15 agosto 2012

Doze sardinhas

 


Olhou para a travessa com doze sardinhas. Um exagero e um desperdício. Deveriam ter pedido uma dose para os dois. Dava e sobrava. Bem, sempre poderiam levar as que sobrassem para casa. Com um molho qualquer de cebolada dava uma refeição para um deles.


 


Deu-se conta de uma figura meio amarfanhada, uma sombra à sua frente. Um Homem um tanto curvado, de estatura média, a nadar dentro de uma camisa acinzentada e de umas calças puídas. Salmodiou algo incompreensível, num eslavo mesclado de sons portugueses, com gesto brando apontou para as sardinhas. Tinha fome.


 


Indicaram-lhe a cadeira ao lado e acenaram-lhe que se sentasse. Deram-lhe a salada e as sardinhas que restavam. O Empregado pôs-lhe na mesa um prato, um garfo e uma faca, aqueceu-lhe as sardinhas e encheu-lhe a travessa de batatas.


 


Levantou-se e agradeceu-lhes da mesma forma ininteligível. Deixou o prato totalmente limpo, apenas com os restos das cabeças das sardinhas. Encostados às ombreiras da porta, os Empregados comentavam que já há algum tempo que não aparecia e que, por vezes, era muito mal-educado. Mas desta vez, não tinha sido.

4 comentários:

  1. Anónimo21:43

    Saliento apenas dois pontos: 1) os resultados profundos da crise que vivemos no campo das necessidades básicas, aprofundados pela forte diminuição dos apoios sociais, que atinge por vezes a sua completa eliminação; 2) a reserva de solidariedade manifestada pela entrega de parte do pouco que se tem para mitigar a situação de carência daqueles que têm muito menos.

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  2. Anónimo21:45

    O comentário anónimo anterior é da minha autoria. Por lapso não a indiquei.
    LS

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  3. pink10:46

    "por vezes era malcriado....."

    havia necessidade?...


    como extirpar da burguesia os preconceitos e distorções de que não se consegue limpar?

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