12 dezembro 2011

Direito à saúde

 


Tenho estado espectante sobre a política de saúde deste governo. Considero indispensável, agora como antes, a necessidade de tomar medidas para sustentar financeiramente o SNS. A crise do País e da Europa agravam a situação. Mas precisamente por isso é tão importante a gestão dos serviços que o Estado deve manter e reforçar em épocas de austeridade e de grande redução de rendimentos disponíveis.


 


O aumento das taxas moderadoras eram esperadas, ou até exigidas pela troika. Mas a magnitude do aumento e a indiscriminação aparente do que aumenta faz perigar o acesso aos serviços de saúde a quem tem mais dificuldades económicas.


 


As taxas moderadoras para as urgências devem servir para incentivar os cidadãos a recorrer aos Centros de Saúde e aos médicos de família. Mas não é honesto e é perigoso aumentar para o dobro as primeiras (o custo das urgências pode ir até 50 euros por episódio) e para o triplo as segundas, pois não há médicos de família suficientes e os Centros de Saúde não têm capacidade para atender os doentes em tempo útil.


 


Estrangula-se de um lado e estrangula-se do outro. Ou seja, pela primeira vez desde a instituição do SNS os cidadãos portugueses deixarão de ir ao médico porque não têm dinheiro.


 


Se há ou não margem para o crescimento das taxas moderadoras é um debate fútil. O SNS, tal como a Escola Pública e a Segurança Social são as bases da sociedade que construimos desde o 25 de Abril. Ao contrário do que as manipulações política e jornalística tentam divulgar, são instrumentos que garantem a igualdade de oportunidades e a igualdade de direitos a todos.


 


O SNS tem por obrigação cortar os desperdícios, reorganizar-se e tornar-se mais eficiente. Os profissionais são quem mais pode contribuir para isso, pois a redundância de prescrições de meios complementares de diagnóstico e a hipermedicação são dois enormes sorvedouros de dinheiros públicos e exemplos de má prática. Mas o direito à saúde, inscrito na Constituição e no código genético da nossa democracia, está a ser posto em causa com este tipo de medidas.


 

10 dezembro 2011

Os novos apóstolos

 



Chua Mia Tee


 


Ainda não passou um ano desde as últimas eleições. E nos entanto parece que vivemos noutro país, noutro mundo. A abruta e tenaz contração económica, a depressão, o cinzentismo nacional, a subserviência, o oportunismo, o falso moralismo, o conservantismo, a destruição do laicismo, do conceito de estado social, do direito ao trabalho, da remuneração condigna, alteraram profundamente a sociedade. As lojas esvaziam, a recessão aumenta, contam-se cêntimos e, pior do que tudo isso, ninguém tem esperança no futuro e as certezas são apenas para o aumento inevitável da austeridade.


 


Retrocedemos mais de 30 anos, para a ideologia do inho. Regressámos ao destino de quem defende ser formiga para sempre, de quem inveja a cigarra e, com os olhos gulosos no pecado, grita bem alto a sua virtude vaidosa e hipócrita. A honradez não precisa de batina e a criatividade não é desperdício. Mas os novos apóstolos económicos riscaram a busca da felicidade dos seus cadernos de contabilistas. Se é que alguma vez souberam ler.


 

Esta Europa não é para nós

 



 


A Europa fez o que o eixo franco-alemão tanto desejava – as decisões europeias não são democráticas e a democracia passou a ser uma palavra sem significado nos países europeus.


 


O novo acordo, que não é tratado para que não seja necessária a ratificação parlamentar e/ou referendo, impõe que os orçamentos de cada estado soberano sejam revistos pela Alemanha, que as constituições de cada estado soberano sejam modificadas. Ou seja, que os estados deixem de ser soberanos e passem a ser uma parte da Alemanha.


 


Para que iremos nós, cidadãos portugueses, eleger parlamentos se os instrumentos da governação vão passar a ser decididos e Berlim?


 


O governo português, liderado por Passos Coelho, não podia ser mais subserviente nem acomodatício. Tal como o líder do seu parceiro de coligação. Honra seja feita a António José Seguro que, desta vez, não se mostra disponível a abster-se na questão constitucional.


 


Esta Europa não é para nós. Convinha que nos preparássemos para sair pelo nosso próprio pé deste pseudofederalismo.


 

08 dezembro 2011

Sem dívidas

 


Há ainda um enorme grupo de pessoas que, talvez receosas de que a manipulação da informação que protagonizaram e a desinformação centradas no ódio a José Sócrates, eleito como o maior idiota, incompetente, mal intencionado e parolo do mundo, aquele que deu origem à crise em Portugal e, pelos vistos, em toda a Europa, responsável pelas cheias, pela seca e pela rapina d’Os Mercados, comecem a ser esquecidos perante a imposição da realidade. Por isso continuam a publicar artigos e opiniões sobre o ex Primeiro-ministro, citando em tom jocoso frases retiradas de uma conferência, episódios em reuniões de pais e pagamentos de jantares faustosos.


 


Esses opinadores estão saudosos de um tempo, de um país e de uma sociedade que já não existem, em que a honra se media pela humildade, pobreza, falta de ambição e a cristã resignação perante a incapacidade de se ter um lugar ao sol, neste mundo.


 


Só para esses opinadores é que os países não têm dívidas, só para esses opinadores um país se basta a si próprio esquecendo as inter-relações entre as sociedades, as economias, as culturas. Só para esses opinadores é mais importante não ter dívida pública que investir em conhecimento, ciência, escolas, hospitais, estradas, aeroportos, barragens, parques eólicos, reformas, subsídios de desemprego. Só para esses opinadores o estado deve ser destruído.


 


De facto há um conjunto de ideólogos que não se reviram no estado social que nos orientou durante a última metade do século XX. Esta é a hora deles.


 

Em perda

 


O episódio entre o Governador do Banco de Portugal e o Deputado João Galamba é mais um dos sinais da forma como, nos dias que correm, a actividade política é desconsiderada.


 


Ser Deputado tem uma cotação parecida com a avaliação que as agências de rating fazem de Portugal - lixo. Pelo contrário, ser-se economista, gestor ou equivalente, confere de imediato um estatuto, uma importância e uma competência automáticas, independentemente da valia específica do profissional. Portanto, ser-se inconveniente e desrespeitador para um deputado é o que se impõe, até porque, por definição, a tecnocracia é detentora da razão.


 


O mais triste é que o PS e José Sócrates, muito particularmente, têm grandes responsabilidades na violência e ofensiva da linguagem parlamentar. Será muito difícil, nesta onda retrógrada, conservadora, arrogante e deselegante, reverter a situação. Mais uma vez perde a democracia.


 

04 dezembro 2011

Viver mediterrânico

 


Temos tendência a admirar outros países mais ordenados, mais organizados, mais trabalhadores, com muito mais poder económico, aquilo a que chamamos a Europa civilizada, em oposto ao nosso país e à nossa sociedade, que reputamos de subdesenvolvida, gastadora, consumista e preguiçosa.


 


É notícia o aumento do desemprego entre as empregadas domésticas por causa da crise económica que atravessamos. É compreensível que assim seja, pois a classe média que mantinha uma empregada doméstica deixa de ter capacidade económica para a sustentar. Começa por lhes reduzir as horas mensais, deixa de lhes pagar subsídios e acaba por prescindir dos seus serviços. Ouvi já muitas vezes citar os exemplos de países como a Bélgica, a Holanda, a Noruega, a Dinamarca, em que praticamente não existe esta profissão. O que talvez também não exista nesses países é a quantidade de pessoas com baixas qualificações que, ao perderem este emprego, não encontram outro. É claro que se deve investir na educação e na formação de todos os cidadãos, mas a existência deste tipo de empregos, numa sociedade como a portuguesa, contribui para o equilíbrio social.


 


Tal como o hábito de comer fora, desde o pequeno-almoço ao jantar. Os pequenos cafés de bairro são locais de convívio e de aconchego para muitas pessoas, nomeadamente para os idosos. Para além dos postos de trabalho que criam, mantém uma rede de acompanhamento de proximidade, de cumplicidade de vizinhos, que permite a assistência rápida a quem dela precisa, refeições a baixo preço e o mitigar da solidão de tanta gente.


 


A substancial redução de rendimentos a que estamos forçados vem romper estas redes sociais e de trabalho, alterar uma forma de vida que não se substituiu rapidamente nem sem enormes custos. E talvez como a dieta mediterrânica, que muitos cientistas acabam por indicar como muito boa e equilibrada, o modus vivendi mediterrânico seja melhor do que, nesta altura, nos querem fazer crer.


 

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...