08 novembro 2015

A hora da verdade (2)

No seguimento do post anterior, se se confirmar a rejeição em bloco do governo de Passos Coelho no Parlamento, não é certo que Cavaco Silva emposse António Costa.


 


O Presidente pode manter o governo em funções de gestão, se considerar que, embora exista um acordo para a legislatura com o BE, o PCP e o PEV, este não assegura a estabilidade para um governo de 4 anos. Neste caso o Presidente condicionará a actuação do seu sucessor, obrigando-o a convocar eleições imediatamente após a sua posse. Por outro lado a coligação de esquerda poderá ganhar votos com a eventual vitimização pela situação criada.


 


Mas se o Presidente decidir aceitar as garantias desse (ainda inexistente) acordo entre os 4 partidos, será o PAF que se vitimizará e tudo fará para pressionar o próximo Presidente a convocar eleições antecipadas. Toda a campanha presidencial será à volta deste tema. Os candidatos serão obrigados a pronunciar-se sobre a sua opção, caso ganhem as eleições. E o tempo do PS no governo será muito escasso para que, de alguma forma, consiga provar que é, de facto, uma alternativa ao pensamento único da direita.


 


Seja qual for a sua decisão, Cavaco Silva será criticado por cerca de metade da população. Por sua inteira responsabilidade.

A hora da verdade (1)

À hora em que escrevo este post ainda não há um acordo de compromisso para a legislatura assinado com o PCP. Ou seja, ainda não é certo que António Costa tenha uma proposta alternativa a apresentar ao Presidente Cavaco Silva, honrando a sua promessa de só rejeitar o governo da coligação PSD/ CDS se obtiver um documento escrito em que os partidos de esquerda asseguram a estabilidade governativa do PS no Parlamento.


 


Se o PCP não assinar o acordo, veremos se o PS mantém a sua decisão e se, depois de toda esta reviravolta, o governo de Passos Coelho não acabará por passar na Assembleia da República. Neste cenário o PCP será acusado de inviabilizar o governo de esquerda e será altamente penalizado numas próximas eleições. Pelo contrário, o PS e o BE capitalizarão e reforçarão o seu eleitorado e será óbvio, como o foi até 4 de Outubro, que para eleger um governo de esquerda o voto no PCP é um desperdício.


 


Se o PCP assinar o acordo, Cavaco Silva terá nas suas mãos a decisão que, qualquer que seja, desagradará a cerca de metade da população.

06 novembro 2015

Das democracias amputadas

O que se tem ouvido e lido sobre o resultado das eleições de 4 de Outubro e da consequente formação de governo é indicativo da subalternização da política e da deriva antidemocrática dos últimos anos.


 


Ao arrepio dos resultados eleitorais, as mais variadas vozes vindas de sectores empresariais e políticos, que se instalaram na sociedade e têm usufruído da ideologia dominante desde a crise de 2008, avisam os incautos sobre a inevitabilidade do caos caso se encontre uma alternativa de governo com apoio parlamentar da ala esquerda da Assembleia da República, ou decretando que a única atitude legítima e democrática do PS é viabilizar e aceitar as propostas e os acordos que a direita lhe propuser.


 


Se podermos pensar com o mínimo de distância, não compreendemos a causa da obrigação do PS em negociar apenas à direita como decreto resultante de ter perdido as eleições legislativas, como segundo partido mais votado. Independentemente do que possamos pensar sobre a viabilidade da solução governativa com o apoio parlamentar do BE e do PCP, o que se estranharia seria a prioridade dada pelo PS às negociações com o PAF, depois das declarações de António Costa relativas à negação do conceito dos partidos do arco da governação e de tudo o que o PS e a coligação de direita disseram durante a campanha. Será que os representantes eleitos estão impedidos de escolher com quem podem ou não fazer entendimentos, protocolos e alianças?


 


E quanto à divulgação dos entendimentos, do programa do eventual governo socialista e dos seus compromissos, a que propósito é que se exige conhecimento deles antes de estarem finalizados? Quando é que foram disponibilizados os compromissos entre o PSD e o CDS após as eleições de 2011? E será que desses compromissos constava a aprovação de todos os Orçamentos de Estado da legislatura?


 


Mantenho as minhas reservas e o meu cepticismo em relação à solução preconizada pelo PS. Penso que é uma manobra de alto risco, principalmente para o próprio PS. Considero no entanto que a campanha mediática a que temos assistido, liderada pelos pseudo jornalistas comentadores e afins, obedientemente mandatados pela coligação PSD/ CDS, mostra bem o conceito que têm de democracia - só são aceitáveis e só se aceitam governos de direita. As opções dos cidadãos resumem-se a não terem opção.


 


Uma nota final para a forma lamentável e indigna como muitos se têm referido a Francisco Assis, um homem frontal e que assume as suas opiniões. É muito triste ler os comentários que num estilo absolutamente troglodita, pululam no facebook.

23 outubro 2015

Um dia como os outros (165)

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(...) Ou seja: Cavaco não usou justificações democráticas e constitucionalmente sustentadas. Pelo contrário, adotou uma postura autocrática, tornando claro a uma parte do país que o seu voto e ideias cheiram mal - parte do país que, curiosamente, serviu para derrubar em 2011 um governo contra o qual reclamou "um sobressalto cívico". Para Cavaco, BE e PCP só dão jeito para deitar abaixo governos, nunca para os sustentar. E se os portugueses decidiram nas urnas virar a página, Cavaco cá está para lhes emendar a mão. Independentemente da vontade dos eleitores, o homem que ocupa Belém com a mais baixa votação e pior aprovação de sempre quer impor a sua, brandindo, como tantos, de Avillez a Barreto, fizeram nos últimos dias, a sua moca de Rio Maior. Ganha a verdade e a clareza, se tivéssemos dúvidas. Mas alguém devia lembrar ao PR que quem subiu à Fonte Luminosa foi o PS, e Costa esteve lá.


 


Fernanda Câncio

Da Presidencial Instabilidade Institucional

Cavaco Silva é hoje o maior factor de instabilidade política no País. Ao contrário daquilo que deve ser a postura de um Presidente, Cavaco Silva usou o seu lugar e o poder que a Constituição e o voto universal lhe conferem para amplificar as fracturas na sociedade e as tensões partidárias ao recusar liminarmente a hipótese de dar posse a um governo apoiado nos partidos de esquerda Parlamentar.


 


Cavaco Silva, do alto do seu azedume, destilou desprezo pelos partidos e, consequentemente, pelos cidadãos, que não cumpriram os seus desejos. Para Cavaco Silva o PS tinha a obrigação de apoiar e de se comprometer com a coligação de direita. Ignorando as suas próprias palavras, já de si abusivas e desestabilizadoras, de apenas dar posse a um governo com apoio maioritário, destratou institucionalmente o Parlamento, os Deputados e os eleitores que tiveram a ousadia de não concordar com ele.


 


Mais grave ainda, apoucou o País perante o exterior, condenando-o ao descrédito anunciado de uma hipótese executiva fora da sua esfera partidária.


 


Cavaco Silva prestou um péssimo serviço ao País e à democracia. É ele o maior foco de instabilidade nacional. Se, como tudo indica, o governo de Passos Coelho cair no Parlamento e António Costa tiver uma solução maioritária, será que vai manter a sua posição como líder da direita e manter o governo em gestão?


 


É difícil imaginar pior Presidente que este.

22 outubro 2015

Do meu próprio inconseguimento (3)

Perplexidade crescente perante o desenrolar da situação política. Se antes das eleições não sonhava com a reviravolta do PCP e do BE, após as eleições não acreditei na hipótese de uma plataforma de apoio parlamentar a um governo liderado pelo PS, que se referisse a uma legislatura. Estamos a ser surpreendido pelo anúncio de um pré acordo entre o PS, BE e PCP, embora faltem (ainda) os detalhes e as necessárias formalizações.


 


A capacidade que tenho em absorver tanta novidade é limitada, tenho que o admitir. Tanta revolução em menos de 1 mês é difícil de digerir. Não sei muito bem se esta conversão à democracia e aos valores do compromisso da parte do BE e do PCP são mesmo para levar a sério. Não sei muito bem em que condições o PS conseguirá levar a bom porto um acordo com tantas incógnitas e detractores, dentro do próprio PS.


 


Por outro lado, sinto-me bastante desconfortável em ter um Primeiro-ministro que perdeu as eleições e não se relegitima como líder do seu partido. As opções tomadas são todas democráticas e constitucionais, mas seriam mais claras e dar-lhe-iam uma muito maior força política, de que muito necessita, para aguentar um governo de coligação inédito na nossa vida democrática, se fossem confirmadas pelos militantes e simpatizantes do PS.


 


Mais incomodada fico com os ataques viperinos que se fazem aos que, dentro do PS, não concordam com a solução de António Costa, assumindo-o publica e abertamente. Já li acusações ignóbeis a Francisco Assis, por exemplo, apenas porque não acredita nas boas intenções do BE e do PCP, recentemente convertidos à democracia. Convenhamos que há bastas razões para estarmos cépticos e descrentes num governo à esquerda, que não captura e não prenda o PS no seu próprio labirinto.


 


A democracia tem formalidades que se devem cumprir e eu sou totalmente a favor delas - é o partido que ganha que deve formar governo. Depois disso será o Parlamento a decidir e todos assumirão as suas responsabilidades. O agitar dos fantasmas e do regresso ao passado da troika, a fuga de capitais e o pânico das bolsas, são bem uma demonstração do nervosismo da direita.


 


Aguardemos a comunicação do Presidente Cavaco Silva, refém das suas palavras e condições. Enfim, inconseguimentos atrás de inconseguimentos, uma coisa é certa - nada será como dantes.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...