a enfrentarmos.
No mundo que me rodeia há pessoas feias, cansadas, gordas, desmazeladas, com varizes e joanetes, que chegam ao cimo das escadas arfantes, que têm dificuldade em encontrar roupa nas lojas normais, que se olham pouco ao espelho para não se deprimirem. Homens e mulheres cujas doenças e sofrimentos não se acompanham de melopeias mas de vómitos, de diarreia, de camas desarrumadas e cheiro fétido nos quartos, de cabelos desgrenhados e casas de banho sem aquecimento nem pétalas de rosa, de uivos de cães e irritações várias com os vizinhos. Homens e mulheres que vivem, amam, odeiam e morrem todos os dias, com sol e com chuva, com uma vida feita de rotinas, obrigações e compromissos e que aprenderam a aceitar e a ultrapassar os seus defeitos, as suas deformações, o seu inevitável depauperamento com um sorriso raro, com o aconchego do silêncio partilhado, com o conforto da intimidade conhecida, com o fogo dos corpos que reacendem e apagam.
Não é mau nem é bom. Apenas é.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...