03 junho 2012

Vulgar

 


Que enfado para o que não se define. A superficialidade com que tudo se discute e se opina, os pequenos nadas que causam tantas indignações estéreis e fugazes, a negligência deixamos instalar no quotidiano, a complacência pelos comportamentos de enguia, pela falta de exigência, pelos voluntarismos inconsequentes, pela mais completa incompetência de quem apenas trabalha para a imagem, são o espelho da maioria das organizações.


 


Quando fazemos grandes e intrincados raciocínios sobre as causas das coisas, os maquiavélicos objectivos a atingir por quem toma decisões, esquecemo-nos de que, o mais provável, é serem ditados pela mais pura falta de inteligência, pela mais vulgar ignorância de quem achamos mais digno, mais esperto, mais tudo.


 

Limiar

 




 


1.


Poucas as vezes em que a chamada nos encontra


de voz em concha de dedos em antena, num frémito de desejo


que se apronta. Por nós ou pelos outros poucas as vezes


que então se medem, em nomes que nos moldem e amortalhem.


 


 


2.


À porta de um outro tempo no limiar das decisões


inadiáveis, sopro com decoro a urgência que as palavras


me ditaram, entre cumes de sentidos que arrumo


mais além. Já cobrimos a nudez de tanta ferida


que servimos em silêncio a indiferença.


 

02 junho 2012

Sem solução

 


Reafirmando tudo o que escrevi ontem, há outra dimensão, e uma grande e fundamental dimensão, do caso Miguel Relvas, que é a política.


 


A promiscuidade entre as empresas, os serviços do Estado, nomeadamente os de informações, as máquinas partidárias, e a comunicação social, o sentimento de impunidade de tantas figuras das nossas elites, as trocas de favores que fazem o mundo dos bastidores do verdadeiro poder, o confisco da independência decisória, a negligência e incompetência dos nossos representantes - governo, oposição, etc. - estão patentes em toda esta embrulhada que pomposamente se apelida de caso das secretas.


 


Se defendo que o estado de direito deve estar ao lado de qualquer individual cidadão, seja ele quem for, não posso de deixar de estranhar, tal como os dois Pedros do Bloco Central, a actuação do Primeiro-ministro, que ficou refém de Miguel Relvas, e da oposição, nomeadamente do PS, que se demitiu de ter qualquer relevância no importantíssimo papel de fiscalizador da acção governativa.


 


Tudo parece uma brincadeira de mau gosto. Juntando as afirmações de António Borges quanto à necessidade de uma nova e mais drástica redução salarial com a derrocada da Espanha, não sei mesmo que quantidade de terra teremos que cavar para chegarmos ao fim do túnel e que forças nos sobrarão para rasgarmos a providencial janela.


 

01 junho 2012

Malhas de crise

 



 


A crise por que estamos a passar, e neste momento estou a referir-me à económica e financeira, tem obrigado muita gente a reorganizar a sua vida e a redefinir as suas prioridades.


 


Neste momento, há cada vez mais pessoas a optarem pelas lancheiras. À hora de almoço, trocam-se receitas e discutem-se utensílios para se obterem opíparas refeições, saudáveis e a preços irrisórios. O faça você mesmo ganha adeptos. Tudo se faz em casa, desde agricultura de subsistência e biológica, a roupa por medida, não há como a imaginação para vencer o desespero.


 


E os negócios, principalmente aqueles que escapam aos impostos, os que alimentam a economia paralela, em pujante crescimento, aproveitam as oportunidades, levando à letra o nosso Primeiro-ministro. É só passar pelos centros comerciais para se verem banquinhas repletas de exemplares de cores garridas, de várias formas e tamanhos, mais sisudas ou mais folclóricas, que servirão de imediato como modelos às mais caseiras feitas por mãos habilidosas, a preços muito mais convidativos, fazendo passar os euros de mão em mão sem outras intermediações.


 


Malhas que a crise tece.


 

Das trituradoras

 


As figuras públicas, em Portugal, são trucidadas pelas fugas cirúrgicas de informações com que os processos, judiciais ou outros mas profundamente kafkianos, vão sendo do conhecimento geral, a conta gotas, para grande agitação da mole humana, para grande felicidade das caixas de comentários dos posts e das notícias online, dos fóruns de discussão das televisões e das rádios.


 


Miguel Relvas foi para o governo para domesticar a comunicação social, para servir de escudo ao primeiro-ministro, para servir de ponte aos autarcas do partido. É uma figura que personifica o que de mais negativo existe quando nos referimos aos aparelhos partidários. Mas isso não pode justificar o manancial de acusações, suspeitas e insinuações que, todos os dias, são gritadas e repetidas, quase como se fosse essencial que todos concluíssem pela vilania da pessoa em questão, sem qualquer possibilidade de defesa ou explicação.


 


Sócrates e os seus ministros foram e continuam a ser vítimas do mesmo. O pior que pode acontecer a alguém, seja quem for, é ser alvo de suspeitas que ficarão sempre em suspenso, nunca esclarecidas. Se há indícios de que Miguel Relvas actuou criminosamente, pois que se acuse, investigue, julgue e condene ou absolva. Mas este metralhar incessante é indigno e o resultado vai ser o mesmo que os diversos desfechos de processos que se esboroam e desacreditam a justiça, para além das pessoas enroladas por eles.


 


O estado de direito e a justiça para os nossos aliados e amigos deve ser idêntica à dos nossos adversários e inimigos. É uma amarga lição para quem, da parte do PSD, tanto contribuiu para o clima de caça às bruxas, acusações sem provas e delapidação da confiança na política e nos servidores públicos. Quem acredita na liberdade e na justiça não pode deixar de se revoltar com a constante delapidação dos valores da democracia, sinónimo de uma sociedade doente.


 

27 maio 2012

Pão-de-ló com re-cheio-o e co-ber-tu-ra de cho-co-la-te

 



 


Este é um bolo adequado à nova geração dos nossos governantes. Soletram-se os ingredientes, demora-se no mexer da colher de pau, deleita-se o paladar no vagaroso saborear.


 


Imaginemos o nosso ministro olheirento com um avental e uma colher de pau, rodeado de uma organizadíssima mesa de cozinha, a tarde por conta dele (provavelmente a mulher aproveitou para arejar, de forma a não assistir à dolente epopeia culinária). Rigoroso, lê os ingredientes e coloca-os a todos à sua volta, perfilados e obedientes:


 


Para o recheio:


Uma tablete de chocolate para culinária com, pelo menos, 50% de cacau


Dois decilitros de leite gordo


Seis colheres de sopa de açúcar


Duas gemas de ovo


Um pouco de canela em pó


Duas colheres de chá de licor (qualquer um, se caseiro melhor)


 


Para a massa:


Seis ovos


Trezentas gramas de açúcar


Cento e cinquenta gramas de farinha


 


Para a forma:


Margarina e farinha para barrar


 


Começa por ligar o forno, aproveitando para derreter a margarina dentro da forma – grande com buraco a meio, ou sem buraco. Com um pincel barra bem o interior da forma e depois peneira-a de farinha.


 


A seguir parte os seis ovos para dentro de uma tigela, mistura o açúcar e bate tudo por muito tempo, até a massa duplicar e ficar quase branca. A seguir junta a farinha, bate mais um pouco. Leva a massa ao forno, em lume médio, por 30 a 40 minutos (tem de certeza palitos de vários tamanhos para espetar no bolo, apreciando a cozedura).


 


Enquanto coze o bolo parte a tablete aos bocadinhos para dentro de uma panela pequena, junta o açúcar e o leite quase todo e um bocadinho de canela, deixa ao lume brando até derreter o chocolate, mexendo. Bate as gemas com uma colher de pau e mistura o resto do leite, deitando depois no chocolate derretido para engrossar, mexendo sempre. Quando está quase ferver, junta o licor e desliga o lume.


 


Logo que o bolo se apresentar cozido deixa-o arrefecer um pouco, desenforma e parte-o ao meio, para poder rechear com a papa de chocolate. Junta as duas metades e cobre-o com a papa sobrante. Nesta altura já a excelentíssima esposa deve ter regressado, preparadíssima para deglutir o bolo que amorosamente o queridíssimo fez.


 


Quem sabe as qualidades escondidas que terá o nosso ministro olheirento?


 

Myth

 



Beach House 


 


drifting in and out, see the road you’re on
you came rolling down the cheek
say just what you need
and in between it’s never aš it seems

help me to make it
help me to make it

if you build yourself a myth
know just what to give
what comes after this
momentarily bliss
consequence of what you do to me

help me to make it
help me to make it

found yourself in a new direction
eons far from the sun
can you come when they come to reach you
let you know you’re not the only one

can’t keep hanging on
to all that’s dead and gone
if you build yourself a myth
know just what to give
do you lie?
we’ll let the ashes fly

help me to make it
help me to make it


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

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