08 julho 2013

Férias

 



 


Trouxe duas, para ela e para a mãe. Já estava no aeroporto e quando viu as pequenas chávenas de metal, engalanadas pela bandeira americana, achou que nela poderia tomar o seu café diário.


 


Desde esse dia que, aos fins-de-semana, não há nada que melhor lhe saiba que fazer o seu tabuleiro com o pote de café e a parca porção de pão com manteiga ou queijo, para os saborear vagarosamente sentada na cama, a televisão baixinho, gozando o facto de não ter que se levantar para o trabalho.


 


Tal como agora, as férias acabam por ser estes pequenos gozos matinais, tardes de preguiça, livros que abre quando lhe apetece.


 

07 julho 2013

Das dúvidas perenes

 


Vamos a eleições? Pois bem, talvez seja altura de haver resposta a algumas perguntas:




    1. Alguém já percebeu o que António José Seguro fará, como Primeiro-ministro, em relação aos subsídios que foram retirados? Aos anunciados cortes da função pública? Ao confisco dos rendimentos dos pensionistas, ao alargamento dos horários de trabalho pelo mesmo salário? Aos enormes e colossais impostos, do IRS ao IVA, passando pelo IRC? Qual será a sua política de alianças, quais os termos e as bases mínimas necessárias para as fazer? O que pensa da política educativa? Vai alterá-la e como? O que vai fazer na saúde? Reabre a MAC, altera a política do medicamento, reduz as taxas moderadoras, abre concursos, repõe as carreiras?



    2. E quanto às portagens, e quanto às PPP, e quanto às privatizações - qual a sua estratégia? E quanto à política energética, ao meio ambiente?



    3. E em relação à Europa e às eleições europeias, o que pensa, o que propõe? E quanto à troika, como vão ser as negociações, quais as metas, como vamos lá chegar?



    4. E o Presidente da República, quem será o candidato do PS? Não pensa ser esse um assunto primordial, agora que é preciso revitalizar e devolver à função presidencial o prestígio perdido?



    5. Quem são os ministeriáveis, dentro do PS e dos partidos com quem, supostamente, fará coligações ou acordos parlamentares?



 Não será ocasião de sermos esclarecidos?


 

Da impossível aliança à esquerda

 



 


Se houver eleições antecipadas, do que duvido imenso, pelo menos para já, os eleitores vão ver-se numa situação aflitiva para decidir em que partido votar. É isso o que demonstram as sondagens que têm sido feitas, dando conta da enorme percentagem de indecisos e de abstenções.


 


A tão almejada maioria de esquerda, que aritmeticamente é possível, será sempre impossível politicamente, enquanto forem estes os protagonistas das lideranças. Tal como ouvimos ontem na manifestação que pedia a demissão do governo, o BE e o PCP estão disponíveis para alianças se e só se for para romper com o memorando da Troika.


 


O PS negociou o memorando de entendimento, mesmo que tenha sido um memorando diferente do que foi posto em prática. O PS tem que honrar os compromissos do país, mesmo que renegociando o memorando, os juros, as metas e/ou o tempo para as alcançar. Portanto, onde está a possibilidade de alianças de esquerda para formação de governo?


 


Como sempre e para seu (nosso) infortúnio, o PS está condenado a estar sozinho. E com António José Seguro é impensável uma maioria absoluta. Este é outro dos bloqueios políticos no nosso país.


 

Da passagem de poderes

 



Público


 


Passos Coelho averbou a passagem do poder para o CDS, nesta fase da legislatura. Ao lado de um Paulo Portas contrito e silencioso, assumiu perante o país que um partido com cerca de 12% dos votos será aquele que governará, até a uma data incógnita. Passos Coelho nunca foi Primeiro-ministro – porque haveria agora de sê-lo?


 


O Presidente deve estar a suspirar de alívio. Esta solução dá-lhe a hipótese de adiar o inadiável. Temos governo para mais uns meses – até 2015? Até à noite dos resultados autárquicos? Até à tentativa de apresentar um orçamento para 2014?


 


Paulo Portas, entre saltos mortais e cambalhotas, conseguiu uma enorme vantagem para ele e para o seu partido. E para os eleitores – os militantes e os votantes do CDS? E o PSD vai aceitar a subalternidade? Ou está secretamente esfusiante porque amarrou a oposição intragovernamental à austeridade que aí vem?


 


As temperaturas vão manter-se elevadas e, nas praças de Lisboa, os manifestantes continuarão a pedir a demissão do governo. O desrespeito desta maioria pelas instituições é exemplar. A anulação auto imposta do Presidente mantém o espectáculo em permanência.


 

06 julho 2013

Da insolvência nacional

 


O melhor é acabarmos com essa coisa supérflua, excêntrica e despesista, que não passa de um fetiche de uma geração decadente e ultrapassada - eleições livres para que os cidadãos escolham os seus representantes.


 


Os mercados, as troikas e as comissões dos novos impérios decidem. Tudo será melhor e mais fácil, sem desperdícios nem estados gastadores, sem preguiça nem lazer, esse admirável mundo da competitividade e dos preços descartáveis do trabalho e dos trabalhadores. A liberdade é um luxo ao qual não temos acesso.


 


Quem não tem dinheiro não tem vícios.


 

Da gramática de rejeição

 


Foi uma semana em que vivemos todos uma realidade a um tempo suspensa e aventurosa. Replicaram-se ainda mais as certezas do total divórcio entre os que protagonizam as instituições do nosso regime democrático, e no qual teimosamente acredito, e o comum dos cidadãos, boquiabertos perante tanto disparate. O país é uma enorme sala de espectáculos e os actores representam um guião de tragicomédia de algum escritor medíocre.


 


Desde o Presidente refugiado em recados crípticos que só se explicam pela incapacidade de quem não sabe o que fazer, aos líderes dos partidos governamentais e do principal partido da oposição, aos representantes da uma Europa descredibilizada, desagregada e com tiques antidemocráticos, assistimos a passos de dança e cambalhotas acrobáticas, a declarações incríveis e vergonhosas.


 


Aliás os prefixos de negação estão na moda - ingovernável, inacreditável, intolerável, irrevogável, inadmissível, inenarrável, indigente, improvável, enfim, a linguagem do Verão presente está pejada de uma gramática de rejeição.


 


Está um calor abafante que esturrica. Podemos todos aguardar, no escuro das nossas casas, abrigados do irreal vítreo amarelo do Sol, a continuação desta triste telenovela.


 

02 julho 2013

Da inevitabilidade do destino

 


Pedro Passos Coelho passou para o CDS a responsabilidade de desfazer a maioria parlamentar no Parlamento. É a única estratégia que serve Cavaco Silva e que obrigará a convocação de novas eleições.


 


O que farão os restantes ministros do CDS? Aguardam para pedir a demissão?


 


É tempo de os verdadeiros democratas da esquerda se unam para destronar as suas lideranças partidárias - no PS, no PCP e no BE. É urgente que se comece a pensar no país. As eleições estão à porta e precisamos de um governo capaz, com gente capaz.


 


Também é urgente a definição do próximo candidato a Belém. Seria uma luz ao fundo do túnel e, quem sabe, pode ser ser preciso mais depressa do que pensamos.


 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...