10 janeiro 2016

Da natureza das coisas

pillowman paula rego.jpg


Pillowman Trilogy


Paula Rego


 


Tenho alguma relutância em falar de certos assuntos. Cada vez me custa mais ver determinado tipo de filmes, violentos e deprimentes, com o que considero ser violência gratuita. Penso que necessitamos de beleza, de esperança e de acreditar que nem tudo é mau, perecível, mesquinho, cruel, inevitável.


 


Ao mesmo tempo sinto que estamos a ser invadidos por uma cultura que transforma tudo em acontecimentos amorosos, melosos e ternurentos, mascarando a verdadeira natureza das coisas, lançando véus de açúcar e nuvens de algodão que nos impedem de perceber a vida tal como ela é e nos mantêm numa espécie de bolha etérea que mais tarde ou mais cedo rebentará, deixando-nos órfãos e sem armas para a enfrentarmos.


 


No mundo que me rodeia há pessoas feias, cansadas, gordas, desmazeladas, com varizes e joanetes, que chegam ao cimo das escadas arfantes, que têm dificuldade em encontrar roupa nas lojas normais, que se olham pouco ao espelho para não se deprimirem. Homens e mulheres cujas doenças e sofrimentos não se acompanham de melopeias mas de vómitos, de diarreia, de camas desarrumadas e cheiro fétido nos quartos, de cabelos desgrenhados e casas de banho sem aquecimento nem pétalas de rosa, de uivos de cães e irritações várias com os vizinhos. Homens e mulheres que vivem, amam, odeiam e morrem todos os dias, com sol e com chuva, com uma vida feita de rotinas, obrigações e compromissos e que aprenderam a aceitar e a ultrapassar os seus defeitos, as suas deformações, o seu inevitável depauperamento com um sorriso raro, com o aconchego do silêncio partilhado, com o conforto da intimidade conhecida, com o fogo dos corpos que reacendem e apagam.


 


Não é mau nem é bom. Apenas é.

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