15 agosto 2012

A crise no feminino

 



Chiara Bigatti


 


Elas deitam-se a fazer contas, dormem a sonhar com números e acordam a dividir.


Elas dividem-se entre a frutaria, o talho, os mercados, as marcas brancas.


Elas despedem as empregadas domésticas e impregnam-se do ser doméstico.


Elas aprendem a fazer pão, a demolhar feijão, a planear a refeição.


Elas inventam receitas, repartem a comida, enchem as lancheiras.


Elas desistem do cabeleireiro, do verniz das unhas, das águas-de-colónia.


Elas reciclam a roupa, lavam a roupa, passam a roupa.


Elas fazem bolos, compotas e carinho.


Elas transpiram, conspiram e suspiram.


Elas revoltam-se e resignam-se, resignam-se e revoltam-se.


Elas não têm trabalho e fartam-se de trabalhar.


Elas não têm salário nem direitos a reivindicar.


Elas deitam-se derrotadas e levantam-se esperançadas.


Elas perdem o que tinham e dão o que têm.


Elas deprimem-se, calam-se, entristecem.


Elas desenfeitam-se e enfeiam.


Elas desintegram-se.


 

2 comentários:

  1. ACÁCIO LIMA23:11

    ....... Elas "Vivem"., e desistem de "Sobreviver", mas não "Choram pelos Cantos".....

    Boa Noite.
    Bom Serão.
    Saudações de Sobrevivência de

    ACÁCIO LIMA

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  2. PINK09:24

    oS HOMENS TAMBÉM SOFREM...ÀS VEZES MAIS PROFUNDAMENTE,PARADOS E EM SILÊNCIO.
    arrumar,lavar, multiplicar, mimar,arranca-nos ao medo e à desgraça...é terapêutico! E até a sociedade aplaude.Foi assim que se construiu a função, e ela permanece, com alg. desvantagens para os homens...

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