24 janeiro 2016

Ainda vai a tempo...

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... VOTE 


 


Não vá em cantigas de adormecer, não se dobre ao desânimo nem à descrença. O seu voto conta, tanto quanto o de cada um de nós, e todos juntos mudaremos o que quisermos.


 


Ainda vai a tempo. Não se divorcie do seu País.


 


VOTE

E agora, ao voto

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Para quem tem dúvidas


 


É mesmo muito importante. Como sempre.


Hoje é a nossa vez. A nossa voz.


 


Hoje, sem demora, após o cafezinho da manhã.


Numa mesa de voto. Somos nós a democracia.


 

23 janeiro 2016

Sementes

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Gowri Savoor


 


1.


Crescemos em poemas trilhados de plenitude


os nossos olhos virados para dentro


nas mãos traçadas de infinito


escolhos do quotidiano embaraços de existir


secretas armas de arremesso


geminadas de contrários tórridos e celestes.


 


Crescemos plenos de incertezas e agruras


na terra as sementes do fortuito desempenho


no amor que espalhamos no amor que trituramos


debulhadas as arestas na suavidade das manhãs


protegidos pela dolência dos poemas


alimento e mortalha da vida que lavramos.


 


2.


Já me atirei contra o tempo


desfeita de névoa e espuma.


Agora encolho e definho


para que o tempo se resuma


e me consuma


no caminho.


 

22 janeiro 2016

Buraco negro

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Orestes Grediaga


 


Reduzo o espaço que ocupo


num tempo que se dilata


concentro o corpo e a alma


num mundo que desidrata


recolho membros e voz


afundo em forma de esfera


marco infinitas distâncias


grão de pó numa cratera.


 

17 janeiro 2016

Suspender

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Masao Yamamoto


 


 


1.


Entre beijos e palavras o dia começa morno.


Nem o gelo do mundo nem a vergonha do dia


que ainda se demora suspende estes instantes


nem surpreendem


a nossa vida.


 


2.


Entreabrimos a porta ao perfume


dos pequenos gestos com que construímos


uma segurança dúbia e débil uma conhecida


e certificada geografia de afectos


de vez em quando riscada


por um grito de susto


ou de êxtase.


 


3.


Naquela esquina em que a estrada


se acinzenta já não há banco de jardim


nem sombra de incertezas inaugurais.


Apenas o que seremos


no destino mortal que diariamente


enfrentamos adiamos


e desconhecemos.


 

16 janeiro 2016

Parte incerta

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Pablo Picasso, 1915


Violin


 


Misturo três dedos sete olhos


Adubo a terra dos lamentos


Arrebanho santos e escolhos


Vomito sonhos lamacentos


 


Ai de mim que me enxovalho


E viro o mundo do avesso


Ai de mim que me atrapalho


Pelas pontes que atravesso


 


Lambo a nudez das avenidas


Escancaradas as vergonhas


Sobram carnes intumescidas


Lavrando rios de peçonhas


 


Ai de mim que me emporcalho


Na vertigem descoberta


Ai de mim que assim me espalho


E me encontro em parte incerta


 

10 janeiro 2016

Da natureza das coisas

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Pillowman Trilogy


Paula Rego


 


Tenho alguma relutância em falar de certos assuntos. Cada vez me custa mais ver determinado tipo de filmes, violentos e deprimentes, com o que considero ser violência gratuita. Penso que necessitamos de beleza, de esperança e de acreditar que nem tudo é mau, perecível, mesquinho, cruel, inevitável.


 


Ao mesmo tempo sinto que estamos a ser invadidos por uma cultura que transforma tudo em acontecimentos amorosos, melosos e ternurentos, mascarando a verdadeira natureza das coisas, lançando véus de açúcar e nuvens de algodão que nos impedem de perceber a vida tal como ela é e nos mantêm numa espécie de bolha etérea que mais tarde ou mais cedo rebentará, deixando-nos órfãos e sem armas para a enfrentarmos.


 


No mundo que me rodeia há pessoas feias, cansadas, gordas, desmazeladas, com varizes e joanetes, que chegam ao cimo das escadas arfantes, que têm dificuldade em encontrar roupa nas lojas normais, que se olham pouco ao espelho para não se deprimirem. Homens e mulheres cujas doenças e sofrimentos não se acompanham de melopeias mas de vómitos, de diarreia, de camas desarrumadas e cheiro fétido nos quartos, de cabelos desgrenhados e casas de banho sem aquecimento nem pétalas de rosa, de uivos de cães e irritações várias com os vizinhos. Homens e mulheres que vivem, amam, odeiam e morrem todos os dias, com sol e com chuva, com uma vida feita de rotinas, obrigações e compromissos e que aprenderam a aceitar e a ultrapassar os seus defeitos, as suas deformações, o seu inevitável depauperamento com um sorriso raro, com o aconchego do silêncio partilhado, com o conforto da intimidade conhecida, com o fogo dos corpos que reacendem e apagam.


 


Não é mau nem é bom. Apenas é.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...