19 agosto 2012

Esquerda transbordante

 



 


A esquerda grande, enérgica e presente, a tal que tem como objetivo um governo de esquerda, tem uma visão de democracia interna peculiar, visto que até indica sucessores e formas de sucessão.


 


Mas parece qua há algumas companheiras da esquerda enorme, que não estão assim tão confortáveis com esta solução da esquerda gigante.


 


18 agosto 2012

Novo amor


Maria Rita



A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.


Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.




A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.




15 agosto 2012

Doze sardinhas

 


Olhou para a travessa com doze sardinhas. Um exagero e um desperdício. Deveriam ter pedido uma dose para os dois. Dava e sobrava. Bem, sempre poderiam levar as que sobrassem para casa. Com um molho qualquer de cebolada dava uma refeição para um deles.


 


Deu-se conta de uma figura meio amarfanhada, uma sombra à sua frente. Um Homem um tanto curvado, de estatura média, a nadar dentro de uma camisa acinzentada e de umas calças puídas. Salmodiou algo incompreensível, num eslavo mesclado de sons portugueses, com gesto brando apontou para as sardinhas. Tinha fome.


 


Indicaram-lhe a cadeira ao lado e acenaram-lhe que se sentasse. Deram-lhe a salada e as sardinhas que restavam. O Empregado pôs-lhe na mesa um prato, um garfo e uma faca, aqueceu-lhe as sardinhas e encheu-lhe a travessa de batatas.


 


Levantou-se e agradeceu-lhes da mesma forma ininteligível. Deixou o prato totalmente limpo, apenas com os restos das cabeças das sardinhas. Encostados às ombreiras da porta, os Empregados comentavam que já há algum tempo que não aparecia e que, por vezes, era muito mal-educado. Mas desta vez, não tinha sido.

A crise no feminino

 



Chiara Bigatti


 


Elas deitam-se a fazer contas, dormem a sonhar com números e acordam a dividir.


Elas dividem-se entre a frutaria, o talho, os mercados, as marcas brancas.


Elas despedem as empregadas domésticas e impregnam-se do ser doméstico.


Elas aprendem a fazer pão, a demolhar feijão, a planear a refeição.


Elas inventam receitas, repartem a comida, enchem as lancheiras.


Elas desistem do cabeleireiro, do verniz das unhas, das águas-de-colónia.


Elas reciclam a roupa, lavam a roupa, passam a roupa.


Elas fazem bolos, compotas e carinho.


Elas transpiram, conspiram e suspiram.


Elas revoltam-se e resignam-se, resignam-se e revoltam-se.


Elas não têm trabalho e fartam-se de trabalhar.


Elas não têm salário nem direitos a reivindicar.


Elas deitam-se derrotadas e levantam-se esperançadas.


Elas perdem o que tinham e dão o que têm.


Elas deprimem-se, calam-se, entristecem.


Elas desenfeitam-se e enfeiam.


Elas desintegram-se.


 

14 agosto 2012

Preparativos para a época de Outono

 



 


Paulo Portas já começou a preparar a época pós férias da política nacional. Os dados do INE de hoje vão alimentando os sinais de crise governamental e da coligação, pois é cada vez mais evidente que os objectivos traçados por Passos Coelho e Vítor Gaspar, apesar da imposta austeridade, não serão atingidos. Pelo contrário, agravaram-se as condições, já de si bastante precárias, da população.


 


O Ministro dos Negócios Estrangeiros vai promovendo contactos (pouco) secretos com o líder da (inexistente) oposição. Virá aí (mais uma vez) um governo de salvação nacional/ bloco central?


 

13 agosto 2012

Lava

 



 


 


Sabemos das verdades que incomodam


mesmo sem consciência.


Impõem-se com uma perna amputada.


Podemos revolver a carne da alma


soterrar o fel e a lama


que elas permanecem


como a lava de um vulcão adormecido.


 

12 agosto 2012

Dar a cara

 



João Vasconcelos


Os objetivos foram atingidos, embora o sr. primeiro-ministro, na prática, tenho tido a mesma atitude que o sr. Presidente da República, ontem à noite, porque não quis dar a cara


 


Multiplicam-se estas manifestações totalmente injustificáveis em democracia. A intimidação seja de quem for, nomeadamente dos governantes, impedindo-lhes uma vida privada em segurança, como o que, nos últimos anos, tem acontecido, é uma afronta. Não se pode aceitar que, de cada vez que o Presidente, Passos Coelho ou qualquer outro ministro aflorem a rua, sejam vaiados, enxovalhados e ameaçados por gangs de pseudo activistas políticos, obviamente pertencentes a partidos de raiz e de práticas antidemocráticas.


 


Os cidadãos têm o mesmo direito de se manifestarem em liberdade que os governantes têm de se deslocarem na via pública, em paz e sossego. Quando são chamados a julgar os seus representantes, muitos dos que se calam agora e que murmuram bem-feito esquecem-se de ir votar, ou pura e simplesmente não se dão ao trabalho de o fazer.


 


A direita que nos governa deverá ser responsabilizada pelas opções e pelas medidas a que temos assistido, pela destruição do estado social, pelo empobrecimento do país, pelo aumento das desigualdades e pela recessão, mas nas urnas, de forma adulta, firme e inapelável.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...